A Popastora e a Matrix espiritual

Quando tinha 8 anos, Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade viu e ouviu o demônio em seu quarto, mais de uma vez: “os olhos eram de um vermelho fulminante, o sorriso, malicioso como o de um tarado, e seus pés eram patas de bode”. Muitos pensaram que fosse pesadelo, mas ela tinha certeza de que era verdade. Teve ainda outras visões, até uma em que um anjo do Senhor, entre um pó flutuante que parecia glíter prateado, afirmou: “Vai dar tudo certo”. Deu mesmo. Passou o resto da infância dormindo tranquilamente. Teve ainda uma última visão, na qual as pessoas fugiam e ela, vestida com roupa de combate, apontava um caminho, dizendo “é por ali, é por ali”. Teve revelação de que aquilo seria uma cena do fim do mundo.

Quando cresceu, Bernadete virou Baby Consuelo, famosa na MPB, no rock, no chorinho: com os Novos Baianos, Pepeu ou A Turma do Balão Mágico. O flerte com as coisas espirituais continuou, passando pela ioga e pelos garfos entortados do paranormal Green Morton. Mais tarde, percorreu o Caminho Santiago, impulsionada por Paulo Coelho e outros peregrinos. Lá, foi inspirada por Deus a abandonar o Consuelo e virar Baby do Brasil. A resposta para as buscas espirituais vieram quando ela frequentou – para seu próprio assombro – uma igreja evangélica durante 31 dias – antes, sempre tinha achado os evangélicos supercaretas. Converteu-se. Muitos pensaram que fosse loucura, mas ela tinha certeza de que era verdade. Agora, prega isso, na função de popstora – sim, uma pastora pop.

Após dois dias com Baby em BH e horas de entrevista, ficou difícil editar suas respostas detalhistas e deliciosas. Uma solução para ser fiel à sua trajetória foi colocar a conversa, na íntegra, na Internet. Outra, será o documentário que o diretor Rafael Saar está produzindo sobre a vida da cantora. Material “totalmente Matrix”, como ela costuma dizer, referindo-se ao sobrenatural que ronda toda sua história

EM QUE PONTO A MÚSICA FICOU REALMENTE IMPORTANTE?
COM 6 ANINHOS, minha mãe fez uma roupa de baiana e me levou para fazer a foto. Quem me fotografou foi uma francesa que falou: “Esta menina vai ser uma grande artista”. Mandou uma profecia ali. Foi a primeira pessoa, depois da minha mãe, que sacou minha veia artística. Aquilo ficou em mim. Com mais ou menos 12 anos, minha mãe me deu um violão, começou a levar minha cabeça para outro mundo. Aos 14, tive problemas na escola, porque minha cabeça tinha muitos pensamentos e música. Até que com 16, lá em Niterói, a prefeitura fez um concurso na praia – e eu estava em Niterói, morando com meu pai, indo ao Rio, para visitar minha mãe que vivia lá, ou indo com minha mãe para a Bahia, por causa do meu avô paterno e do meu irmão que moravam lá. Sempre assim. Eu estava de flerte com um rapaz que fez uma música, me chamou para entrar no grupo e nós ganhamos o concurso.

EXISTE UMA HISTÓRIA QUE VOCÊ DECIDIU IR PARA SALVADOR PORQUE RECE BEU UM SINAL DE DEUS E UMA PASSAGEM. É VERDADE?
VERDADE. Pouco tempo depois de vencer o concurso musical em Niterói, fui morar com minha mãe no Rio. Minha espiritualidade estava muito forte, porque vinha acumulando um histórico de vida, que vinha de minhas experiências espirituais da infância. Naqueles dias, ouvi uma voz dizendo “coma só legumes, frutas e verduras”. Comecei a fazer isso que se chama “Jejum de Daniel” [profeta bíblico do Antigo Testamento] e funcionou, porque há uma palavra nas escrituras que diz que “há uma casta de demônios que só sai com jejum e oração”. Ouvi novamente uma voz dizendo: “Em 20 dias, você vai encontrar uma pessoa com uma passagem e você vai viajar.” Depois disso, encontrei na rua uma menina, de uns 21 anos, a Ediane, que me contou que seu marido estava batendo nela. A vi três dias seguidos. No terceiro, ela falou: “Minha mãe disse para eu ir embora, sair desse casamento. Mandou uma passagem a mais. Você quer ir?”. Quando vi aquela passagem, falei: “Vou para casa rezar” – não sabia ainda a diferença entre rezar e orar. Falei com Deus, ele permitiu que eu fosse. Escrevi uma carta para minha mãe contando que Deus queria que eu fosse, ela entendeu e fui para Salvador.

