Igrejas fazem filmes profissionais para salvar almas

Imagens da gravação de Corageous, novo filme dos produtores de Vencendo os Gigantes e Prova de Fogo (se o vídeo não abrir, click AQUI)

Cathy Lynn Grossman, para o USA Today

Louvado seja Deus e passe-me a pipoca.

Igrejas que produzem filmes estão se aventurando a entrar nas salas de cinema para atrair pessoas que talvez jamais fossem ao culto numa grande igreja. Assim como nos filmes de Hollywood, estas igrejas apresentam problemas da vida real envolvidos numa embalagem cheia de drama. Por exemplo:

– Um policial branco ressentido e seu parceiro negro lutam contra a discriminação racial e as dificuldades de ser pai antes de aprenderem uma lição sobre reconciliação com Lou Gossett Jr. Esse conhecido ator e ganhador de um Oscar faz uma participação especial em The Grace Card, filme ainda inédito que foi escrito por um oftalmologista para sua pequena igreja no estado do Tennessee.

– Um jovem de 20 anos sem objetivos na vida embarca com seus amigos para uma aventuras na Índia. Após conhecer por lá os horrores da escravidão sexual, passa a dedicar sua vida a combater essa prática. Trata-se do enredo de Not Today,  produção apoiada por uma igreja quacre (pentecostal) da Califórnia.

– Policiais que passam por dificuldades nas ruas percebem que o seu verdadeiro fracasso está em casa – são pais que não sabem ou não tentam amar seus filhos de verdade. Trata-se de Courageous, o quarto filme produzido pela Igreja Batista de Sherwood, que é tão bem sucedida em seu ministério de cinema que agora está ensinando isso a outras igrejas.

“Os filmes são uma espécie de vitrais de igreja do século 21, o lugar certo para contar a história do Evangelho às pessoas que talvez nunca leiam a Bíblia”, diz Michael Catt, pastor principal da Igreja Batista de Sherwood, em Albany, Georgia.

“A produção cinematográfica pode passar uma mensagem que toca as pessoas e levá-las a conversar com algum crente sobre isso”, afirma Jeremy Johnston, pastor da Primeira Igreja da Família de  Overland Park, Kansas, com 5.000 membros. Sua igreja levou milhares de pessoas para ver filmes com temáticas cristãs nos cinemas da cidade e nas dependências da própria igreja, que possui 12 salas de projeção. “Temos pessoas que continuam em nossa igreja porque o que viram um filme que os tocou”.

Esta é a intenção de Catt e sua equipe de escritores, produtores e atores da Sherwood. Eles são liderados por dois irmãos, os pastores adjuntos Alex e Stephen Kendrick, além de Jim McBride, diretor-executivo e também pastor.

A Sherwood é uma igreja com pouco mais de 2.000 membros, e já produziu três filmes, incluindo o que teve a maior bilheteria dentre os independentes em2008:  Prova de Fogo.

Comparadas aos estúdios de Hollywood, as produções de Sherwood são minúsculas. Prova de Fogo arrecadou 33.5 milhões de dólares e foi a 122ª produção mais lucrativa de 2008. Em comparação, Naquele mesmo ano a produção mais lucrativa de todas foi Batman- o Cavaleiro das Trevas, que alcançou 1 bilhão de dólares – segundo o site Box Office Mojo.

Mas entre os filmes considerados cristãos, Prova de Fogo ficaria com o 5º lugar, atrás apenas de A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, os dois filmes baseados nos livros de C.S.Lewis “Os Contos de Narnia” e de A História do Nascimento.

Os produtores da Sherwood comparam seus filmes com Um Sonho Possível, mas que oferecem uma visão mais clara da fé evangélica do que a família aparentemente cristã que decide levar para casa um adolescente problemático, passando a estimulá-lo em seus estudos e na carreira  esportiva.

Todos os filmes da Sherwood se baseiam nos desafios da vida contemporânea: Um vendedor de carros usados picareta que enfrenta dificuldades nos negócios, em A Virada (2003). O azarado treinador do time de futebol americano de uma escola que teme perder o emprego e cuja esposa não consegue engravidar, em Desafiando os Gigantes (2005). Um chefe de bombeiros cujo casamento está desmoronando, em Prova de Fogo (2008).

