Crise de humildade

Marcio Campos

O articulista Joe Keohane (Boston Globe) nos traz uma notícia não muito boa: os fatos não têm aquele poder modificador que nós costumávamos atribuir a eles. Pesquisadores da Universidade de Michigan descobriram que quando pessoas que têm certas crenças e ideologias são confrontadas com fatos verdadeiros que contrariam essas crenças e ideologias, normalmente elas acabam reforçadas, e não derrubadas. Keohane compara os fatos a antibiótico abaixo da dosagem correta: em vez de destruir a desinformação, a tornam mais forte (ok, tecnicamente não é bem assim que funciona, mas deu pra entender a comparação, não deu?).

Segundo Bellarmino (ao lado), para defender a fé não é preciso fechar os olhos aos fatos científicos.

Obviamente uma das perguntas certas a fazer diante desse resultado é “por que isso acontece?” Keohane dá algumas explicações, inclusive relacionadas amecanismos cerebrais que, digamos, “protegem” nossas crenças e servem para dar uma certa consistência à nossa visão de mundo. Além disso, ele acrescenta, atualmente o fluxo de informação é gigantesco, o que também aumentou a quantidade de informação errada. Nunca foi tão fácil estar enganado quanto hoje. Ainda mais quando o engano é conveniente para reforçar aquilo que já pensamos sobre certos assuntos. Mas quem vai ao centro da questão, para mim, é o cientista político Brendan Nyhan. Para ele, é ameaçador admitir que se está errado. Em outras palavras, parece que existe uma crise de humildade por aí. Eu tenho uma certa birra com o uso de “humilde” para significar “pobre” (como em “é uma casa humilde”), apesar de esse significado já estar consagrado até em dicionário. Afinal, o verdadeiro humilde é o que tem consciência do seu lugar e julga corretamente seus acertos e erros, virtudes e defeitos. É essa humildade que parece estar faltando, considerando as pesquisas citadas no artigo.

Fico pensando em quantos níveis isso opera. Uma vez fiz uma matéria sobre indisciplina escolar e os diretores contavam que às vezes precisavam chamar pais de alunos que em sala de aula eram verdadeiras pestes. Os pais se recusavam a acreditar que o anjinho deles pudesse, na verdade, ser um diabinho, e passavam a falar em “perseguição do professor” ou coisa parecida. Fico imaginando o medo desses pais de reconhecer que, como Marco Aurélio diz a Cômodo em Gladiador, “suas falhas como filho são minhas falhas como pai”.

Um aspecto particular desses estudos tem tudo a ver com nosso assunto aqui: quanto mais aquelas crenças e ideologias são importantes para a pessoa, maior é a tendência de a informação correta causar aquela reação de reforço das próprias visões de mundo, em detrimento dos fatos. E pouca coisa pode ser mais importante para uma pessoa do que suas visões religiosas. Basta ler relatos de conversão (de uma religião para outra, ou do ateísmo para a religião) para reparar que uma das maiores angústias de um convertido em estágio inicial é ter de admitir que estava enganado sobre muitas coisas.
Agora, imagine quando colocamos a ciência no meio… não, a ciência não prova que Deus não existe. Mas prova, por exemplo, que o nosso mundo tem uma certa idade. Provas que contradizem uma certa interpretação bíblica (que, aliás, sequer está no livro sagrado) sobre uma Terra jovem. Diante de tais fatos, é sempre bom recordar a citação de São Roberto Bellarmino (os leitores antigos do Tubo já conhecem, mas ela é tão boa que repetir nunca é demais): para o cardeal inquisidor, diante de um fato científicamente comprovado que pareça contradizer a Bíblia, nunca se deve descartar o fato; melhor é admitir que provavelmente é a nossa interpretação da Bíblia que está errada.

Obviamente a pessoa precisa apoiar sua fé em bases sólidas; imaginemos esses casos do tipo “Nossa Senhora da Vidraça”. Um time de cientistas vai lá e descobre que a tal imagem nada mais é que resultado de uma série de fenômenos físico-químicos causados por certas condições meteorológicas. Eu, como católico, jamais entenderia se um outro católico passasse a questionar sua fé, ou ficasse profundamente desiludido, por causa disso. A ciência tem muitos méritos, e um deles é purificar a religião de comportamentos supersticiosos. Da mesma forma, se existir algum criacionista de Terra jovem leitor do Tubo, gostaria que explicasse por que a questão da idade da Terra é tão fundamental. Afinal, pelo menos da maneira como vejo, se o universo tiver 13 bilhões de anos (em vez de 6 mil) isso não torna Deus menos poderoso, menos criador ou menos pessoal, e nem torna a Bíblia menos verdadeira.

Como dizia o rabino carpinteiro “bem-aventurado os humildes”

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Crise de humildade

Deixe o seu comentário