Missão Integral e a Indefinição na Identidade Evangélica

Se a autoridade de Cristo se estende sobre toda a criação, o povo que confessa seu nome é chamado a relacionar sua fé com a totalidade da vida humana e da história. Nada que afete o homem e sua história está isento da necessidade e da possibilidade de colocar-se em submissão a Cristo […] A missão integral é uma consequência lógica da soberania universal de Jesus Cristo.” [1]

Não que a recusa de ceder o controle seja algo exclusivo na Missão Integral propriamente dita. Não. Penso que ela deixa escapar um aspecto mais genérico encontrado nos evangélicos brasileiros. Por mais que se reformule o que missão e evangelismo sejam com toda a ideia de integralidade do ser humano, por mais que se ressalte a devida suprema importância da contextualização social, resta ainda o controle e um iceberg abaixo. Sim, poderíamos até falar de submissão a Deus, mas pensando nas relações humanas não podemos nos esquecer que a palavra traz consigo a ideia de relação de poder com uma conotação pejorativa. E o que estaria em jogo nessa relação de poder, sob a ótica evangélica?

Respondo provisoriamente: o controle da revelação de Cristo. Pois se a revelação – que foi fechada e sistematizada séculos atrás – não for monopólio evangélico então teremos que revisitar toda nossa teologia e práxis. Desconfio haver, dr. René, na composição da identidade evangélica brasileira uma indefinição que é mais tangível que os demônios da combatida pós-modernidade. Esta é a uma das minhas angústias, dr. René. Como aludi, esta não deriva diretamente da Missão Integral, mas de conhecer os evangélicos brasileiros de dentro. Pelo que pude ver a Missão Integral parece também carregar essa indefinição consigo.

Sabe, dr. René, lendo o comentário de Stott sobre o Pacto de Lausanne 1, vi referência à conferência de Bancoc de 1972 com uma nota de decepção. Isso me levou a uma única referência na Internet sobre o evento: um capítulo em Inglês de um livro de T.V. Phillip. Sinto-me um detetive leigo descobrindo essas coisas. Pois bem, veja só como o Veni, Vidi, Vici contrasta com o que Phillip relata:

“Eles afirmaram que o papel da igreja não era atrair o mundo para dentro da ordem da igreja. Nós devemos parar de pensar na salvação derradeira do mundo como um processo no qual o Senhorio de Cristo sobre o seu Corpo é expandido até que enfim ele atrai o mundo inteiro para dentro do seu domínio. A igreja é a serva da luta de Cristo para trazer nova vida às comunidades do mundo, à Sua criação como um todo. A luta para revelar o Senhorio de Cristo sobre sua criação deve ser relacionada às verdadeiras lutas do povo nas estruturas sociais e políticas de nosso tempo. A igreja pode ser a igreja somente sendo a comunidade da obediência a Cristo dentro das estruturas de vida onde a existência humana já é encenada. A Casa de Deus não é a Igreja mas o mundo, onde a Igreja habita e trabalha como sua serva.”

E ainda: “Foi dito que a tarefa da igreja não era de implementar ordens, sistemas ou sociedades cristãs, mas humanizar as ordens seculares.”

E sobre Hoekendijk: ”No seu esquema, é Deus-Mundo-Igreja e não Deus-Igreja-Mundo.”  [2]

Não me surpreendo de os evangélicos não quererem olhar para a indefinição. Afirmações como “a tarefa da igreja [era] humanizar as ordens seculares” vão deixar meus irmãos e irmãs evangélicos de cabelo em pé quando lerem-nas.

O pessoal da Teologia da Libertação parecia ver a dicotomia entre o sagrado e o profano diferente. Leonardo Boff dá a entender que a desconstrução é uma força interior inerente de Cristo que mina as tentativas de categorização e domesticação:

“Ele [Cristo] derrubou todos os muros, do sacro e do profano, das convenções, do legalismo, das divisões entre os homens e entre os sexos, dos homens com Deus, porque agora todos têm acesso a Ele e podem dizer ‘Abba, Pai’ (Ef 3,18; cf. Gl 4,6; Rm 8,15) […] Daí que ele não funda uma escola a mais, nem elabora um novo ritual de oração, nem prescreve uma super-moral. Mas atinge uma dimensão e rasga um horizonte que obriga tudo a se revolucionar, a se rever e a se converter.” [3]

Leonardo Boff ainda escreve: “Pode-se pregar de muitas maneiras sobre o Reino de Deus. Pode-se anunciá-lo como o outro mundo que Deus nos está preparando, que vem depois desta vida. Ou pode-se pregá-lo como sendo a Igreja representante e continuadora de Jesus com seu culto, sua dogmática, suas instituições e sacramentos. Estas duas maneiras colocam entre parêntesis o compromisso como tarefa de construção do mundo mais justo e participado e alienam o cristão diante do problema da opressão de milhões de nossos irmãos.” [4] (grifo meu)

Deparamo-nos novamente frente à possibilidade da a revelação acontecer fora das nossas categorias deficientes. Leonardo Boff, por sua vez, reflete sobre o escopo global da ação divina e humana, denominando os sujeitos. Assim, abre a porta para ver Cristo em vários “outros”:

“Agora, na plenitude de sua realidade humana e divina, transcendeu todas as possíveis barreiras à sua ação, do sacro e do profano, do mundo e da Igreja, do espaço e do tempo. Atinge a todos, especialmente porém àqueles que, por suas vidas, lutam por aquilo pelo qual o próprio Jesus lutou e morreu, mesmo que não façam uma referência explícita a ele e ao seu significado salvífico universal, e por isso podem ser chamados de cristãos anônimos e latentes.”  [5]

Eu ouço falar de “integralidade” mas não ouvi os evangélicos elaborarem muito bem sobre este Cristo no outro. Se Cristo está mesmo no outro não estaria a revelação também fora de nós? Temo que se não reconfigurarem-na teo-sociologicamente a “missão” dos evangélicos sempre terá o aspecto negativo do proselitismo e nunca abdicará do controle. Sinto falta da celebração do evento reconfigurador, do Outro.

Trechos do artigo “Missão Integral e a Indefinição na Identidade Evangélica” de Gustavo K-fé Frederico na revista Novos Diálogos.

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[1] “O que é Missão Integral?”, René Padilla. Editora Ultimato, ISBN 978-85-7779-031-9, 2009. p. 117
[2]  “Mundo, Missão, e Igreja” T.V. Philip. http://gustavofrederico.blogspot.com/search/label/Philip acessado em 18/4/2010.
[3] “Jesus Cristo libertador: ensaio de cristologia crítica para o nosso tempo”, Leonardo Boff. Editora Vozes, ISBN 978-85-326-0640-2, p. 72
[4] Ibid, p. 36.
[5] Ibid, p 162.

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