Os Malucos de Deus

Um homem estabeleceu como sua missão de vida documentar as formas bizarras e inusitadas que as pessoas praticam a religião. Benyamin Cohen (da Daily Beast) falou com Michael Largo sobre as histórias mais estranhas que ele descobriu e por que ele é obcecado por esse assunto.

A senhora Marion Keech, do estado americano de Missouri costumava receber ligações a cobrar de alienígenas. Ao menos é o que ela dizia às outras pessoas. Era a década de 1950, e o público acreditava em muitas coisas. A senhora Keech fez anotações cuidadosas de sua comunicação com os extraterrestres e informou os EUA que um dilúvio destruiria o mundo em 21 de dezembro de 1954. Mas os que se unirem à seita de Keech poderiam sair do planeta a bordo de uma espaçonave que partiria da frente de sua casa à meia-noite, escapando por um triz do apocalipse.
 E um homem estabeleceu como sua missão de vida documentar e colecionar histórias de fanáticos religiosos, doidos, crentes de todo tipo, pessoas como esta mulher. O homem em questão é Michael Largo, conhecido autor de livros sobre a morte acaba de publicar God’s Lunatics: Lost Souls, False Prophets, Martyred Saints, Murderous Cults, Demonic Nuns, and Other Victims of Man’s Eternal Search for the Divine [Os malucos de Deus: almas perdidas, falsos profetas, santos martirizados, seitas assassinas e freiras demoníacas e outras vítimas da busca eterna do homem pelo divino]. Recentemente ouvi Largo palestrar em Atlanta e, depois, o entrevistei por telefone.

(ao lado, a capa do novo livro de Largo. Na foto menor, o autor)

Ele fala de santos e pecadores, de alienígenas e de apóstolos. Ele diverte o leitor com relatos de religiões que deram errado.

Ele conta a história de John Frum, um veterano da marinha que desembarcou na costa de uma ilha no sul do Pacífico. Os nativos, que tinham pouco contato com o mundo exterior, imediatamente saudaram Frum como seu Messias. Frum ensinou-lhes que Tio Sam e Papai Noel eram deuses reverenciados e os fez acreditar que entregar barras de chocolate uns aos outros era um ritual religioso. Frum morreu ao cair (alguns dizem que foi empurrado) em um vulcão ativo. Seus seguidores acreditam que ele irá ressuscitar em 2015.

Existe também histórias como a da padroeira dos skatistas no gelo. As freiras voadoras (sim, existiam muitas delas).O caçador de hereges Conrad de Marburg. Pascal T. Randolph, um barbeiro do século XIX que tornou-se um mago do sexo e supostamente criou a expressão “alma gêmea”.

Há uma pregadora pentecostal carismática conhecida como Irmã Aimee [McPherson]. No início dos anos 1900, ela fazia cultos de avivamento em uma tenda muitas vezes reuniam até trinta mil pessoas, que ficavam em pé o tempo todo. Ela construiu a primeiro megaigreja americana, um templo com mais de cinco mil assentos e que lotava seus três cultos diários todos os dias da semana. Se isso não bastasse, ela também criou a sua própria denominação: a Igreja Internacional do Evangelho Quadrangular.

Possivelmente ela seja mais conhecida por ter sido supostamente raptada perto de Venice Beach na primavera de 1926. A maioria das pessoas acreditava que ela havia se afogado, outros achavam que ela foi seqüestrada. Alguns acreditavam ainda que ela havia montado uma cena perfeita de desaparecimento. Cerca de um mês depois, a irmã Aimee milagrosamente apareceu em um deserto mexicano, afirmando que fora sequestrada e brutalmente torturados. Mas poucas pessoas acreditaram nela. Na verdade, um obreiro que estaria romanticamente envolvido com a irmã Aimee coincidentemente também desapareceu na mesma época. Os dois teriam sido vistos em vários de hotéis durante o período que ela ficou desaparecida.

São histórias como essas, centenas delas, que enchem as páginas da nova obra enciclopédica de Largo. Para fazer essa compilação, ele manteve um regime de escrita quase monástico. Muitas vezes pesquisando 18 horas seguidas e dormindo apenas quatro horas por noite. God’s Lunatics utiliza como fonte mais de 300 livros, que Largo ainda está retirando de sua casa no lago. “Eu estava ficando meio louco no final do livro”, disse-me por telefone.”Mexer com todos esses deuses diferentes dificultou o meu sono. A bênção é que eu tenho insônia. ”

Parece que não importa o assunto que Largo escolha, logo fica  obcecado por ele. O autor passou a maior parte das últimas duas décadas focado inteiramente na morte. Não na sua própria mortalidade, mas na dos outros.

