O grão do imprevisto

Helena Beatriz Pacitti

Existem coisas para as quais não existe jeito. Aquela tristeza dos domingos de tarde, a saudade fininha de quem não está, aquele vazio de alma que a gente nem sabe direito de onde vem.

Tem cura? Acho que não. Até o fim da vida vai ser assim: um pouco de pesar, um pouco de nostalgia, e domingo de tarde sempre vai ser o domingo de tarde, misto de ansiedade, cansaço, desarrumação e ruídos voltando a sua rotina.

‘Daqui a pouco vamos embora’, ’já é hora de partir’, ‘me dá o último abraço’. Amanhã não se usa pijama, amanhã não se anda descalço. Amanhã é dia de vestir a camisa passada às pressas, da sensação de ter esquecido algo ao sair.

Outro dia li algo sobre  ‘a odiosa fatalidade dos seres humanos (inventados ou não) caminhando para o bem e para o mal.’ Deve ter sido a Lygia que escreveu, se não foi ela foi outra das minhas preferidas. O caso é que a segunda-feira sempre parece guardar a fatalidade de uma surpresa ruim, pequena que seja. Mesmo se não acontecer nada, a gente vai achar chato. Segunda é dia com gosto de promessa não cumprida, de se comentar o futebol de final de semana, dia de começar dieta, academia, dentista.

Talvez não tenha jeito, mas acho que a gente não devia se sentir prisioneiro de uma tarde de domingo. Devia recriar as últimas horas, comemorar o restinho do ócio.

E como tudo parece depender do tempo e do acaso, e também do grão do imprevisto, a gente devia acreditar que domingo de tarde ainda é meia página em branco.

fonte: Timilique!

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