O sequestro das palavras

Laion Monteiro

“Deixou de amar quando ela insulta
e não fica mais ofendido.”

Fabrício Carpinejar, escritor

Que tentamos a todo instante preencher o silêncio, disso já não tenho dúvidas. Sofro de uma séria dificuldade: a total inabilidade de encaixar perfeitamente as palavras durante uma conversa. A minha preocupação egoísta em querer preservar uma imagem que não tenho, tentando ser alguém que não sou em troca de aceitação alheia ou o famigerado tapinha nas costas é, quase sempre, inútil. O tiro sai sempre pela culatra. Quanto mais me protejo, mais vejo o quanto necessito da compreensão de quem me ouve. Quanto mais perfeito tento ser, mais idiota vou me tornando. A prova cabal desse meu desajuste é a quantidade de abraços que dou numa pessoa enquanto converso. Gentileza? Eu diria gentileza e um quê de emotividade; mas não posso deixar de salientar que o incontável número de abraços é também resultado da minha falta de percepção: nunca sei quando o assunto terminou. Deve ter ficado claro que não precisa de muita coisa pra me deixar sem jeito. A palavra certa é desconcertado.

E o amor desconcerta.

Diante da vastidão de coisas que me fazem perder o concerto, ainda existe uma que é quase criminosa – sem exageros. A entrada criminosa no futebol é a que faz o jogador adversário perder a condição de se proteger e além disso, que é o pior, deixá-lo desprovido da mínima capacidade de revidar. Se essas coisas caracterizam algo criminoso no futebol, pego o termo emprestado e qualifico a minha ideia de crime nas relações afetivas. Nada mais estarrecedor, gostoso e indesculpável ao mesmo tempo do que ganhar um presente. É assim que me sinto todas as vezes que alguém chega diante de mim e, com um carinho que eu jamais conseguiria repetir, me faz sentir invariavelmente indefeso e inteiramente sem condições de revidar. “Pronto. Ganhei um presente. O que fazer?“. De onde vem o nosso acanhamento? Até os mais extrovertidos perdem a pose. É porque diante de um gesto, o sentimento sequestra-nos as palavras. E só nos devolvem quando a pessoa já foi embora. Aí já é tarde. Ninguém sai agradecendo ao poste por um presente que recebeu.

As cenas de ataque e defesa, avanços e recuos se repetem na relação. Quando o outro recebe um insulto e não se sente ofendido é sinal de que a indiferença – inimiga do amor – encontrou guarida no coração de um dos dois. O amor puro e perfeito é inexistente. E a inexistência desse tipo de amor idealizado é graças à nossa humanidade. O perfeito é desumano porque o humano é imperfeito, disse Fernando Pessoa. Logo, se a prerrogativa do amor é a inclusão do outro a despeito de suas qualidades e defeitos, torna-se impossível acatar a perfeição. O perfeito exclui o que é diferente dele. O mesmo acontece com a pureza do amor platônico. O amor puro é invencionice não porque o amor seja sujo; mas porque amar é uma abertura radical ao outro. Uma vez dado espaço para o outro ser quem ele é, e aqui reside a coragem e fé inabalável que o amor tem, impossível será prever as consequências dessa entrega. Não saberemos o que virá do lado de lá. Por deixar o outro ser quem realmente ele é e ainda ser aceito, o amor é uma espécie de convite à crucificação.

“Meu bem, que hoje me pede pra apagar a luz
E pôs meu frágil coração na cruz
No teu penoso altar particular”

Maria Gadú, Altar Particular

Somente no amor é que podemos crucificar a nossa idealização do outro. Idealização essa que serve apenas para roubar a liberdade do próximo. Enquanto Platão idealiza; o amor finca os pés no chão. Enquanto Platão espera de você a perfeição; o amor espera apenas você mesmo. Platão grita um “Seja quem eu sempre sonhei!“; o amor diz “Seja quem você é e eu não me usarei das suas fragilidades pra lhe dominar“. E pra sacramentar a derrota do idealismo, o amor termina todas as suas proposições com um doce “Não tenha medo“.

O amor e o gesto andam juntos. O tal gesto que me faz ficar todo sem jeito é companheiro inseparável do amor. Considerando todas as coisas que se podem fazer para retribuir o amor, nenhuma delas é mais completa que o silêncio. É o cenário com o qual nos deparamos nas festas de aniversário. Ou melhor, permita-me uma correção, na nossa festa de aniversário. Quando cantamos parabéns para o outro, escancaramos o sorriso malicioso. Quando cantam parabéns pra nós (aquele bolo que os colegas do escritório compraram e também convidaram o chefe), a sensação é a de estarmos levando uma surra, sem piedade. E não podemos revidar. É assim que me sinto quando alguém me presenteia: levei um soco e não posso dar o troco.

O gesto é o sentido das palavras. Sem ele, elas seriam vazias, incompletas. A mágica maior é poder fazer o verbo se transformar em carne e, aquilo que antes era tema de discurso, transformar-se num delicioso jantar à mesa. Esqueça o CD que você pode comprar e dar a um amigo em forma de agradecimento pelo presente que você ganhou. Geralmente, os amigos entendem essa nossa incapacidade de preencher o silêncio quando tudo o que nos falta é a palavra. Não se preocupe em enviar sms, e-mail, ou seja lá o que for pra recompensar à altura o embrulho que lhe veio às mãos. Impossível responder à altura um gesto de carinho. O melhor mesmo é celebrar o silêncio. Não temos nada o que dizer. A melhor saída, e é a que eu tenho recorrido, é sorrir bastante e abraçar mil vezes o amigo que nos presenteou.

Quando questionado por mim o porquê de nos sentirmos tão indefesos quando recebemos um presente, Fabrício Carpinejar me disse: “Vai dizer o quê pro afeto?“. E essa tem sido a tônica das minhas amizades. Meus amigos sabem das minhas inadequações. E eu sei também das imperfeições deles. Não exijo nada como agradecimento por aquilo que um dia eu fiz. Não há o que dizer pro afeto; e até o abraço é insuficiente.

Vai dizer o quê pro amor?

fonte: Celebrai!

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for O sequestro das palavras

Deixe o seu comentário