Internet: Nem tudo acontece como se o mundo fosse uma grande família

Clay Shirky é um dos mais convincentes evangelistas da internet da nova geração. Seu primeiro livro, “Here Comes Everybody”, é um guia otimista, escrito de forma atraente, sobre como a internet está mudando tudo que nos cerca. Em seu novo livro, de certo modo uma sequência, ele afirma que o tempo cada vez maior que passamos conectados à internet, juntamente com as novas ferramentas de comunicação de que dispomos, cria possibilidades para gastarmos nosso “excedente cognitivo” de maneiras novas e proveitosas.

Essa não é uma ideia nova, mas Shirky a trata com objetividade e perspicácia para contar uma boa história. Gostamos de compartilhar, diz ele, e as novas ferramentas de coordenação social nos possibilitam avançar nisso. Na medida em que passamos mais tempo digitando ativamente coisas na internet, em vez de assistir à televisão passivamente, poderemos nos comportar de maneiras mais generosas, colaborativas e mais voltadas para a sociedade.

Shirky começa com o exemplo do www.icanhascheezburger.com , um site popular com fotografias engraçadas de gatos (os chamadas “lolcats”). Mas ele acredita que a internet também será uma bênção para tipos de colaborações mais sérios. Cita como exemplo um protesto online, realizado por garotas adolescentes da Coreia do Sul, contra as importações de carne de vaca americana, na esteira do surto da doença da vaca louca. Também menciona sites úteis, como o www.couchsurfing.com e o www.pickuppal.com , que colocam em contato pessoas que estão doando coisas com outras que estão precisando delas, e coordenam a demanda com grande eficiência.

Mesmo assim, a maioria do que acontece on-line, conforme Shirky admite lá pela metade do livro, nada tem a ver com a “criatividade e generosidade” do subtítulo. Permitir que outras pessoas copiem nossas músicas ou falar de nossos livros favoritos com os amigos está longe do altruísmo puro envolvido em algo como doar sangue. É algo que diz muito mais respeito a encontrar exatamente o que queremos e, de preferência, que seja de graça.

Houve tempo em que a publicação de material editorial, diz Shirky, era algo que só podíamos fazer com permissão das editoras. Mas, agora que qualquer um pode publicar qualquer coisa na internet, o lado econômico do negócio está entrando em colapso. “A indústria editorial tinha que ser levada a sério quando seus custos e esforços faziam as pessoas levá-la a sério…Uma atividade que já pareceu inerentemente valiosa tornou-se apenas acidentalmente valiosa.”

Shirky está certo quando afirma que o contexto econômico das empresas de mídia está mudando radicalmente, mas sua análise dos motivos deixa a desejar. Dependente demais da internet e das redes telefônicas, o aparato explicativo de Shirky vai e volta da prensa de Gutenberg para a internet, como se o século XX nunca tivesse acontecido. Falta um relato sobre o crescimento da grande mídia e suas relações com os consumidores.

Tudo isso é importante porque surge da outra ponta de sua abordagem um tipo de economia inútil. Num livro sobre como usamos nosso tempo livre, Shirky demonstra pouca curiosidade pela maneira como queremos empregar esse tempo. E para um escritor que atormenta a grande mídia em encolhimento com vislumbres de seu possível futuro, não há um só exemplo de algo que possamos querer assistir ou ler.

Estamos muito satisfeitos em digerir rapidamente fotografias de gatos em situações engraçadas no local de trabalho, por que não se trata de tempo livre, mas a maioria de nós preferiria ir para casa para apreciar a “refeição completa” de uma noite assistindo a uma série de TV. Frequentemente, pagamos por isso, mas ninguém vai pagar por fotografias de gatos em situações engraçadas, que é onde os executivos da mídia que dão atenção aos evangelistas da internet podem se complicar terrivelmente. Não importa o que eles dizem, as pessoas ainda querem se sentar no sofá e ser uma plateia, mesmo que agora gostemos de conversar ao mesmo tempo. Qualquer outra coisa nada mais é que uma perda de tempo levemente divertida.

James Harkin é autor de “Cyburbia” (Little Brown)

dica da Marília César

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Internet: Nem tudo acontece como se o mundo fosse uma grande família

Deixe o seu comentário