Autor israelense da Flip diz que pode queimar a Bíblia e seguir sendo judeu

Quando indagado sobre os motivos simbólicos que o levaram a escrever sobre um poço de elevador onde o vento emite uivos, o israelense Abraham B. Yehoshua foi pragmático: “É o elevador do meu prédio, em Tel-Aviv. Os vizinhos ficaram felizes quando escrevi sobre ele”.

Autor de “Fogo Amigo” (Cia. das Letras, tradução de Davy Bogomoletz), Yehoshua divide, hoje, a mesa “Promessas de um Velho Mundo”, às 17h15, com a iraniana Azar Nafisi. Na pauta está o objetivo de discutir “o papel da literatura como caminho para um diálogo entre as culturas em conflito”.

Aos 73 anos, Yehoshua diz saber que a literatura tem um poder lento e limitado de mudança. Por isso, além de escrever, ele costuma palestrar, em diversos países, para promover o ideal sionista (que defende o retorno dos judeus a Israel).

Foi em um desses discursos, nos EUA, que Yehoshua lançou a máxima: a de que uma existência judaica só pode ser completa se vivida em Israel. “Se não”, disse à Folha, “é como um homem que ama sua mulher, mas prefere viver sozinho. Se você a ama, case-se”.

JUDEU NÃO RELIGIOSO

Embora exagerado quanto ao que chama de “plena identidade judaica”, Yehoshua carrega uma estranha ambiguidade: não é religioso. “Antes de o Estado de Israel ser fundado, os judeus não tinham um componente nacionalista. Por isso, toda energia se voltou para a religião. Agora não, temos um país, uma língua. Posso queimar a bíblia e continuar sendo judeu. A religião é apenas um dos nossos legados”, diz.

Ele não é o primeiro israelense convocado à Flip para tratar de política. Há três anos, Amos Oz veio a Paraty para pensar “o papel da literatura na luta contra a injustiça”. Yehoshua concorda que o contexto de guerras de seu país serve como garoto-propaganda: “Não somos publicados apenas por isso, mas ajuda. Quando a literatura sul-americana era muito popular, se devia à qualidade da escrita de alguém como Borges aliada às disputas civis na Argentina da época”.

Ultimamente, todavia, ele anda mais interessado nos meandros da engenharia mecânica: o elevador de seu prédio ainda não foi consertado.

Veja a íntegra da entrevista:

Folha – Como é possível ser sionista e ateu ao mesmo tempo?
Abraham B. Yehoshua – Um francês pode escolher se é católico e um americano pode escolher se é protestante. Mas quanto ao israelense, costuma-se colocar nacionalidade e religião na mesma palavra. Os fundadores do sionismo eram intelectuais. Judeus não são uma religião, mas um povo. Sou a favor do retorno dos judeus, só isso.

Como é vir ao país após a visita de nosso presidente ao Irã?
Se Lula estiver se aproximando do Ahmadinejad para moderar o país, serei o primeiro a dar as boas vindas. Me pergunto por que os iranianos precisam de bomba atômica. Se eles jogam em Tel-Aviv, Israel acaba. Não entendo a obsessão deles, pois nem sequer temos fronteiras em comum. E ninguém de Israel os está ameaçando.

Qual é o contexto político que marca a nova geração de escritores em Israel?
As novas gerações não lidam muito com política. Preferem falar de amor. Os jovens escritores não estão tão interessados em enxergar um panorama abrangente.

O senhor vem à Flip para discutir um tema político. Em 2007, o escritor israelense Amos Oz também veio discutir um tema político (o papel da literatura na luta contra a injustiça). É difícil publicar um livro despolitizado hoje em Israel?
Não acredito que sejamos publicados apenas por razões políticas, mas o contexto obviamente ajuda. Quando a literatura sulamericana era muito popular, isso se devia, antes de mais nada, à qualidade da escrita. Mas claro, o interesse por um autor como Borges surgia, também em função das disputas civis na Argentina daquela época. No caso da literatura israelense, há ainda um segundo componente: as pessoas costumam ter interesse pela cultura judaica, seja de forma positiva ou negativa. Judeus são inteligentes, complicados, misteriosos.

Em Israel, escritores costumam servir de porta-voz da população em momentos de crise política. De onde vem esse status social?
Isso vem do passado, da tradição dos profetas. Aqui, há um respeito pela palavra escrita. Mas é preciso não ficar tão calcado no texto. Lhe darei um exemplo: em Israel, a quantidade de judeus ultra ortodoxos tem crescido dia após dia. É um mau sinal. A maior parte deles não trabalha, apenas estuda, repetindo os mesmos ensinamentos de sempre. É preciso voltar os olhos para a vida.

Última pergunta: o elevador do seu prédio foi consertado?
Não.

Roberto Kaz, na Folha.com.

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