Orações respondidas

Em cada final temos uma mensagem otimista: depois que os personagens começarem a pacientemente orar e confiar em Deus nas adversidades e também nas vitórias, todas as suas orações são respondidas. Eles ganham o grande jogo, pagam as dívidas no banco, conseguem ter o filho tão desejado, reconciliam-se com seus entes queridos.

Alex Kendrick (de marrom) no set de Corageous

Os filmes da Sherwood já estão disponíveis em DVD em 75 países, e o livro de Kendrick O Desafio de Amar, baseado no roteiro de Prova de Fogo, tornou-se um best seller.

“As pessoas gostam de um final feliz”, afirma Catt, que exibe em sua estante no escritório da igreja uma foto do pastor Billy Graham ao lado de Walt Disney.

“Lembre-se que John Wayne só morre em dois filmes. Os filmes são uma válvula de escape. Eles oferecem esperança. A Sherwood está se dispondo a mostrar que a única esperança que faz diferença é Cristo”, diz Catt. O lema da Sherwood não poderia ser melhor do que a frase estampada na entrada da igreja: “Quem mais deseja alcançar a próxima geração é que  irá conquistá-los”.

Para alcançar esse objetivo, a Igreja Sherwood tem investido os lucros obtidos com os filmes em diversos outros ministérios: doação de comida para os sem-teto, um centro de apoio a gravidez de risco, um centro de aconselhamento familiar e um parque poli-esportivo de 33 hectares, o qual possui várias quadras de tênis, campos de futebol, campos de baseball, pista de atletismo e muito mais.

Mas é através do ministério de cinema que eles transmitem a sua mensagem. O que começou como um simples estímulo à oração em A Virada, tornou-se evangelização clara com os personagens literalmente encostado-se numa cruz em Prova de Fogo e agora os mostra testemunhando em uma igreja no recente Corageous.

Pastor Michael Catt ouvindo um devocional no set de Corageous

“Todo filme tem uma mensagem”, diz o pastor Catt, citando especificamente Avatar, o filme de James Cameron, amplamente identificado com o tema da eco-espiritualidade. “Claramente há uma mensagem espiritual ali, e ele está procurando divulgar isso à sua audiência. Nós também fazemos isso. Tínhamos perdido esta tradição de passar mensagens. Precisamos  lutar para reconquistá-la. Nosso caminho é mostrar o Evangelho vivido em um ambiente secular. As pessoas verão isto e também a si mesmas nas situações apresentadas.”

Isso é algo bem difícil de alcançar, afirma Jack Trout, especialista em estratégias de marketing da Trout & Partners, sediada em Old Greenwich, no estado de Connectcut. “Existem zilhões de filmes competindo pela atenção das pessoas. Veja só quantos filmes são produzidos por Hollywood e pelos estúdios independentes que se tornam um fracasso. Mas eu entendo onde eles querem chegar”, explica Trout.

“O problema é como fazer um filme que alcance um outro tipo de público se você está apenas filmando um longo sermão? Chegar até as pessoas que não costumam sentar nos bancos da igreja aos domingos é extremamente difícil. Para fazer um bom filme é preciso ter uma boa história, que seja bem produzida e não pareça forçada. Nesse caso, é preciso uma combinação meio doida”.

Alex Kendrick não discorda: “Estamos pregando para o coral da igreja? Claro,  mas o coral também precisa ouvir se eles não estão muito afinados. Temos ainda uma outra audiência, pessoas que precisam de um esclarecimento sobre quem é Cristo e por que elas precisam dEle. Sim! Sabemos que teremos todo tipo de resposta, algumas pessoas irão apenas reviram os olhos. Mas somos claros: Estamos aqui para apresentar o evangelho de Jesus Cristo, não para enfiar isso goela abaixo nas pessoas.”

Nasce a idéia para Grace Card

David Evans, um optometrista residente na região de Memphis, Tenesse, foi às lágrimas em uma exibição de Prova de Fogo e imediatamente comprometeu-se a alcançar um nível mais alto com o seu trabalho voluntário: produzindo peças de Páscoa grandiosas para a Igreja do Nazareno Calvário, com cerca de 600 membros localizada em Cordova, perto de Memphis.

