A mente não existe. A alma é mera ilusão.

Depois de passar por inúmeras e perturbadoras experiências de alucinação, um professor de literatura, especialista em Machado de Assis, se recupera da retirada de um tumor no cérebro. A convalescença, que o isola do mundo em meio a milhares de livros e dúvidas, cria um labirinto mental mais delirante que o patológico: a curiosidade em torno do enigma de “ser” humano. “Como vim parar aqui?” – repete a pergunta feita por muitos desde o início da civilização. “Nada surge do nada”, compreende o inquietante personagem de A ilusão da alma, novo livro do economista e escritor Eduardo Giannetti (Vícios privados, benefícios públicos? eAuto-engano), que provoca e abala os absolutismos em volta às certezas religiosas e científicas relacionadas à essência da condição humana e ao pensamento. “O ser humano tem crenças espontâneas e intuitivas sobre si, acreditando que o que pensa é o que determina o que faz. Procuro mostrar que a compreensão dessa realidade, que é a relação entre a mente e o cérebro, pode ser muito diferente”, conta Giannetti.

A mente não existe. É o que acredita o jovem professor e narrador do livro, que se converte ao fisicalismo – doutrina filosófica que torna mente e cérebro uma só coisa, reduzindo tudo a um processo físico. “Nossos estados mentais, nossa consciência, são subprodutos sem poder causal, porque seríamos seres inteiramente determinados por processos físicos, pela neurofisiologia. É uma visão perturbadora. Conheço muitos cientistas fisicalistas, mas eles não têm a preocupação de tentar entender as implicações disso para a compreensão humana. O livro dá justamente esse passo, mostrando essa figura que passa a acreditar na possibilidade de que estamos radicalmente enganados sobre o tipo de ser que somos”, diz Giannetti. A alma [ou seja, tudo aquilo que não é somático] seria mera ilusão. Ou, no jogo ambíguo proposto pelo autor no título do livro, a ilusão refere-se a essa “alma” em particular, que transforma a ciência em religião.

O HOMEM-MÁQUINA
A relação entre a mente e o cérebro vem sendo discutida por filósofos e teólogos há mais de 2.500 anos, desde o embate entre Sócrates e Demócrito no Iluminismo grego do século 5 a.C. Sem uma base experimental, não existiriam resultados para ajudar a resolver – de maneira científica – essa disputa. Com o avanço da neurociência, nas últimas três décadas, a novidade é que os resultados científicos têm permitido avaliar o que vem sendo discutido há séculos, caminhando em direção ao fisicalismo, ou materialismo– como também é chamado na filosofia. “Os resultados produzidos na neurociência e em áreas afins, como na biologia molecular e até na neuroeconomia [novo ramo da economia], convergem para reforçar e dar mais plausibilidade a uma hipótese, uma conjectura, que no passado foi muito condenada e parecia improvável”, ressalta.

O médico e filósofo francês Julien de La Mettrie, autor de O homem-máquina (1748), foi um dos precursores do fisicalismo, defendendo a tese de que o corpo humano é uma máquina metabólica, sem espaço para consciência ou espírito, na qual “cada indivíduo desempenha um papel na vida, determinado pelos mecanismos propulsores da máquina (capacitada de raciocínio)”. A repercussão causada pela obra, que, pela primeira vez, explicou o corpo humano sem recorrer à metafísica, fez com que La Mettrie fosse expulso da França e da Holanda. “Foi, provavelmente, o autor mais perseguido do Iluminismo”, explica Giannetti.

Se a natureza humana mudou pouco desde o início da civilização, com o avanço da engenharia genética, esse cenário pode ser alterado rápida e perigosamente. “O novo homem”, antecipou Drummond em Caminhos de João Brandão (publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 1967), será feito em laboratório. “Muito mais perfeito que no antigório. (…) Nele, tudo exato, medido, bem-posto: o justo formato, o standard do rosto. Duzentos modelos, todos atraentes. (Escolher, ao vê-los, nossos descendentes.) Quer um sábio? Peça. Ministro? Encomende. Uma ficha impressa a todos atende. (…) eis que o homem feito em laboratório sem qualquer defeito como no antigório, acabou com o Homem. Bem feito.”

Bem feito? Nem tanto. Os gigantescos dilemas éticos desse homem (feito em laboratório) também foram refletidos pelo protagonista de A ilusão da alma.“A hipertrofia do intelecto fez de mim um anoréxico dos afetos e das pulsões vitais. Penso mais do que existo.” Para Giannetti, as possibilidades de interferir em estados mentais por meio de intervenções diretas, na neurofisiologia, por exemplo, vão se tornar uma realidade cada vez mais presente. “Estamos no início de um caminho que nos levará à manipulação da mente por meio de interferências pontuais finas. Isso vai gerar tremendas implicações éticas. Está na hora de pensar nos perigos e nas possibilidades que esse caminho trará”, explica o escritor.

Entre as interferências que desequilibram o conceito de ser natural para um ser produzido, Giannetti cita o poder de mudar a capacidade da memória, preferências sexuais, estados de ânimo (de forma mais refinada do que se faz hoje com drogas consideradas “rústicas”), além de outros itens de nossa cesta sensorial. “As possibilidades de transformação da nossa realidade humana por meio de manipulação científico-tecnológica vão se expandir de maneira surpreendente no século 21, e isso trará um rol de questões éticas extremamente complexas. Poderemos manipular características das gerações futuras de maneira profunda, além da expansão de nossas próprias características que, hoje, são limitadas, numa espécie de neuroplástica”, explica.

