O Dragão da maldade e o Santo Guerreiro

Fabrício Carpinejar

Arte de Chen Rong

A tatuagem é o horóscopo do corpo.

Não há cantada mais previsível do que exclamar que “linda sua tatuagem”. O passo seguinte é “posso ver?”. Se ela estiver escondida, o assanhamento cresce.

A vaidade anula a reação da vítima, nem percebe a cafonice do galanteio e mostra os traços. Cessa o que está fazendo para arregaçar as mangas no meio da rua e oferece o braço e os ombros para assegurar uma maior visibilidade ao espectador.

A alegria pelo reconhecimento do bom gosto apaga a consciência de que todos (todos!) fazem igual. Ocorre uma ingenuidade que entorpece o senso crítico. Uma adoração da marca que embaralha a inteligência.

Quem é tatuado se sente correspondido e fala para um estranho o que nunca ousou contar nem para si. Detalha onde realizou e o que pretende transmitir com a inscrição.

Toda tatuagem é uma tese acadêmica, com resumo pronto. Pode ser um ideograma, uma estrela, uma borboleta, um personagem infantil, linhas tribais, existe sempre uma filosofia de vida por detrás, uma explicação, uma predestinação biográfica. A tatuagem é catarse na certa. Terrível é que a intimidade forjada nunca é desmascarada. Não são identificadas as segundas intenções.

Converteu-se realmente no novo signo. Mais usado do que mapa astral, ascendente, lua e forças astrológicas no boteco e nas baladas. Qualquer um recorre a esse recurso na abordagem, não precisa conhecer a língua portuguesa para seguir em frente. Virou uma praga do vestiário e dos clubes sociais.

Na segunda piscadela, vem o diálogo pronto, o mingau da aproximação. A ordem segue o roteiro imutável de um vendedor de seguros, o deslumbramento inicial – uma tatuagem, olha só – que vira interesse comercial – me conte mais?.

A observação corre na estrada da insinuação, desembocando no convite ao strip-tease verbal. Uma tatuagem chama a outra que chama outra, e aquilo que começou com uma fotografia isolada termina em calendário de borracharia.

A cantada é genuinamente brega como “Sandra Rosa Madalena”, de Sidney Magal. Não difere coisa alguma do questionário dos Paulo Coelho da pegação: “Está machucada?”/ “Por quê?”/ “Pois você é um anjo que caiu do céu”.

Feliz era minha infância, em que a mulher tinha que possuir uma cicatriz para provocar curiosidade. Tinha que possuir uma pinta para gerar suspense. Não era simples seduzir. Os cafajestes não gozavam de facilidades como hoje.

Venho sofrendo com as tatuagens, não as minhas, da namorada. Estou me transformando em Bentinho vigiando Capitu. Só que os olhos de ressaca são meus.

Era fã de carteirinha dos desenhos na pele, a chance do mundo inteiro ser sardento – o sardento é um iluminado de nascença. Mas venho mudando de ideia. Ela já tem cinco tatuagens, atraindo o cerceamento de vigaristas. Em seu corpo, é possível encontrar um lagarto e uma inscrição “honrar la vida” de Mercedes Sosa cobrindo a lombar, uma ovelha negra homenageando Nietzsche na canela direita , um “Old School” com o lema em inglês “chegar lá é metade da diversão, manter-se lá é metade da batalha” e um Jack de Tim Burton na perna esquerda. E vou avisando ao leitor para que não pergunte a ela.

Eu apenas fico feliz no inverno. Quanto mais frio e casacos, menores a enxaqueca e a preocupação. Durante o verão, não vejo escapatória, devo aturar a nuvem de insetos em cima de sua brancura, uma linha sempre escapará das roupas, espécie de isca que denuncia o cardume silencioso da tinta.

O que me irrita é que o sujeito apaga a minha existência. Mesmo com os beijos, abraços e mãos dadas, é capaz ainda de me confundir com irmão ou amigo gay.

Na última vez, um jovem desmiolado destacou a tatuagem de Cínthya diante da plateia de meu ciúme.

Logo repliquei: – É minha namorada.

Ele encabulou. Não deixei por menos, levantei a barra da calça para que ele observasse meu Dragão cuspindo fogo.

– Não vai elogiar?

fonte: Blog do Fabrício Carpinejar

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