A falsa propaganda do cristianismo

Thiago Bomfim

Igreja é ambiente hostil para minha atual disposição de espírito. Todas, das que seguem linha conservadoras às mais liberais, optaram por uma pregação excessivamente positivista. A melancolia, a decadência, parece hoje, aos olhos de qualquer cristão, pecaminosa e despropositada perante à mensagem das boas novas.

Há duas ideologias que tornam a felicidade obrigação de qualquer crente: a tradicional prega que o convertido deve se alegrar com a sua salvação e, altruisticamente, sair a divulgá-la por toda a parte, dando a outros a chance de participar do plano divino que, como presunçosamente se conclui, está a cargo dos cristãos; a outra concepção, mais recente, acredita que a alegria da salvação começa a ser concretizada já no viver terreno e se pensa, também presunçosamente, que está a cargo dos iluminados e compassivos homens convertidos. Aliás, neste último caso, a possibilidade de vida eterna passa ao segundo plano – quando não é ignorada – graças à prioritária missão de tornar a terra um lugar melhor e a sociedade uma organização mais justa.

Em ambas as correntes, o cristão acaba privado do direito ao enfado e do sabor da melancolia.

Especialmente na moderna visão da tal alegria cristã, o crente é obrigado a cultivar um sentimento romântico, de contemplação das belezas naturais, buscando em tudo um reflexo da bondade divina, da mística, que deve ser, consequentemente, sintetizada em alegria no espírito. O resultado desta felicidade contratual é a aparência artificial, como tudo aquilo que é gerado por meio de propaganda ou pregação.

Há, para cada uma das duas linhas de pensamento apresentadas, duas óbvias reações naturais de todo cristão que toma a noção de que pode ser salvo ou que se ilude com o poder de mudar o mundo:

  • No primeiro caso, o da salvação que se apega ao paraíso celestial e à propagação da mensagem, a reação seria um sentimento de angústia já que o trabalho de conversão é frustrante perante a predominância de outras religiões que não a cristã, que como se supõe, é a única capaz de salvar o homem do sofrimento eterno. O homem salvo poderia também questionar a duração de sua dolorosa existência terrena diante da perspectiva do gozo celestial.
  • Para a segunda ideologia, a dos cristãos “we are the world”, o óbvio é perceber, cedo ou tarde, que o trabalho social é frustrante e está submetido a outros fatores de fracasso, como os caprichos da natureza que pode dizimar uma população completa, caso recente do Haiti, em que obras assistências foram abaixo junto com o terremoto. Pior, a ideia de um mundo melhor é completamente limitada e submetida aos outros percalços da vida, cujos resultados para o espírito são ainda piores, se levarmos em consideração que a prioridade é terrena (incompleta) e não celestial.

Ou seja, a alegria cristã está mais para uma propaganda de que estamos com a melhor mensagem, do que para uma resposta natural ao conhecimento das supostas possibilidades de um salvo. Isto não é desculpa para que não se faça o que é necessário, mas é um aviso para que deixemos de tornar a felicidade atributo espontâneo da conversão.

“Bem aventurados os que choram, porque serão consolados.”

fonte: Livraria do Thiago

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