COMO FOI A MUDANÇA?
CHEGUEI EM SALVADOR e a primeira coisa que tinha era o show de despedida de Caetano e Gil, que estavam saindo do Brasil. Ediane falou para mim: “Vamos ao show dos meus amigos”. Cheguei lá, fui entrando e pedindo a Deus para ficar invisível, fiquei invisível, fui passando e ali conheci o Pepeu [Gomes, ex-marido]. Começou o flerte com ele. Depois, Ediane me levou ao Brasas, que era como se fosse um restaurante da galera, e me apresentou para o Paulinho [Boca de Cantor], Moraes [Moreira] e o [Luiz] Galvão. Eles gostaram muito de mim e me chamaram para o show O desembarque dos bichos depois do dilúvio universal. Fizemos [Baby participou como atriz, não como cantora]. Quando cheguei para ensaiar, quem era da banda? Pepeu. Começamos a namorar. Os dois com 17 anos. Depois, a mãe da Ediane descobriu uma carta minha dizendo que Deus tinha falado comigo e ela me botou pra fora de casa, dizendo que lá eu não podia ficar. Saí dando risadas com minhas coisas, olhei para o céu e falei: “Deus, preciso saber para onde vou”. Aí eu ouvi “vai morar debaixo da ponte”. [risos].

ONTEM, NA IGREJA, VOCÊ DISSE QUE MOROU DEBAIXO DA PONTE E AMOU.
MOREI NA PONTE DE PIATÃ, em frente ao mar. Embaixo dela passa um rio de água doce. Peguei uma carona para chegar lá. Consegui dois cobertores. Fui radical, bem rock‘n’roll.

O KAKÁ, JOGADOR DA SELEÇÃO, DEU UMA ENTREVISTA DIZENDO SOFRER PERSEGUIÇÃO POR SER EVANGÉLICO. VOCÊ ACHA QUE ISSO ACONTECE MESMO?
ACONTECE MUITO. É normal. Há 13 anos, eu achava os evangélicos um horror, uma caretice. Quando se trata do evangelho de Cristo, simplesmente por causa do evangelho, o evangélico levanta muitas oposições e a gente sabe que isso é completamente Matrix, é espiritual.

VOCÊ SEMPRE ESTEVE NUMA BUSCA ESPIRITUAL?
ENTREI EM MUITAS RELIGIÕES. Tinha uma base espiritual, mesmo nas minhas músicas, como Telúrica, Tudo Azul. Primeiro, o candomblé tentou entrar na minha vida, fui lá, não gostei. Entrou também a questão dos gurus da ioga. O Ghandi estava metido no meio, tudo lindo, mas sempre teve uma coisa de altar. Não gosto de altares, de imagens, me dão dor de barriga, na mesma hora vejo que para mim não serve. Chegou um dia em que vi fenômenos paranormais do Green Morton [paranormal de Pouso Alegre, interior de Minas, famoso por entortar metais por meio da força do pensamento, na década de 1980]. Foram quase 10 anos com o “Rá!” [palavra que Morton falava e entidade que invocava em seus trabalhos espirituais]. Depois da parada toda de Pouso Alegre, fui ao Caminho de Santiago — o Paulo Coelho e outras pessoas tinham ido. Fui com o Novo Testamento preso na minha cintura, vivi momentos maravilhosos. Foi no Caminho de Santiago que mudei meu nome para Baby do Brasil. Escutei a voz: “Você não é a Baby nem da América, nem da Europa. Você é a Baby do Brasil”. Depois disso, tomei algumas posições bíblicas.

COMO VOCÊ SE CONVERTEU À FÉ EVANGÉLICA?
SEMPRE busquei os mistérios. Qual é o babado mais profundo que está rolando nas internas do universo. Ficava pensando: “para que serve viver?” Essa foi a razão maior de busca a Deus, tem que haver algum sentido. Tive um encontro com Ele no meu quarto. Uma pessoa entrou na minha casa para me matar. E aconteceu de naquele momento eu me contatar com Deus profundamente e o cara estranho ser colado no chão, não conseguiu mais dar nenhum passo. Quando consegui que ele saísse da minha casa, me ajoelhei e pedi que Deus falasse comigo o que tinha acontecido. Deus falou que queria uma hora comigo durante um mês para me revelar. “De quem é essa voz? Não vou fazer nada, a não ser que você me dê um sinal em português”. E Ele falou: “Em três dias vou testificar”. Em três dias o meu médico, Dr. Eduardo Gomes – um grande divulgador e médico da medicina bio-ortomolecular, que faço há 11 anos – me telefonou dizendo. “Tive uma hora com Deus durante um mês e Ele me revelou muitas coisas”. Tive um ataque: “Quero isso, vou fazer isso”. Ele falou que era na comunidade evangélica. Tomei uma grande decepção. “Deus está com os evangélicos? Aquele povo que não pode nada? E eu com meus cabelos coloridos, minhas roupas?”. Lembrei que as pessoas já me julgaram tanto no passado, eu não ia fazer o mesmo. Fiz os 31 dias de oração na casa dele. No primeiro dia conheci a revelação de Deus sobre o homem ser eterno. Conheci pessoalmente Jesus maravilhoso, que é muito alegre, lindo, muita presença de amor. Ele me levou ao Pai, e eu tive um encontro com nosso Pai tão forte e maravilhoso que deu no que deu esses anos todos. É impossível negar, é impossível retroceder, e impossível me tornar uma pessoa com minhas convicções antigas depois disso. O futuro que me aguarda é um futuro abençoado com Ele.

Bruno Mateus e Sabrina Abreu, na revista Ragga.

Famosos que viram “gospel” tem bastante por aí. A popstora, dentro do possível, continua coerente com o que sempre afirmou.

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