Haverá luz no fim do túnel da impunidade?

Ruth de Aquino

Oh, pedaço de mim. Oh, metade afastada de mim. Leva o teu olhar. Que a saudade é o pior tormento. É pior do que o esquecimento. É pior do que se entrevar. Oh, metade arrancada de mim. Leva o vulto teu. Que a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto. Do filho que já morreu. Oh, metade amputada de mim. Leva o que há de ti. Que a saudade dói latejada. É assim como uma fisgada. No membro que já perdi.

Era uma vez Rafael Mascarenhas. Um rapaz de 18 anos que tocava guitarra, queria ser músico como o pai, estudava engenharia e vivia com a mãe, a atriz Cissa Guimarães, no Rio de Janeiro. Bonito, alegre, talentoso e popular. Um atropelamento brutal, num túnel fechado ao trânsito para manutenção, tirou sua vida, quando praticava skate com dois amigos. Seu corpo foi jogado a quase 60 metros de distância. O atropelador é outro Rafael, de sobrenome Bussamra, estudante e lutador de jiu-jítsu, de 25 anos.

Pela violência e estupidez, o drama comoveu o Rio e estilhaçou a vida de quem mais o amava. Sua mãe é descrita como alegre. Para quem a conhece, essa é uma meia verdade. Cissa é esfuziante. Transborda com seu riso o espaço da praia ou de uma festa. Rafael era seu caçula. “Pedaço de mim”, de Chico Buarque, abre a coluna por traduzir de forma dilacerante o sentimento materno de perda.

Rafael foi atropelado no Túnel Acústico, extensão do Túnel Zuzu Angel, que liga a Lagoa a São Conrado, à 1h30 de terça-feira. Sem repressão das autoridades, skatistas costumam usar túneis bloqueados por oferecer asfalto liso, longos trechos em declive e menos risco de assalto ou atropelamento, grande ironia.

Ao luto, soma-se muita raiva. Primeiro, do rapaz que entrou em alta velocidade num túnel interditado, fazendo o contorno ilegal por uma das saídas de emergência. Não se sabe se apostava um “racha” ou “pega” com amigos. A destruição do carro revela a velocidade incompatível com o perímetro urbano. Não tinha consciência de que poderia tornar-se um homicida?

Rafael Bussamra fugiu. Abandonou Rafael Mascarenhas no chão como se fosse um traste, um cachorro. Ligou para os bombeiros depois de fugir. A 200 metros do acidente, uma patrulha com dois PMs o abordou e o liberou. Foram 13 minutos de conversa, registrada por câmeras da CET-Rio. Os policiais disseram depois não ter percebido nada de errado no Siena semidestruído.

O que fazem à noite patrulhas da PM pagas para nos proteger? Perguntei ao abalado comandante Mário Sérgio. “Cabe aos PMs nas ruas investigação imediata, contato com o Centro de Operações para saber origem e status do carro e do motorista. O carro tinha faróis apagados, exibia sinais claros de acidente grave. Eles foram afastados, estamos investigando descaso ou coisa pior”, disse ele. Propina, talvez? Os PMs não sabem que existe “prisão em flagrante”? Enquanto isso, Rafael agonizava durante meia hora, até chegar a ambulância chamada por um morador da área.

Rafael Bussamra não foi logo à delegacia. O pai levou o carro às 5 horas da manhã para uma oficina. E pediu urgência no conserto. “Quanto mais rápido fizer o serviço, melhor”, teria dito, segundo o funileiro Paulo Sérgio Muglia. O mecânico interrompeu o reparo ao receber uma ligação dos Bussamras. Policiais recolheram o carro. A placa caíra dentro do túnel, identificando o culpado.

O atropelador só foi à delegacia 17 horas após o crime, com advogado. Negou alta velocidade, disse que voltou pela galeria interditada porque queria comer um lanche no Leblon.

Nenhuma manutenção foi feita pela prefeitura no túnel naquela madrugada. É um dos piores túneis no Rio, escuro, sujo. Não havia câmeras ligadas no local do acidente.

O que acontecerá com os PMs? No ano passado, o governador Sergio Cabral chamou os policiais do caso AfroReggae de “vagabundos, bandidos, marginais” e disse que seriam “expulsos da PM em rito sumário”. Detidos e liberados, cumprem funções administrativas no mesmo batalhão de antes e ganham o soldo normal. Estão “à disposição da Justiça”.

Que Justiça é essa?

Maior escárnio é a sentença que aguarda Rafael Bussamra. Se for condenado por homicídio culposo (sem intenção de matar), poderá pegar dois a quatro anos de prisão.

O que essas penas ridículas e brandas ensinam aos brasileiros? Que a vida não tem valor. E que não há luz no fim do túnel da impunidade.

(Na sexta-feira à noite, o pai do atropelador, o empresário Roberto Bussamra, revelou que os PMs – sargento Marcelo Leal de Souza Martins e cabo Marcelo Bigon, do batalhão do Leblon – exigiram R$ 10 mil para liberar o carro do filho. Teriam sido 8 horas de “negociação”. O empresário pagou só R$ 1 mil)

fonte: Época

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