Sexo, Deus e Katy Perry (2)

Esta é a segunda parte da entrevista de Katy Perry para a Rolling Stone. Veja a primeira AQUI.

Confira  o vídeo de parte da entrevista para a Rolling Stone (em inglês)

Vanessa Grigoriadis, na Rolling Stone
Parece que Katy Perry estava igualmente interessada em atenção quando era criança. “Katy é a filha do meio, por isso sempre tentou chamar atenção”, diz Angela, sua irmã, hoje organizadora de eventos em Los Angeles. “Nossa família inteira é assim, de certa maneira. Amamos divertir as pessoas, fazer um show.” Mas o método Perry de seduzir os outros é bem diferente de seus pais. Afinal, eles são pastores evangélicos conservadores e “ministros intinerantes”, o que significa que apresentam seminários e fazem reuniões de oração em qualquer igreja que os convide. Eles viajem por todo o país, embora sejam agora morando em Oceanside, Califórnia.

Durante os anos que Katy frequentava a escola, eles a proibiram de ir a festas e danças, não permitiram que ela assistisse as aulas de educação sexual e proibiam que entrasse em sua casa quase tudo que fosse da cultura pop, incluindo revistas, TV e filmes. “Não era uma atmosfera tranquila”, diz Perry. “Eu aprendi sobre o inferno desde o momento em que eu conseguia entender uma frase completa. Eu sentia medo de Satanás e das pessoas que ficam rangendo os dentes lá.”

Ao contrário de muitos cristãos evangélicos, os Hudson [pais de Katy] tiveram vidas mundanas – e bizarras – na juventude. (Perry passou a usar o nome de solteira da mãe para evitar que a confundissem com Kate Hudson.) Nos seus dias “AC”, ou Antes de Cristo, como sua mãe gosta de chamá-los, Keith, pai de Perry, era um hippie maltrapilho que foi a Woodstock. Ele disse a Katy que vendeu ácido para Timothy Leary e tocou pandeiro no palco com a banda Sly and the Family Stone. Mas uma noite, sozinho em um pomar de maçãs em Wenatchee, Washington, ele teve uma revelação, onde passagens da Bíblia saltaram diante de seus olhos. “Quem sabe se essas visões não foram resultado de outra coisa?”, diz Perry.

Mary, mãe de Perry, era a filha rebelde de uma família abastada de Santa Bárbara. Seu irmão, Frank Perry, tornou-se um diretor de filmes de Hollywood, incluindo Mamãezinha Querida [biografia não autorizada de Joan Crawford]. Ela chegou a sair uma noite com Jimi Hendrix. “Eu disse a ela: mãe, você deveria ter ido até o fim”, declara Perry. “Eu poderia ter sido Katy Hendrix, uma rock star mais legítima.” Mary casou-se com piloto de corrida que tinha perdido a perna em um acidente de motocicleta. Juntos, eles mudaram para uma fazenda de macadâmia no Zimbábue. A mãe disse a Perry que para evitar a alfândega, ela e o primeiro marido escondiam jóias na prótese dele e as vendiam em sua loja de antiguidades. Após o casamento acabou, Mary voltou para os EUA e trabalhou como repórter na rádio ABC, entrevistando Jimmy Carter e Muhammad Ali antes de cobrir cultos de avivamento em tendas cristãs. Em um culto em Las Vegas, dirigido pela irmã de Keith, uma ex-dançarina de boate,  Mary apaixonou-se por Deus e por Keith ao mesmo tempo. Sua família a repudiou. “Os meio-irmãos dela convenceram meus avós que mamãe havia ficado louca, pois se tornara cristã”, diz Perry. “Então ela teve que se virar sozinha.”

Um ministério itinerante não é um tipo de trabalho muito lucrativo e a família de Perry muitas vezes passou por dificuldades. “Às vezes comíamos as mesmas cestas básicas que distribuíamos para alimentar a nossa congregação. Eu tinha muita vergonha disso”, diz ela. “Nós tivemos um período que só comprávamos comida com os vales dado pelo governo [tipo bolsa-família], mas eu não gosto de falar sobre isso. Eu não parecer que sou daquelas pessoas que dizem, ‘Hey, sinta pena de a mim, eu uso vale-comida.” As regras em sua casa não eram apenas rigorosas, mas também um pouco loucas. “Eu não podia dizer que eu tinha sorte, porque minha mãe preferia que disséssemos: ‘somos abençoados’. Ela também não achava que devíamos dizer a palavra lucky [sortuda, em inglês], pois tinha um som parecido com a palavra Lúcifer, diz Perry. Não tínhamos em casa nem o popular aspirador de pó Dirty Devil [Demônio da sujeira]. Não podíamos nem chamar ovos apimentados pelo seu nome popular. Ao invés de deviled eggs [ovos do demônio], tínhamos de chamá-los de “ovos angelicais”. Eu não podia comer o cereal Lucky Charms [amuletos da sorte], mas acho que era por causa do açúcar.” Ela dá uma piscadela, “Creio que minha mãe mentiu para mim sobre isso”.

