O pai do ano

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Fade in. Sobe som da música: “Voooou abrir a porta. Mais uma vez, pode entrar. É dia dos pais e eu resolvi lhe perdoar.” É assim, com essa trilha sonora invertida, que tem início mais um episódio da série Karma, transmitida todos os dias, todas as horas em algum lugar do mundo. E não precisa ser pela televisão, ou pelo rádio. A vida mesmo se encarrega de montar a transmissão.

Neste episódio, oportunamente intitulado “Dia dos Pais”, a produção selecionou um caso emblemático que tem início na porta de um grande hospital paulista, onde uma grande autoridade do governo está internada em estado grave, tendo passado por diversas cirurgias, sem sucesso, e está prester a morrer. “Não sem antes”, diz o apresentador, “fechar-se um círculo determinante para o desfecho de sua vida.”

Um efeito de vídeo nos joga de volta na década de 50. Um jovem paulista, bem nascido (mas não necessariamente bem criado, como se verá), de família numerosa, vive no interior de Minas Gerais e faz o que todo homem faz, na época, para provar sua masculinidade: mantém relações sexuais com quem quer que lhe apareça pela frente. “Caiu na rede é peixe”, repete ele, com sorriso maroto, a cada conquista. Inatacáveis, só a mãe e as irmãs. Todas as outras são consideradas meretrizes, só existem para ser consumidas e descartadas como meros pedaços de carne.

O rapaz, muito bom de lábia – afinal, seu ofício é vender de tudo, de sombrinhas a panelas, de tecidos a sapatos – conhece uma enfermeira. Seguramente, mais um peixe que deverá cair direitinho na sua rede. E o peixe realmente cai, só que… dessa captura resulta um peixinho. O que fazer? Nada a fazer. Ele diz que não a conhece, não tem vínculos com ela, e ela não tem como provar a paternidade de sua filha, sem contar as ameaças (veladas ou explícitas) recebidas imediatamente após o momento de prazer que se tornou um pesadelo. Lembre-se, estamos nos anos 50. Ele é rico, casado, e ela é apenas uma… enfermeira.

A mulher deixada na rua da amargura pelo rapaz bom de lábia não tem o que fazer, a não ser criar a filha sozinha, estigmatizada pela sociedade (“você conhece a fulaninha? Ela é a verdadeira filha da p…!”, sussurram as outras mães, nas conversinhas de pé de ouvido), enfrentando todos os problemas – especialmente os financeiros – decorrentes desse desafio. A enfermeira, no entanto, só tem que continuar vivendo e sofrendo, pedindo ao Regente do Universo que a ajude de alguma forma. Alguns diriam que esse pedido seria uma praga rogada, mas há divergências.

O vídeo deste nosso episódio acelera no tempo e joga o telespectador no fim dos anos 90, quando o esperto vendedor café-com-leite se tornou um bilionário do setor de tecidos e o teste de DNA para revelar paternidade é uma realidade comprovada. A filha da enfermeira, já uma mulher madura, resolve encarar a tarefa de fazer com que seu verdadeiro pai, ainda que tardiamente, assuma suas responsabilidades – agora, empregando métodos científicos.

Contactado pela autoridade competente, o bilionário fecha a cara. Põe seus advogados para trabalhar e recusa-se a fazer o teste sob a justificativa de que “não irá ceder a chantagens” ao mesmo tempo em que usa e abusa da conhecida e infame hipocrisia mineira: “Se for minha filha, ela obviamente será recebida de braços abertos”.

O vídeo avança até os dias atuais. O bilionário meteu-se na política, enquanto enfrentava mais de uma dezena de cirurgias para extirpar um câncer que ressurgia não se sabe de onde e, com isso, conquistou a fama de um bom velhinho, comovendo todo mundo com seu esforço heróico para se manter vivo. Chegou a gastar boa parte deste capital de simpatia adquirida indo a um programa de tevê para difamar a mãe de sua filha afirmando que “todo mundo que foi à zona pode ser pai” – e se esquecendo de que, mesmo que tivesse sido esse o caso, um filho feito na zona não difere de um filho feito “em casa”. Merece o mesmo amor, o mesmo respeito, o mesmo apoio.

“A verdade é que vaso ruim não quebra”, diz o apresentador da série Karma na porta do hospital, lembrando mais um dos ditados comuns na década de 50. “Este bom velhinho, tão apegado à sua fortuna, só vai conseguir descansar e passar deste plano para o próximo depois que se convencer de que precisa honrar as calças que veste e assumir sua responsabilidade. Afinal”, completa o apresentador, “você não acha no mínimo curioso que este homem tenha enfrentado tantos problemas de saúde depois de renegar uma filha sua com uma… enfermeira?”

Sobem os créditos. Fade out.

Claudio Lessa, no Direto da Redação.

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