Alguns começos

Helena Beatriz Pacitti

Há cerca de 40 anos, um rapaz bem aparentado, alto, loiro e de olhos azuis foi ao Café Moka do centro de São Paulo. Ficou encantado pela linda morena que tomava, do outro lado do balcão, um cafezinho de final de tarde.

Ele saía do seu estágio no Banco e ela saía das aulas de datilografia. Por algumas tardes seguidas ele a viu lá no Café, até que um dia tomou coragem, aproximou-se e perguntou se podia acompanhá-la até a sua condução. Ela se ressabiou um pouco.Mas ele tanto que fez que ela acabou por concordar.

Foi assim que meus pais se apaixonaram.

Um recém viúvo levava semanalmente flores ao túmulo da esposa, e começou a reparar que ao lado, uma senhora constantemente trazia um arranjo de flores novas. Considerada a solteirona da familia, tinha a incumbência de enfeitar o mausoléu da matriarca. Um dia trocaram algumas palavras sobre a saudade de quem tinha partido. Ela estranhou um pouco, mas ele tanto que fez, que de saudade em saudade tornaram-se próximos.

Tempos depois, estavam apaixonados.

Quando nasci – envolta em mecônio e depois de um tumultuado trabalho de parto – o médico avisou minha mãe que o bebê podia estar em sofrimento fetal. Alguém mais reparava em mim, encantado com aquela coisinha esverdeada.

Aí, aos 6 anos de idade, soltei a mão de mamãe que tentava, ao mesmo tempo, carregar o bebê, a bolsa, a sacola e manter sob controle minha irmã. Saí correndo pela calçada, teimosa, nem me voltei aos seus chamados, subi uma rua, depois outra, reconheci o caminho da volta da escola e…acabei voltando sozinha para casa! Para mim foram apenas alguns quilômetros de cansaço nas pernocas. Para meus pais e seus amigos, três horas de desespero atrás da criança travessa.O tempo todo eu estava saltitante, despreocupada. Ele? Olhando para mim, enamorado.

Um dia eu fiquei muito doente,mal mesmo. Pensava no fim de tudo, imaginei estar completamente sozinha. Desconfio que Ele estava por perto, zelando.

É. Vivo e  passo por momentos limítrofes. Dúvidas, inquietações, algumas decisões certas,outras equivocadas. Um monte de alegrias e pesares. Acho que Ele anda aqui por perto, com saudade, enamorado.

Ainda fico um pouco ressabiada. Mas Ele tanto que faz, e de saudade em saudade, um dia eu acabo me apaixonando por Deus.

fonte: Timilique!

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