Cleycianne Feelings

Um espaço para o irreal em um mundo de credulidade
Mark Oppenheimer, no New York Times

Desde 2008, o ChristWire surgiu como o principal site americano para se obter notícias e opiniões cristãs ultraconservadoras,  além de reportagens sobre 0 clima. “Trajetória projetada do furacão Earl: a porção gay da Costa Leste da América”, opinou o ChristWire na segunda-feira. Uma manchete no final de agosto proclamou: “Atenção! Música de negros infiltra-se nas mentes de  futuras donas-de-casa brancas”. Semana passada, referindo-se a Ken Mehlman, ex-presidente do Partido Republicano que “saiu do armário” em agosto, o ChristWire perguntou: “Por que Ken Mehlman acha que a escolha de um estilo de vida homossexual é mais importante que os valores republicanos, defendidos tanto por ele? ”

O ChristWire ultimamente tem atingido novos níveis de popularidade, em parte graças a uma coluna intitulada “O meu marido é gay?”. Escrita por Billings Stephenson, trata-se de uma lista de 15 itens para ajudar as esposas a detectar maridos possivelmente enrustidos. “Vai muito para a academia, mas não se interessa por esportes?”, é um sinal de alerta. Outros sinais são: “Ele fica muito alegre, sarcástico e irônico queando está perto de seus amigos?” e “Ama a cultura pop?”. O texto de “O meu marido é gay?” foi reproduzido no conceituado The Huffington Post e mencionado por Ryan Seacrest em seu famoso programa de rádio. Até agora o artigo já foi lido online 8.300.000 vezes.

A propósito: o ChristWire é uma grande piada.

Não para todo o seu público, pois o site atingiu 27 milhões de page views em agosto. Porém, o conteúdo, as opiniões e os autores que escrevem o material são falsos. (Não existe um “Billings Stephenson.”) Nenhum dos dois fundadores considera-se cristão conservador. São apenas dois homens de 28 anos que pensam de forma parecida e se conheceram na internet. Antes, nunca tinham se encontrado ao vivo e até esta semana jamais haviam revelado suas verdadeiras identidades a um repórter.

Foto: Eric Thayer / The New York Times

Bryan Butvidas, um dos fundadores da ChristWire. Seu alvo não são os cristãos, mas aqueles que não questionam o que ouvem no noticiário.

Bryan Butvidas é um desenvolvedor de software que trabalha no sul da Califórnia. Kirwin Watson é um ex-estudante da universidade califoniana Pepperdine que acabou voltando para o Kansas.  Hoje ele trabalha “na equipe de cuidados do paciente” de um hospital local. De acordo com entrevistas feitas por telefone com os dois, eles se conheceram online em 2005, quando ambos contribuíam com o site de notícias Shoutwire.com.

Eles não lembram claramente da data. “Talvez tenha sido 2007,”  Butvidas arrisca, quando faziam postagens de humor colaborativo na web. Foi então que Butvidas comprou o domínio ChristWire.org e os parceiros criaram o site que existe hoje, algo como o The Onion [mais famoso site de notícias falsas dos EUA], se os escritores preocupassem principalmente com Deus, os gays e a influência do clima.

Hoje, a equipe editorial foi ampliada, mas todos trabalham sem remuneração. Isso inclui “seis a oito outros monitores, que observam o que está contecendo”, disse Watson, “e cerca de 20 a 30 outros escritores regulares.” Watson geralmente escreve os textos assinados como “Jack Gould.” Butvidas normalmente escreve usando o nome “Tyson Bowers III,” cujo artigo mais recente leva o título de “Os gays agora usam o Papai Noel para estimular as relações amorosas entre homens e meninos.”

A identidade de um dos contribuidores mais prolíficos da ChristWire, o autor de “O meu marido é gay?” ainda permanece um mistério até mesmo para os seus editores.

“A verdade é que não sabemos quem é Stephenson Billings”, afirma Butvidas. “Ele tem escrito para nós há quase um ano. Recebemos milhares de e-mails por semana sobre os textos dele. Tudo o que sabemos é que ele vive em Nova York, e tudo o que toca vira ouro “.

Nem Watson nem Butvidas estão em uma cruzada ateísta. Watson considera-se “um católico praticante” e Butvidas é um protestante não denominacional que é “bastante religioso.” Seu alvo, dizem, não são os cristãos, mas aquelas pessoas que não questionam o que ouvem nos meios de comunicação. “Muitas vezes percebemos um idiotice galopante na mídia, diz Watson. “As pessoas veem os seus canais de TV favoritos, não questionam nada e acabam repetindo tudo no dia seguinte em conversas no escritório. Isso não é nada bom. ” Butvidas diz que já foi procurado por numerosas agências de notícia, como o Washington Post, New York Magazine e The Onion, que tentavam descobrir a identidade dos homens por trás do ChristWire. “Nós nem sequer os atendemos”, diz ele.

Agora, os homens por trás do ChristWire decidiram desistir do anonimato. Podemos apenas esperar que a exposição pública não comprometa o seu projeto, eloquentemente resumido por. Butvidas: “Vamos escrever coisas para expor como as pessoas são estúpidas.”

Tradução e edição: Jarbas Aragão. Direitos de tradução reservados. Ao citar, favor indicar a fonte.
Esta é apenas uma parte da matéria. Para lê-la na íntegra (em inglês) clique AQUI.
Aqui no Brasil já existem sites do gênero há algum tempo. Alguns são inexpressivos, outros tiveram vida curta. Tivemos durante algum tempo o Igreja Internacional, com textos do humorista que assinava como Pr. Silas. Ele afirma que chegou a ter 80 mil visitas diárias, com uma média de 30 mil. Entretanto, ao tentar aumentar seu “ministério” teve o site roubado, veja AQUI e depois de desmentir boatos de sua morte recuperou o domínio. A mais famosa é a “irmã Cleycianne”, que até foi entrevistada no Jô (AQUI). No Pavablog, todos os editores e colunistas são fakes, menos eu, claro 😛

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