O sueco Nick Bostrom, diretor do Instituto para o Futuro da Humanidade, é um dos filósofos contemporâneos mais preocupados com o impacto transformador que as tecnologias atuais e futuras trarão para a sociedade, que é estudado no Transhumanismo (corrente filosófica que incentiva o uso de ciência e tecnologia para melhorar a condição humana em larga escala). Entre esses impactos, o principal trata da ampliação dos riscos de extermínio da própria raça humana. “Algumas das questões importantes referem-se à moral filosófica e aos seus valores. Outras estão relacionadas à racionalidade e ao discurso sobre a incerteza. Há, ainda, as que dizem respeito a questões específicas e às suas possibilidades, tais como riscos existenciais, simulação, a valorização humana, vantagens infinitas, raciocínio antrópico, riscos da informação, inteligência artificial, entre outras”, ressalta o sueco.

Talvez seja do escritor Julio Cortázar, que sintetizou em O jogo da amarelinha o pensamento do filósofo germânico Ludwig Klages (1872–1956), a melhor descrição do cenário científico e social aguardado. “O homem, depois de ter esperado tudo da inteligência e do espírito, encontra-se como que atraiçoado, obscuramente consciente de que sua alma se voltou contra ele, de que a cultura, a civilização o meteram neste beco sem saída, onde a barbárie da ciência não é mais do que uma reação muito compreensível.”

Giannetti diz que, embora seja difícil prever o timing, esses avanços têm ocorrido rapidamente. “A queda do custo e a rapidez com que se faz hoje o sequenciamento genético é uma coisa espantosa. Acho muito difícil haver restrições às tecnologias e à manipulação genética, porque há uma demanda crescente e uma grande competição entre os produtores de conhecimento para oferecer respostas a essas demandas. Quando essas duas forças se encontram, fica muito difícil que algum tipo de poder estabelecido consiga restringir. Se cercear o procedimento em um país, as pessoas farão em outro. Vamos ter de amadurecer para não gerar situações imprevistas com resultados não esperados e potencialmente desastrosos. Descaminhos que podem levar ao ‘aprendiz de feiticeiro’, que começa utilizando conhecimento e técnicas muito mais poderosas do que sabe e acaba gerando resultados não previstos e indesejados, que escapam ao seu controle”, ressalta.

EFEITO FRANKESTEIN

A geneticista Mayana Zatz, professora de Genética Humana Médica do Instituto de Biociências da USP e coordenadora do Centro de Estudo do Genoma Humano, diz que o avanço da neurociência e, especialmente, o estudo do genoma humano foram extremamente importantes para o diagnóstico das doenças genéticas, como o Alzheimer, bem como para o avanço da farmacogenética, que permite respostas individuais às drogas. Mas prevalecem inúmeros mitos em relação ao alcance da ciência. Hoje, segundo ela, o que pode ser feito é selecionar embriões com algumas características, mas ainda de forma limitada. “Se eu quiser selecionar um embrião com olho azul, ele só vai existir se pai e mãe tiverem genes que determinem olho azul, ou seja, eles precisam ter aquelas características na família. No futuro, poderemos atuar na expressão desses genes. Por exemplo, se tenho uma pessoa com gene que libera endorfina quando corre e isso a deixa feliz, talvez eu possa dar endorfina para que ela tenha o mesmo resultado sem precisar correr. Neste caso, estamos falando ainda de uma interferência no plano individual, não de manipulação na transmissão para a próxima geração”, ressalta.

Além das empresas privadas, que oferecem testes genéticos sem rígido controle, a principal preocupação da geneticista está relacionada ao gigantesco número de informações e características que poderão ser repassados com o mapeamento genético. “Em termos éticos, os limites da informação são mais importantes do que a manipulação. Como oferecer testes genéticos, o que oferecer, quem interpretará as informações, quando se deve dar a informação, vale a pena realizar esses testes quando não há nada que possa ser feito? Eu, por exemplo, não quero saber se vou ter a doença de Alzheimer, porque não posso fazer nada a respeito. O que se sabe é que as pessoas, quando sabem que têm risco aumentado para alguma patologia, aceleram o processo. A informação é real e está acontecendo agora e vai aumentar cada vez mais.”

Giannetti concorda e diz que a ciência não pode ser vista como a única capaz de oferecer respostas para nossas indagações. “Os pioneiros imaginavam que o progresso iria tornar o universo cada vez mais inteligível em termos humanos; as coisas iriam ficar cada vez mais compreensíveis e tudo ia, de alguma maneira, se explicar. O que ocorreu foi exatamente o contrário. As descobertas da ciência tornam tudo ainda mais misterioso. É uma situação de tensão. A pergunta é: até onde nos leva o entendimento estritamente científico do ser humano? Essa é a pergunta que tenho me feito há 30 anos. A ciência jamais vai responder a todas as nossas questões existenciais e éticas, que só poderão ser respondidas com reflexão, debate, arte e outras formas que, hoje, com a hipervalorização da razão, tendem a ser minimizadas”, defende.

Quanto ao futuro, ele deixa a sugestão. “Talvez seja preciso uma postura mais humilde diante da extensão e vastidão da nossa ignorância. As pessoas estão habituadas a imaginar que sabem o que se passa com elas e o que faz com que sejam como são. Se espero um único resultado desse livro, é que o leitor tenha um momento de dúvida radical e possa perder as certezas que tinha sobre que tipo de ser é o bicho-homem, inclusive ele próprio”, conclui.

Kelly de Souza, na Revista da Cultura

Tem muito material aí para os teólogos ruminarem e apresentarem respostas. Candidatos?

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