Futebol e racionalidade

Claudio Weber Abramo

A irracionalidade parece ser uma característica essencial do futebol.

Dificilmente alguém discordaria da afirmação caso fosse restrita ao futebol brasileiro, em relação ao qual os exemplos são permanentes. Tudo o que envolveu a seleção brasileira nos últimos quatro anos se explica quando se introduz o elemento da insanidade.

A maluquice começou com a nomeação de um treinador cuja única notoriedade residia no fato de ser um brucutu semialfabetizado (lembram-se da cabeçada que aplicou num jogador de sua própria equipe, em plena partida, num jogo da Copa de 1998?).

Permitir-se que um membro da comissão técnica escolha pessoas para exercer funções objetivas (como olheiro e chefe da segurança, conforme se noticiou) por conta de sua obediência a uma seita religiosa só pode ser resultado de doideira.

Igualmente insano foi admitir-se que o capitão da seleção brasileira, ao qual se conferiu a responsabilidade de ler um texto contra o racismo na abertura da partida contra a Holanda, enfiasse no final uma menção religiosa, como é típico dessa gente sempre disposta a enfiar suas crendices goela abaixo de todo mundo. Não consta que a CBF ou a FIFA tivessem tomado alguma providência a respeito da pirataria cometida.

Sob o ponto de vista estritamente futebolístico, o quê, além de parafusos soltos, poderia justificar a escolha de um jogador que não apenas havia sido eleito como o pior do campeonato italiano como também é conhecido por sua propensão a agredir adversários?

Mas não é só no Brasil que essas coisas ocorrem. Os argentinos, por exemplo, não ficam atrás. Não se conhecem os detalhes mais ridículos da irracionalidade que envolve ou envolveu a seleção argentina, mas se sabe que por lá impera um tal de Grondona, o Ricardo Teixeira portenho. Foi esse o sujeito que contratou Maradona, um alucinado conhecido. Esse sujeito, após convocar mais de cem candidatos, terminou com um time desprovido de defesa, tendo sido expeditamente despachado por causa disso.

Prova adicional que o futebol é mesmo algo inexplicável é que o “comandante” argentino, embora a equipe que montou tenha sido massacrada com humilhação, tenha sido recebido pelos torcedores como herói. Vai entender.

E os franceses, então? O técnico francês escolhia jogadores com base no horóscopo. Como é que pode? Na França!

Os ingleses, por seu turno, contrataram (por 6 milhões de libras por ano) um italiano que não fala inglês. Não contentes, assinaram com o camaradinha um contrato que os amarra até 2012.

A esta altura, o eventual leitor poderá objetar, com razão, mais ou menos na seguinte linha: não é possível que o futebol seja irracional, pois em torno dele giram negócios bilionários. A Copa do Mundo é um empreendimento altamente rentável. A FIFA, a CBF, as suas congêneres argentina, francesa, inglesa etc. se enchem de grana.

É isso, precisamente, que explica a aparente irracionalidade do futebol. Para os cartolas de um país qualquer, não tem a menor importância se o time é um lixo, se o treinador é um aventureiro ou se o jogador é um moleque. Interessa o negócio. Mesmo que a seleção nacional do país X seja eliminada (com ou sem vexame), se os negócios estiverem garantidos, tudo estará numa boa.

Como se trata de entidades privadas, os dirigentes de federações e confederações só prestam contas uns aos outros. Em outras palavras, não importa o que façam com a grana – uma mão lava a outra e estão todos conversados.

Melhor ainda é morder uma bufunfa pública. Os estádios da África do Sul, um país que não joga futebol, aí estão já a mofar.

Por aqui, pode-se ter certeza de que a cartolagem nacional está olhando a grana pública com olho gordo, para a adaptação (e mesmo construção, caso se confirme o aparente contrassenso do tal de Piritubão) de estádios para a Copa de 2014. Precisarão ser vigiados de pertíssimo.

De modo que ficar discutindo se o próximo técnico da seleção brasileira será Fulano ou Beltrano não tem realmente relevância.

Claudio Weber Abramo
Diretor executivo da Transparência Brasil

via Blog do Juca Kfouri
dica do Rogério Moreira

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