Ele consultou Sherwood, que tem oferecido treinamento sobre produção de cinema e lançou um DVD voltado para as igrejas com dicas e técnicas. Acabou contratando um escritor profissional para aprimorar o roteiro e investiu 450.000 dólares de suas economias para filmar The Grace Card.

Evans diz: “Eu queria um roteiro moderno, que desse às pessoas algo para se agarrar quando saem do cinema. Hollywood está perdendo muito, pois não oferece às pessoas algo mais profundo para digerirem.”

Em Not Today “não vamos ter medo de usar o nome de Jesus, mas isso é só uma parte da história”, diz Chris Bueno, que co-produziu o filme com sua esposa, Denise, para a Igreja dos Amigos em Yorba Linda, uma das maiores congregações quacre do mundo.

“Alguns cristãos querem ver uma mensagem cristã pregada abertamente . Outros querem ver histórias verdadeiras de pessoas que lutam com fé, que podem não levar uma vida perfeita, mas estão buscando isso com sinceridade”, diz Denise Bueno.

O casal ajudou a apresentar a Sherwood ao pessoal da Provident Films, divisão de filmes religiosas da Sony, que distribuiu Desafiando os Gigantes e Prova de Fogo.

Todos os três filmes da Sherwood falam de Cristo em cada passo, desde a elaboração do roteiro passando pela filmagem e até chegar às salas de cinema.

Os testes de seleção para o elenco e a equipe de filmagem atentam não apenas para o talento, mas também pelo compromisso cristão de cada um e capacidade para representar o filme quando necessário. O casal Bueno disse que haverá reuniões de oração todos os dias de filmagem na Índia, e que “todos sabem que representamos uma igreja.”

Todos os atores prestam atenção na linguagem usada. As igrejas não gostariam de mostrar produções  onde se ouvem palavrões em meio a conversas informais, embora muitos cristãos não pareçam se importar muito com isso quando assistem a outros tipos de filme. Como é o caso das comédias feitas pelo ator e diretor Tyler Perry, cujo personagem mais conhecido, a vovó Madea (de Diário de uma Louca), já fez filmes embalados por um humor mais escrachado sem deixar de lado as orações e a mensagen do Evangelho.

Mas os filmes de Hollywood e as produções  das igrejas tem objetivos diferentes. “Hollywood vende entretenimento para gerar lucro”, diz Catt. “Nós criamos um entretenimento para mudar vidas. Qualquer um que os assiste pode ficar pensando ‘eu poderia ser uma pessoa melhor’. As pessoas estão com medo e desanimadas. Um incentivo nunca é demais”.

Antes que Corageous e Not Today cheguem às salas de cinema ano que vem nos Estados Unidos, já terão sido vistos por milhares de pastores, jornalistas, grupos sociais e celebridades. Todos evangélicos, claro.

“Tudo se resume a contar histórias”, diz Kris Fuhr, da Provident. “História é algo que rompe barreiras em nossa cultura. Você não tem que dizer:  ‘Veja, eu tenho algo que ajudará o seu casamento a não afundar’ ou ‘É assim que um bom pai deve ser’. Você pode apenas convidar seu amigo para ver um filme.

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Hollywood também está produzindo mais filmes como Um Sonho Possível, com temas inspirativos, sobre amor sacrificial, desapego e perdão, mas com pouco ou nenhum “toque” da mensagem cristã. Em breve ouviremos falar de:

Get Low (Sony Pictures Classics), com Robert Duvall (de O Apósotolo), onde um velho solitário arma um falso funeral para se retratar com as pessoas que ama.

Like Dandelion Dust (Downes Brothers), Mira Sorvino e  Barry Pepper vivem um casal na adaptação do romance de Karen Kingsbury, autora campeã de vendas de livros de ficção cristã.

Soul Surfer (Affirm Films/Sony Pictures). Dennis Quaid e Helen Hunt estrelam esse drama sobre um jovem que perde um braço no ataque de um tubarão e tenta voltar a surfar.

Jumping the Broom (TriStar Pictures). Angela Bassett e Laz Alonso ainda estão filmando essa comédia romântica sobre casamento, escrita pelo pastor e evangelista T.D. Jakes.

Tradução e edição: Jarbas Aragão

© Direitos de tradução reservados

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