Guerra Santa ou santa ignorância?

Holy Wars (Guerras Santas) é um documentário escrito e dirigido por Stephen Marshall durante quase cinco anos. Poucos dias atrás foi oficialmente lançado em mostras deste gênero em Los Angeles e Nova York. O filme relata a trajetória espiritual de dois religiosos “fundamentalistas”  e suas opiniões sobre a guerra religiosa global contra o terror e o fim do mundo.

Um dos protagonistas é Aaron Taylor, missionário evangélico. O outro é Khalid Kelly, irlandês convertido ao islamismo que se tornou um extremista. O release do filme diz: “o filme segue… dois homens que acreditam numa batalha apocaliptica, depois da qual a sua religião será a única a reinar no mundo. Acompanhar a vida deles mostrará que… até o mais radical dos crentes poderá ser transformado por nosso mundo em transformação.” Veja abaixo o trailer do filme (ainda sem legendas)

Porém, Marshall durante muito tempo simplesmente não conseguia encontrar um comprador ou um distribuidor para seu filme. Para alguns a obra era tendenciosa, ou mesmo “cristã”, mas isso não reflete a realidade. Depois de exibida em alguns festivais de menor importância, foi selecionada para a  DocuWeeks, da Associação Internacional de Documentários. Agora tem se comentado inclusive sobre suas chances de receber uma indicação para o Oscar na categoria “documentários”.

No início do mês, Marshall escreveu um artigo interessante para o The Huffington Post sobre os bastidores da produção. Selecionamos alguns trechos desse material:

Fé e medo: Como fiz meu documentário Guerras Santas, no Huffington Post

O ateísmo ficou tão em voga nestes dias que é fácil para aqueles que se  consideram “secularizados” ou “espiritualizados” caírem na armadilha de ver apenas os males da religião organizada. Posso afirmar isso com segurança pois ouvi muito isso antes de lançar o meu novo filme, Holy Wars, quando levei o projeto aos produtores no outono de 2005. Ainda estávamos na “era Bush”. Se isso não fosse suficiente para borrar as calças dos evangélicos liberais americanos, o iraniano Mahmud Ahmadinejad estava falando sobre o uso de energia nuclear e ameaçava varrer Israel do mapa. Tudo isso alimentou meu desejo de levar isso adiante e poderia resumir o projeto em algo assim:

Guerra. Fome. Pragas. Desastres naturais. Destruição de cidades inteiras. A morte de milhões de pessoas. Estes são os sinais da salvação iminente para milhões de cristãos e muçulmanos de todo o mundo. Só nos EUA, 44% dos cristãos americanos afirmam estarem certos ou confiantes de que Jesus vai voltar para a Terra para trazer o julgamento nos próximos 50 anos. Ou seja, um grande número de americanos vê grandes eventos como os atentados terroristas, e até mesmo a guerra nuclear, como algo positivo. A pergunta que me fiz foi: que percentual desse tipo de muçulmanos e cristãos precisaríamos ter no mundo para fazer com que o apocalipse bíblico e do Alcorão fosse uma profecia cumprida?

Meu pai tinha uma frase favorita: “Se você quiser fazer Deus rir, conte a ele os seus planos”. É isso que tenho experimentado nos últimos cinco anos. O mestre do universo deve estar rolando no chão de rir, porque o filme que me propus a fazer e o que em breve irá estrear e competir para uma indicação ao Oscar não têm quase nada em comum. Aprendi uma lição valiosa: a diferença entre eles é a essência da jornada que fiz. Imaginei um filme motivado pelo medo e terminei com um fundamentado na fé. Como os sábios gostam de dizer: isso fez toda a diferença.

As primeiras cenas que filmei me levaram para várias partes do mundo, até alguns dos focos de radicalismo religioso: Israel, Líbano, Irã, Indonésia, os EUA e o Reino Unido. Cada um dos personagens entrevistados (mulás, pastores, jihadistas, evangélicos) acreditavam fervorosamente que as palavras de seu livro sagrado eram as palavras de Deus. Eles basearam toda a sua vida em torno dessa crença. Um dos pilares fundamentais de sua visão de mundo é que estavam envolvidos numa luta contra o mal no mundo. Criam ainda que o cristianismo e o islamismo iriam triunfar antes de Jesus voltar e declararam que a sua fé era a verdadeira religião de Deus.

Posso dizer que esta experiência muito me ensinou sobre as crenças que abraçamos como narrativas que devem guiar nossas vidas. Pude testemunhar que a religião despojada de seus aspectos básicos, do seu núcleo moral, de seus ensinamentos simples, é algo que oferece a nós, seres humanos, uma ponte que leva até a dimensão do eterno. Todos sabemos que a guerra nada tem a ver com religião per se, mas sempre envolve posse de terras, dinheiro ou recursos. A religião apenas é usada para obter essas coisas. Mas isso  só acontece se os líderes religiosos deturpam os princípios básicos – a regra de ouro de fazer aos outros aquilo que gostaríamos que eles fizessem a nós – indo além das leis e preconceitos. Sabemos disso. Porém, os fundamentalistas precisam receber amor e o espaço adequado para encontrar o caminho de volta para os ensinamentos mais simples, pois essas são as palavras que eu sigo. E elas estão presente em todas as obras religiosas existentes em nosso planeta.

Holy Wars (Trailer) from (r)evolutiontheory on Vimeo.

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