Em Assim Morreram os Ricos e Famosos, ele revela como algumas celebridades realmente morreram. Em Final Exits, o livro que lhe deu aclamação nacional, detalhou penosamente as incontáveis maneiras como os seres humanos podem chutar o balde. Em Genius and Heroin, ele ofereceu um catálogo ilustrado de como artistas, como Jackson Pollack, e astros do rock, como Kurt Cobain, literalmente se envenenaram para desempenhar seu trabalho. Não é a toa que ele recebeu o apelido de “Doutor Morte.”

Ele tempera todas as conversas diárias com um pouco do antigo e grosseiro humor negro. Memorizou obituários de pessoas famosas. Sabe se o número de pessoas que morrem todo ano por causa de palitos de dente é (ou não) maior que os atingidos por relâmpagos. Consegue lembrar as tendências de mortalidade, desde a época romana até a da semana passada. Faço-lhe uma pergunta e, de algum modo a resposta inclui o óbito do poeta ateu Percy Shelley. Na palestra que fez para o lançamento de God’s Lunatics, sua platéia estava recheada de fãs góticos tatuados. Ele se tornou um sinônimo de morte.

Mas Largo vê seu novo livro sobre religião como uma extensão natural do trabalho anterior. “A morte e a religião são bons companheiros”, diz ele. A auto considera-se um “católico recuperado,” (ainda lembra claramente a punição corporal que recebeu das freiras na infância). Neste livro não se posiciona  a favor ou contra Deus. Na verdade, opta pela tolerância religiosa. “Eu tentei fazer o livro servir como um guia do consumidor de religião”, diz ele.

God’s Lunatics se apresenta como um tipo de enciclopédica acessível. O primeiro verbete é “Abracadabra”, que originalmente era um antigo código usado por sacerdotes egípcios, e termina com “Zoroastrismo.” Entre os dois, recheado de fotos raras da Biblioteca do Congresso, estão centenas de verbetes que ele chama de histórias curtas sobre o banal e o bizarro. Encobrindo tudo, desde como cortar corretamente o pescoço de uma galinha kosher [ritual judaico] até uma lista dos masturbadores bíblicos. Uma seção sobre cabelo divino revela por que os homens Amish [ramo radical anabatista] não usam bigodes e os judeus ortodoxos deixam crescer cachos nas laterais da cabeça. Oferece ainda informações sobre como iniciar sua própria seita. “Uma maneira infalível de obter seguidores para sua seita é falar sobre o apocalipse”, explica ele com indiferença.

Uma das seções favoritas de Largo explora a “Teoria dos astronautas antigos”, defendendo a hipótese de que alienígenas inteligentes desembarcaram na Terra milhares de anos atrás. Os cro-magnons foram as experiências genéticas mal-sucedidas e que o maná caiu de suas naves espaciais. “Acredito que os escritores da antiguidade dariam bons escritores de ficção científica nos dias de hoje”, diz Largo, que também escreveu três romances.

Mesmo gostando de escrever à distância sobre esses religiosos esquisitos, Largo experimentou pessoalmente mais do que o necessário para escreer uma autobiografia espiritual. Ele foi coroinha católico e visitou muitos santuários sagrados de Roma. Participou de todos os tipos de igreja: batistas, episcopais, metodistas, calvinistas – só para citar algumas. Experimentou cogumelos com uma mulher druida, praticou várias filosofias orientais, passou finais de semana em retiros espirituais cristãos, assistiu palestras da Nova Era, comeu sopa de bolinhas de matzá em uma cerimônia judaica e encontrou-se com um curandeiro nas montanhas de Baja, na Califórnia.

Mas ele ainda não está pronto para escrever as histórias de sua trajetória  pessoal. Aos 56 anos de idade, Largo esperará até ficar mais velho e estiver vendo a sombra da morte no horizonte. O que não é surpresa. Com Largo, todas as estradas são pavimentadas de mortalidade. “É tudo parte de um ciclo”, explica ele. “Acho que pensar tanto sobre a morte faz com que as pequenas bobagens tornem-se menos importantes.”

Michael Largo agora está tirando alguns meses de férias para descobrir qual será seu próximo passo. “Minha cabeça ficou um pouco queimada com este livro”, admite. Mas o vislumbre do espectro da morte já começou a motivá-lo novamente. Ele diz que está pensando em um livro que fale da herança de pessoas que já morreram. “Há essa famosa frase,” diz ele, “Nada melhor para começa uma briga que a morte de um homem rico.” Michael, ao que parece, não consegue ficar longe da morte por muito tempo.

Benyamin Cohen é o autor de My Jesus Year: A Rabbi’s Son Wanders the Bible Belt in Search of His Own Faith (HarperOne) e diretor de conteúdo para a Mother Naturere Network. Ele pode ser encontrado em www.myjesusyear.com.

Traduzido e editado por Jarbas Aragão. Direitos da tradução reservados. (c)

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