É o revés de um parto…

Thiago Azevedo

Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Esta música do Chico é muito forte, pois a temática da dor da saudade é algo que nos assombra, principalmente quando esta nunca mais será completada pela presença.

A temática da morte é muito presente em praticamente todas as religiões do mundo, mas uma coisa é tentar responder a essa grande questão que move o ser humano, outra, é se deparar de forma real com o único destino que é claro na mente de todos os seres.

Muitas perguntas nos tomam a mente quando alguém muito querido é tomado. Por mais que digamos todos os jargões bíblicos sobre a morte, ainda assim, não há como se consolar com a perda, com a simples possibilidade de não ter mais a presença daquele que se vai. Para quem perde, é para sempre, por mais que haja a possibilidade de um reencontro, porém, como saber como será, ou mais, se ainda será um reencontro?

Nestas horas, nenhuma ortodoxia vale a pena, nenhuma explicação sobre céu e inferno faz sentido numa horas dessas, a única resposta plausível é o silêncio. Uma alma que silencia diante da morte, reflete, pensa e escreve com compaixão e misericórdia. Como se colocar como juiz numa hora como essas? É possível julgar uma alma, quando nada se sabe sobre seu íntimo, seu coração? Quem pode sondá-lo? Portanto, como não podemos responder nada, melhor é silenciar e ver que este é o destino para todos, sejam ricos, pobres, crentes e descrentes.

Saudade, única palavra que existe no mundo que fora criada justamente para expressar este sentimento de ausência, nenhuma outra língua no mundo conseguiu clarear a mente e responder ao coração como ela. E o Chico fora muito feliz, embora seja uma música cheia de infelicidade, ao escrever Pedaço de Mim, com destaque para a estrofe acima. Seja arrumar o quarto do filho, do marido, do amigo, quando se arruma, sabe que há um retorno, entretanto, quando não há o que esperar?

Coelet fala que é melhor ir à casa onde há luto, do que onde há festa, pois na morte, refletimos, meditamos e vemos diante de nós o verdadeiro destino da humanidade. Podemos planejar toda nossa vida, mas, quem consegue planejar a morte? Sabemos que vamos morrer, mas conseguimos imaginar quando ou como?

Não fomos preparados para isso, mesmo sabendo que vamos morrer, não esperamos isso, como vemos no épico de Peter Pan, nele vemos o sonho de todos nós, ser jovens para todo sempre. Em nossas mentes, é isso que sentimos e procuramos viver, ninguém consegue imaginar o amanhã, ninguém consegue se ver morto. Sentimos como se a vida nunca fosse escapar de nossas mãos, mesmo na velhice.

Isso é um fato, tanto que as crianças não tem nenhuma percepção de morte, para elas, morrer é dormir e acordar no dia seguinte, creio que estejam certas, dormir é como um ensaio para a morte, onde neste momento, deixamos um pouco nossa existência e podemos viver um momento de sonho, como uma ida rápida ao paraíso, mas isso não significa que o pesadelo seja o inferno, nem estou querendo criar uma teologia em cima disso, Deus me livre disso, quero apenas refletir diante do assombro da morte.

Paulo disse uma vez, que o morrer é lucro e por eras repetiu-se este texto como algo que nos faz transportar ao paraíso, mas tem um aspecto importante, para muitos, nesse sofrer tamanho, no descaso da vida, morrer realmente é lucro, mesmo sendo lucro, ninguém quer partir e nesse pensamento, nos justificamos em torno daqueles que amamos, de não deixá-los desprotegidos, pensamos que temos uma missão a cumprir e vamos fundamentando uma coisa que ninguém quer assumir: O medo de morrer? O medo de deixar de existir?

Tudo que pensamos sobre o pós-morte são apenas conjecturas, pinturas de um imaginário do que seja estar do outro lado da vida, como diz o adágio, “o que não se conhece, se teme“. Por isso, para evitar temer, criamos e inventamos nossas perspectivas sobre a morte, justamente para esta ser mais sútil e menos traumática quando nos depararmos com ela.

Mesmo criando e inventando, nunca será possível evitar uma coisa…

A saudade…

…Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

…Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

…Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

…Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

…Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

Paz e bem

fonte: Descanso da Alma

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