Minha máquina de escrever

Paulo Brabo

Minhas primeiras ferramentas de escrever foram caneta e caderno; mais tarde apropriei-me da Olivetti Studio 44 que a General Motors deixou que meu pai levasse para casa.

Então, quando meu tio Carlos comprou o primeiro computador da família, ainda numa era pré-Windows, fui apresentado ao WordStar, depois ao brasileiro Fácil, que rodavam na tela escura do DOS.

Passei a visitar a casa do Carlos com maior frequência, e usava o WordStar para fazer de modo mais cômodo o que já fazia na máquina de escrever: reescrever um número limitado de páginas um número ilimitado de vezes.

E no dia em que o Windows passou a habitar minha própria casa, com suas paredes cobertas de hieróglifos que se chamavam ícones, sentei-me pela primeira vez diante do Microsoft Word.

Durante anos usei o Word para escrever. O MS Word (bem como seus concorrentes menos unânimes, como o WordPerfect da Corel e o gratuito Write da suíte OpenOffice) pertencem a uma categoria de programas aos quais os norte-americanos deram o nome de processadores de texto – word processor, um daqueles termos cujo poder deve ter se perdido por completo na tradução. Quem iria pensar que uma abstração como “processador de texto” serve para escrever?

E, na verdade, não serve. Com o tempo – muito tempo – acabei concluindo que os recursos do Word se interpunham no caminho da redação, ao invés de facilitá-la. Um programa como o Word brilha no que veio a ser conhecido como formatação, e é o ofício de deixar um texto visualmente agradável.

O problema do Word está em que enquanto você fica escolhendo a fonte para o seu título, definindo estilos para o corpo do texto, posicionando a numeração de páginas e estabelecendo a distância em milímetros entre o limite do texto e as notas de rodapé você simplesmente não está escrevendo. E o que você quer – pode ser necessário lembrar – é escrever; a formatação pode ficar para depois ou para outra pessoa.

O paradoxo, portanto, é esse: quem quer realmente escrever precisa de um programa com menos recursos, não mais. Precisa de um programa com poucas distrações, não muitas. Precisa de uma máquina de escrever.

Hoje em dia minha máquina de escrever é o WriteMonkey, um programa que não oferece nenhum recurso de formatação e que salva os arquivos no mais básico dos formatos – “somente texto”, ou txt. Em compensação, o WriteMonkey oferece uma tela em que você fica bem-aventuradamente sozinho com o seu texto – um ambiente que em inglês, língua que dá nome a tudo, deu-se o nome de distraction-free, isto é, livre de distrações.

No WriteMonkey você escolhe a fonte, as margens e as cores (da tela e não da página), e só lhe resta escrever, amigo. Quase de volta ao bom e velho Wordstar.

Em seu favor o WriteMonkey ainda:

> pode salvar automaticamente o seu arquivo, inclusive quantas cópias de segurança você quiser, na pasta em que você quiser;
> não precisa de instalação e pode ser levado num daqueles chaveiros USB;
> pode também rodar numa janela, se você descobrir que fica com claustrofobia no modo tela cheia;

> pode fazer barulho de máquina de escrever quando você escreve;
> pode mostrar numa barra de status a informação que você escolher, coisas tipo a hora do dia e o número de palavras do seu texto;
> pode ocultar automaticamente a barra de status quando você começa a escrever, no melhor estilo distraction-free;
> é gratuito.

* * *

A página do Writemonkey na internet:
www.writemonkey.com

As limitações:
> só roda em Windows;
> requer o pacote .net framework 3.5, que você pode não ter instalado na sua máquina, mas pode baixar da Microsoft:
.net framework 3.5

* * *

Alternativa para o Mac:
Writeroom (na verdade, o primeiro do gênero)

Alternativa para o Linux:
Pyroom

Outros programas parecidos para Windows:
Q10
Dark Room
Focus Writer

fonte: A Bacia das Almas

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