Balas, baladas, baladeiros

Robinson Cavalcanti

Foi chocante assistir a um programa de televisão, há poucos dias, focalizando o mundo das baladas tanto nas periferias mais pobres quanto em ambientes de classe média nas grandes cidades do nosso País. O álcool, as drogas (maconha, cocaína, crack e ecstasy), e o sexo casual formam a “filosofia de vida” do que foi denominada pelo repórter de uma geração de “rebeldes sem causas”.

Os “militantes” desse mundo das baladas são chamados de “baladeiros”, e, uma vez ou outra, uma bala perdida é achada em seus corpos. Como sabemos as pessoas jovens, pardas e de sexo masculino se constituem no maior grupo de risco para a violência dessas balas no Brasil. Rebelde, no bom sentido, todo jovem deve ser, no processo de renovação do mundo, mas, onde a porca torce o rabo é no tópico “sem causas”.

Vive-se hoje no Ocidente o Secularismo, o Materialismo Prático, o Consumismo e um reavivamento da filosofia hedonista: “comamos e bebamos, que amanhã morreremos!”. A vida é o ter e não o ser.

A Economia desbancou a Teologia como “rainha das Ciências”, e, embora Marx fosse rejeitado, a ironia é que hoje a variável econômica é a determinante mesmo. O marxismo, que (para usar a classificação de Karl Mannheim) era uma “utopia” no Ocidente e uma “ideologia” nos países do então “socialismo real”, cuja realidade nada tinha de socialista, mas de uma ditadura de capitalismo estatal. O problema é que o marxismo apresentava uma história determinista e fechada: o mundo marchava inexoravelmente para o Comunismo, que uma vez atingido não se criaria mais nada diferente dele.

Hoje, no momento aparentemente triunfante, o Liberalismo-Capitalismo é apenas uma outra face da mesma moeda: o mundo marcha inexoravelmente para ele e nada se vai criar depois e diferente dele, no “fim da História” (Fukuyama).

Então, o que vale é essa vida, o que temos, o que consumimos, o prazer. A História está fechada, não há lugar para críticas, para sonhos, para propor superações e o diferente. Devemos nos con-formar com esse mundo e dele usufruir.

As baladas, os baladeiros, e as próprias balas, são uma decorrência lógica da forma de pensar dos nossos tempos. Quais as opções para um jovem: ser um “empreendedor” ou trabalhar para um deles: trabalhar, trabalhar (canalizando a libido = Reich), ganhar, ganhar, gastar, gastar, essa é a lei, essa é a vida. Fora disso resta a balada e a fuga alienante de religiões.

Como cristãos, que defendemos uma espiritualidade engajada, presente no mundo, in-conformada, nos cabe a arriscada (martíria) tarefa de anunciar a reabertura da História, e o direito de sonhar e criar.

Por nossa omissão, o Brasil vai se tornando uma grande balada, as balas estão por toda a parte, e no lugar de cidadãos, vamos todos nos tornando apenas baladeiros.

Os(as) candidatos presidenciais trabalham com esse cenário e esse universo?

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