Cura

Helena Beatriz Pacitti

Imagem de Leandro Prado

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Manhã chuvarenta e me encolho
Listas, contas e boletas
A vaga, a buzina,
A pressa e o tropeço.

O passarinho canta, não ligo
Só vejo a poeira nos cantos.
O rascunho das pessoas preocupa,
E a dupla face me irrita.

Tomo café, tomo fumaça
Telefonemas ao mesmo tempo
Dias que passam em preto e branco
Ou em formato 3 x 4.

Respiro curto, talvez doente,
Vítima de conspiração alguma.
O mundo eu carrego no pescoço,
Nos ombros, na garganta.

Olha lá as crianças da creche
Creche beneficente, de pobre.
O garotinho feio no canto
Adora brincar com carrinho

Vermelho, de corrida
Ser o piloto do século.
Outro adora o lanche
Pão macio com recheio indecifrável

Tem jogo da amarelinha
Onde fácil se chega ao céu
Para quem sabe equilibrar
a sorte, a pedrinha e o pé.

Outra tropeça, chora e se consola:
A amiguinha veio ver seu joelho esfolado.
Os habitantes do mundo creche
Choram, sofrem, brincam de banco e casinha e céu.

Olho lá aquela creche
De pequenos acontecimentos
De pequenas tarefas simultâneas
Onde Deus é Quem ajeita as coisas.

Deus, a quem peço:
Me cura de ser grande.

fonte: Timilique!

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