Empurrando com a barriga

Lula Vieira

Viver fazendo freelance, seja de criação ou como ilustrador, exige – além de talento e conhecimento específico – imensa capacidade para inventar desculpas. Neste ramo, não basta saber fazer. É preciso também saber enrolar. Um freelancer, em princípio, não deve recusar trabalho, a não ser o humanamente impossível. Abrir mão de um faturamento só por ortodoxia, por não saber que quinta-feira pode ser entendida como sexta, assim como sexta-feira é sinônimo de segunda, errado. E, talvez, pode prejudicar um dos encantos da atividade: o indivisível prazer em viver perigosamente. Tem gente que gasta fortunas para receber uma dose de adrenalina na corrente sanguínea, enquanto um bom freelance pode ter a mesma sensação o tempo todo e ainda ganhar para isso.

Eticamente, há justificativas. Todo mundo que encomenda serviço dá um prazo aquém do verdadeiro, pois está implícito que a verdadeira data fatal é sempre um pouco depois da constante no pedido. É um código não verbalizado, um conhecimento só compartilhado com os iniciados. Já ouvi, numa crise, um ilustrador responder, louco da vida, para o tráfego: “É, como eu ia adivinhar que você foi maluco de falar a data certa?”. Não havia nenhum cinismo na indignação. Era a quebra de uma regra tão antiga quanto a profissão.

Viver de freelances não é sopa. Mesmo os mais bem-sucedidos têm períodos de baixa. E, por mais que as pessoas sejam veteranas na área, a sensação de insegurança na entressafra é terrível. Não há experiência que minimize. Não adianta ficar mentalizando que as coisas são assim mesmo. Se o telefone não toca, a sensação de desespero reaparece como um pesadelo antigo.

Por isso o medo de recusar trabalho. Dá a impressão de que abrir mão da sorte é uma atitude de soberba que pode ser punida com o pior castigo para um freelancer: ficar parado um longo período. Daí vem a compulsão por pegar o que vier e tentar conciliar os prazos com o jogo de cintura. Um atraso aqui, uma empurradinha ali, um novo prazozinho ali e ficamos todos satisfeitos.

Mas há que se ter imenso talento nessa mesopotâmica obra de ganhar tempo. Mesmo na enrolação exige-se finura, ineditismo, respeito. Morte ou doença grave em família, catástrofes naturais e outras histórias clássicas depõem contra o freelancer, pois mostram carência de imaginação e falta de elegância. Uma vez, um ilustrador me disse que um policial militar foi o responsável por ele não entregar um trabalho.

Segundo ele, estava com a ilustração no carro quando foi parado por uma blitz. Com todos os documentos vencidos e sem dinheiro, acabou trocando a liberdade pela ilustração de um anúncio para uma fábrica de ar condicionado que eu tinha encomendado. No desespero, a  tal ilustração virou um valioso quadro premiado “até no exterior” que se transformou no presente do sargento à digníssima senhora lá dele. Poderia ser apenas uma desculpa, mas que inteligência, que sabor! Ele conseguiu um novo prazo sem nenhum desgaste.

Semana passada, fomos agraciados com o desempenho de outro mestre. O trabalho estava para ser entregue em uma reunião numa quarta-feira. O freelancer na terça deixou recado com a secretária dizendo que não poderia vir para a reunião de quinta por causa de um imprevisto e sugeria nova reunião na sexta de manhã. E desapareceu. Quando foi localizado, jurou que a data que ele tinha no palmtop era quinta. Com a manobra, criou tal confusão que a entrega ficou mesmo para sexta à tarde. Nada que um probleminha de trânsito não empurrasse para segunda.
Brilhante.

Para quem tem talento histriônico, também conhecido como a mais absoluta cara de pau, a vida fica mais fácil. Um dos melhores ilustradores brasileiros, um dia, entrou na minha sala com um embrulho debaixo do braço e com um sorriso orgulhoso no rosto abriu um enorme pacote, dizendo que eu iria ver um dos melhores trabalhos realizados nos últimos tempos. Isso depois de três dias de atraso na entrega. Com largos gestos teatrais, rasgou inúmeros papéis de embrulho para finalmente aparecer a ilustração. Só que para outro cliente. O mau caráter bateu com a mão na testa, deu um murro melodramático na parede e gritou: “Merda! Peguei o envelope errado! Mas deixe comigo: vou para casa, espanco o puto do meu assistente e volto. Amanhã à tarde estou aqui com a sua ilustração”. E saiu da sala. Dá para brigar com um cara desses?

O computador e seus softwares podem ser desculpas maravilhosas. Eles perdem arquivos, destroem quantidades imensas de textos e leiautes, e desviam coisas através de quedas de servidores, falhas nos provedores e “corrupção” nos sistemas, tudo absolutamente impossível de rastrear.

Tenho em mãos o bilhete de um cidadão: “Lula, precisei tirar uns documentos e tive que sair. Mas volto ainda hoje para terminar o planejamento. Caso fique tarde, não vou complicar sua vida. Posso voltar amanhã e lhe apresento. Volte do almoço com calma e durante a tarde você examina. Para mim, não tem problema”.

Estou eternamente grato por ele não me atrapalhar a tarde nem me obrigar a engolir o almoço com pressa. Um bom inventor de desculpas acaba fazendo você ficar grato a ele.

fonte: Propaganda & Marketing

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