Democracia ou coreografia?

Robinson Cavalcanti

Um irônico pensador inglês escreveu certa vez, refletindo sobre a realidade política de alguns países que: “A Democracia é o regime que a cada quatro anos o povo tem a liberdade de escolher quem vai mandar nele no próximo período”. Se formos honestos, temos que reconhecer que isso se aplica ao caso do Estado brasileiro.

Sabemos que nos municípios nunca passamos do coronelismo ou do familismo, em uma política de nepotismo, compadrio e clientelismo (e uma boa dose de perseguição), e contextos, na maioria das vezes, de extrema miséria e dependência do assistencialismo público, do analfabetismo e da ignorância.

Sabemos como as oligarquias controlam o aparelho público e a mídia na quase totalidade dos Estado-membros, e que as mesmas não têm interesse no desenvolvimento, pois este concorreria para o declínio do seu domínio multissecular.

O Estado Nacional, associado a (des)Ordem Internacional imperial é controlado por um pacto entre o estamento burocrático e os detentores do poder econômico e financeiro, e onde os políticos são, no fundo, seus prepostos, seus gerentes confiáveis.

Mas, os donos do poder (para usar a expressão do saudoso Raymundo Faoro) precisam de uma coisa importante para governar, chamada legitimidade.

A concordância, o consentimento, o aval dos governados. Daí a importância simbólica das eleições, com partidos aos frangalhos, programas ornamentais, ideologias varridas para debaixo do tapete, e onde, publicamente, apenas se discute os temas periféricos, nunca as questões de fundo, muito menos o próprio modelo distorcido e perverso, que perpetua a chamada pirâmide social, e sua inversão “representativa”: o Parlamento.

Se toda Democracia pressupõe um Estado de Direito, nem todo Estado de Direito é realmente democrático. Se toda Democracia pressupõe uma liberalização da sociedade civil, com distinção entre o público e o privado, e o assegurar de direitos civis e liberdades públicas, nem toda sociedade liberalizada vive uma verdadeira Democracia.

Aí está o programa eleitoral gratuito; aí estão os comícios, as propagandas, as bandeiras portadas pelo “militontos” (“militantes remunerados”), e, no dia previsto, um belo “espetáculo cívico”, quando vamos legitimar, vamos escolher os escolhidos, vão dar um cheque em branco, e aguardar o que vão aprontar contra nós, pois nossa vontade não vale, e qualquer tentativa de se ir além da formalidade na consulta a vontade popular, é iradamente denunciada como um perigoso “populismo”, e qualquer proposta que democratize a propriedade será taxada de anacrônica ou deliquente.

As elites sabem conduzir com maestria o “Estado-Espetáculo”, na expressão de um cientista político francês.

A Democracia é apenas um sonho; a coreografia uma realidade!

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