Algumas vezes, a congregação de seus pais eram apenas cinco pessoas reunidas em um pequeno quarto de hotel e os Hudson passavam o dia todo entregando folhetos, sem nunca duvidar que estavam fazendo a coisa certa. (O pai de Perry tem quatro tatuagens, todas elas escrito JESUS). “Minha mãe e meu pai praticam em conjunto ‘línguas e interpretação’ – meu pai fala em línguas, enquanto minha mãe interpreta. Esse é o dom deles”, diz Perry. As três crianças, incluindo Katy, também falavam em línguas.

“Falar em línguas é tão normal para mim como ‘Passe o sal’, diz ela. “Muitas religiões usam a meditação ou mantras como uma linguagem subliminar de oração. Falar em línguas que não é tão diferente – é um segredo, uma linguagem de comunicação direta com Deus. Se eu sinto intuitivamente que preciso orar por alguma situação, mas não entendo o que é racionalmente, apenas deixo o meu espírito orar por isso. “

Louvar ao Senhor através da música na igreja também era normal para ela, mas Katy nunca pensou nisso como uma carreira. Pelo menos não até os 9 nove anos, quando Angela voltou de uma viagem para a casa dos seus padrinhos com uma penteado novo e uma fita de música evangélica. Mas cantar sempre foi o “dom de Perry”. Era assim que os seus pais viam. Por isso, a apoiaram quando ela decidiu que queria cantar profissionalmente. Katy começou a se apresentar numa feira agrícola local dois dias por semana, em troca de algumas moedas, e também provou ser talentosa em discursar. Em um vídeo antigo de uma apresentação que ela me mostrou, Katy pega o microfone e, enquanto abre um largo sorriso, alertar os presentes que: “Se você não viver para Cristo – só quero dizer isso – sua vida é muito vazia e, portanto, pode não haver sentido nenhum em vivê-la”.

Quando Katy tinha 13 anos, seus pais a levaram até Nashville para tentar uma carreira de cantora gospel. Ela conseguiu lançar um CD por uma pequena gravadora alguns anos mais tarde. Em um dos seus posters promocionais, ela parece estar gritando em êxtase, com os cabelos espetados, um “corte de lésbica” – é assim que ela o descreve hoje – usando um monte de pulseiras de borracha nos pulsos. “Eu era cristã, mas era moderna”, diz ela. Mas Perry tinha um segredo: ela também queria ser uma estrela pop. “Toda vez que ia para a casa de um amigo, gostava de ligar imediatamente a MTV”, diz ela. “As outras crianças diziam: ‘Por que vocês está vendo isso? Vamos fazer outra coisa! Eu respondia: “Não. Eu preciso ver isso.” Era a época que Gwen Stefani cantava “Don’t Speak” e “Just a Girl”, também gostava de Alanis Morissette e Shirley Manson. ”
Perry começou a questionar o caminho que ela estava trilhando. Sua gravadora cristã acabou fechando. Ela lembra: “Minha carreira gospel não estava indo a lugar nenhum.” Katy começou então a compor canções sobre o amor – e meninos – em sua guitarra. Aqueles que não eram canções gospel. “Abandonar tudo foi um processo”, afirma. “Conhecer pessoas gays, ou judeus, e perceber que eles eram legais teve uma grande importância na sua decisão. Depois que meus pais pararam de me acompanhar, percebi que tinha uma escolha na vida, eu era como, ‘Uau, existem muitas opções. Comecei a ser um tipo de esponja, tentando absorver tudo o que eu tinha perdido – a música, os filmes. Tinha muita curiosidade, como um gato”. Ela sorri. “Mas isso ainda não me matou”.

Em breve a terceira parte será publicada. Fique ligado!

Tradução e edição: Jarbas Aragão. (c) Direitos de tradução reservados. Permitida a reprodução desde que citada a fonte.

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