Biografia de Marina “dá voz” a críticos da ex-ministra

Foco de críticas, a biografia da presidenciável Marina Silva (PV) chega na próxima semana às livrarias do País acusada de oportunismo durante a corrida eleitoral em que a protagonista ocupa o terceiro lugar em pesquisas de intenção de voto. O livro traz um lado inédito da trajetória da ex-seringueira e dá voz a críticos da ex-ministra, com depoimentos de quem vê Marina longe dos ideais pelos quais lutava Chico Mendes, e prova que nem mesmo no Acre ela é unanimidade.

Segundo a autora, “Marina – A vida por uma causa” não foi criado para atrair eleitores. “Pode definir também o não-voto”, acredita a jornalista Marília de Camargo César, convidada pela editora Mundo Cristão para escrever a biografia da senadora de 52 anos.

Dúvidas sobre estratégia eleitoral à parte, o livro reportagem – que tem lançamento dia 8 em Fortaleza, 9 em São Paulo e 14 em Manaus – destaca o abandono que Marina sentiu quando deixou o Partido dos Trabalhadores e o processo de integração aos verdes. “Ela despertou de madrugada e começou a chorar. Era uma dor tão forte no peito que o choro não cessava; tanta dor, tanta dor. Alguns episódios voltaram – lhe à mente, e o rosto de pessoas que estiveram a seu lado nos últimos trinta anos desfilaram, sorrindo, como num filme”, diz o livro.

Não deixa de destacar ainda a importância do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua trajetória (apesar de Lula ter se negado a dar entrevista para o livro antes das eleições) e explica como a senadora e ex-ministra foi inspirada pela teologia da libertação e ideias ambientalistas – temas desenvolvidos em curso de Liderança Sindical Rural, com Clodovis Boff e Chico Mendes, em 1977, que mudaram a sua vida.

Terra – No começo do livro, há um trecho em que Marina é vista por alguns como a “síntese de um novo tempo”. Você concorda com essa análise?
Marília de Camargo César – Concordo com o fato de ela ter em sua pessoa vários elementos que simbolizam isso, essa busca que estamos vivendo, de um mundo onde as pessoas sejam mais tolerantes, tenham respeito maior pela natureza. É um movimento ainda crescente no Brasil, mas que lá fora já está bastante avançado. Ela consegue significar esses muitos elementos que compõem uma figura simbólica desse novo tempo.

Terra – Marina estaria repetindo a trajetória de Lula, antes de ele ter sido eleito?
Marília – Eles têm alguns elementos parecidos, já que vieram da pobreza, da exclusão, de áreas remotas. Mas há diferenças também. Como, por exemplo, o fato de Lula ter construído uma trajetória política a partir da cidade, muito urbana, e Marina ter feito isso a partir da floresta. Isso acaba se refletindo em sua cosmovisão. A própria Marina conta no livro sobre as primeiras vezes que Lula foi ao Acre, a convite de Chico Mendes, e como o seu discurso causava estranhamento ao movimento sindical local pela linguagem diferente que usava. Além disso, Marina sempre teve vontade de aprender, estudar, saber ler, mesmo estando cercada de analfabetos, e buscou isso a vida toda. Lula não tem esse caminho. Sem desmerecer, é uma diferença grande entre os dois.

Terra – Você que esteve mais próxima da Marina, acredita que o presidente Lula, a quem ela ainda se refere com muito carinho, faz falta à Marina?
Marília – Acho que essa relação está passando por uma adaptação. Não sei se faz falta, mas, como toda relação que envolve muito amor e há decepção, a desilusão dói mais. Para se ter uma ideia e ilustrar a relação dos dois, Lula não quis dar entrevista para o livro e só concordou falar se fosse depois das eleições.

Terra – O livro mostra pessoas para quem Marina não seguiu os ensinamentos e o legado de Chico Mendes, morto antes de o termo desenvolvimento sustentável surgir com tanta força. Como você enxerga isso?
Marília – Existe uma corrente que pensa assim. Creio que são as pessoas mais puristas, para quem Marina se tornou pragmática e não teria aprovação de Chico. São aqueles que acham que as ONGs ambientalistas servem às grandes nações ricas, e pensam que Marina, defendendo o trabalho das ONGs, estaria sendo usada pelo imperialismo capitalista. Eu quis mostrar que no Acre, sua terra, ela não é unanimidade e há vozes críticas contrárias.

Terra – Qual o momento de mais emocionante ao escrever o livro?
Marília – Um momento emocionante foi quando entrevistei pela primeira vez o pai da Marina e pude conhecer algumas de suas irmãs em um sítio, perto do Seringal Bagaço, onde nasceu. Estava anoitecendo e no céu, com pouca iluminação, só se via estrela. A casa era bem modesta e ali ficamos conversando bastante tempo. Foi um momento muito bonito, porque ali consegui me aproximar um pouco da realidade da Marina.

Terra – Algum aprendizado resultou dessa experiência toda?
Marília – Encontrei pessoas muito “intensas” e idealistas, e isso me marcou profundamente. Nunca fui uma pessoa ligada à cobertura política, trabalhei mais com economia. Mas ali entendi o sentido da palavra idealismo. Vi um certo brilho que ainda existe no olhar de algumas pessoas, que não se perdeu totalmente e não cedeu ao pragmatismo da política de hoje, que me inspirou. A própria Marina é uma pessoa coerente e muito íntegra, que aprendi a admirar no contato que tive para o livro. Não estou mitificando a Marina, há coisas que questiono em sua luta. Mas ainda acho que está acima da média dos políticos.

Terra – O País perde mais com ela fora do Senado ou ganha mais tendo Marina como presidente?
Marília – Ela é uma pessoa muito importante dentro do Senado, ainda mais nesse Senado que temos, com poucos exemplos dos quais podemos nos orgulhar minimamente e tantas denúncias de corrupção. Como nação, a gente perde com a saída dela do Senado. E acredito que há um grande medo de muitas pessoas que perguntam se Marina teria condições de governar. E penso que ela tem demonstrado capacidade de se cercar de uma equipe com pessoas bastante capacitadas. Ela mostrou que sabe escolher e, mesmo sem saber tudo, sabe se cercar de quem sabe. Essa é uma das características de um líder.

Terra – O Brasil está preparado para uma presidente como Marina?
Marília – Acredito que não. Acho que ela está muito à frente. Mas isso não quer dizer que a gente não deva batalhar, almejar isso.

Terra – Qual a maior contribuição que seu livro pode dar? Não teme que seja usado como material de campanha?
Marília – Acho inevitável o livro servir como ferramenta para as pessoas conhecerem a Marina. Porque um grande problema que tem é ainda ser desconhecida. Quem sabe da Marina é a classe média, média alta. Serve para todos os tipos de interpretação, mas é um instrumento pelo qual as pessoas poderão conhecer sua história, que é muito inspiradora por ser uma vida de muitas superações. O livro transmite uma mensagem positiva sobre a vida. A Marina defende a vida, lutou pela própria vida muitas vezes. O livro, portanto, vai inspirar as pessoas, mas não sei se vai definir o voto. Pode definir o não-voto também.

Marsílea Gombata
Direto de São Paulo
Fonte: Terra

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Biografia de Marina “dá voz” a críticos da ex-ministra

Deixe o seu comentário