“A gente durmimo” no quentinho

Helena Beatriz Pacitti

Uma familia extremamente necessitada recebeu um presente anônimo às vésperas do inverno.  Quem intermediou a ação foi uma enfermeira que conhecia as redondezas.

O volume foi entregue logo pela manhã, antes que a mãe saísse de casa e deixasse, como sempre, as três crianças pequenas trancadas no minúsculo cômodo em que viviam.  Talvez não fosse a melhor opção, mas quem mora em uma área carente da Baixada Fluminense não pode se dar ao luxo de deixar os filhos soltos pelas ruas.

Em meio à surpresa matinal, os embrulhos foram abertos rapidamente pelos três. Havia pacotes coloridos com cobertores novos, brinquedos, pares de meias, chocolates. Chocolate era uma preciosidade para eles. A cada fita desenrolada, gritinhos de contentamento.  A alegria se estendeu até a noite.

No dia seguinte, saindo de casa, a enfermeira bateu à portinha do barraco e olhou pela janelinha o rosto das crianças.  O caçulinha, ainda deitado ao lado dos irmãos, já estava acordado.  Seus grandes olhos de jabuticaba brilhavam enquanto passava as mãos vagarosamente pelo cobertor novo.

Ele levantou, chegou perto da janela e estendeu as mãos para a moça. Claro, ela não ia tirá-lo de lá,  mas soprou um beijinho e perguntou do que ele mais tinha gostado: dos brinquedos ou dos chocolates?

Ele olhou com ternura para os irmãos adormecidos na única cama, dobrou os bracinhos e, sorrindo, respondeu baixinho:

– O que eu mais gostei é que essa noite ” a gente durmimo” no quentinho.

Quem ensinou esse garotinho que “a gente” é mais importante do que “eu”? Quem colocou tanto amor no seu coração, que preferiu sentir satisfação por terem dormido juntos, “no quentinho“, felizes,  mesmo tendo outros presentes?

Quem?

fonte: Timilique!

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for “A gente durmimo” no quentinho

Deixe o seu comentário