O Próximo Presidente do Brasil

Pela primeira vez em sua história, a Rolling Stone Brasil contempla o leitor com três capas diferentes em uma mesma edição (com conteúdos iguais).

Desta vez, imersos no contexto político sustentado pelas eleições 2010 – a serem realizadas no mês de outubro -, estampam a edição 48 da revista os candidatos à Presidência da República Marina Silva (PV), José Serra (PSDB), e Dilma Rousseff (PT), que concederam entrevistas exclusivas (no caso dos dois primeiros, pessoalmente, tendo Dilma respondido às perguntas via e-mail) para mostrar aos eleitores o porquê de merecerem assumir o maior cargo da nação – bem como as responsabilidades a ele inerentes.

Entrevista RS: Marina Silva

Marina Silva reclama do frio. É o fim de um dia nublado de maio quando a candidata a presidente pelo Partido Verde enfim se desvencilha da agenda e se coloca disponível para a entrevista com a Rolling Stone Brasil. O local escolhido foi o escritório de seu comitê, no 2o andar de uma ampla casa reformada a partir dos resquícios de uma casa noturna, na Zona Oeste de São Paulo. Com um xale nos ombros e recostada em uma cadeira de escritório, a senadora de 52 anos nascida em Rio Branco (AC) chega a aparentar desconforto e fragilidade. Mas a impressão se dissipa no exato momento em que começa a disparar suas respostas, elaboradas com um misto de serenidade, clareza de discurso e agilizada eloquência – conforme fomos avisados a todo instante, a candidata precisaria estar no aeroporto em menos de duas horas para voar a Salvador. Compromissos obrigatórios de uma campanha que oficialmente ainda nem havia começado.

Caso eleita, o que a senhora vai fazer pelo Brasil?

A minha resposta depende do que queremos fazer. Acho que cada vez mais os desafios que estão postos para a humanidade – é aquilo que eu chamo do exercício da política, do exercício da gestão pública em coautoria – são sempre um dividir de responsabilidades. Quando você passa por um processo como esse, o que você vai fazer depende muito do acordo social que sai das urnas. E o que estou propondo como o termo de referência é a sustentabilidade social, ambiental, cultural, política e ética, para produzirmos uma economia do século 21, baseada nos valores do século 21, orientados pela nova visão que se deve ter do mundo. Até há bem pouco tempo, se achava que os recursos naturais eram infinitos, que o desenvolvimento era linear. Hoje, sabemos tecnicamente e cientificamente que não é assim, e mudando a realidade, muda também o olhar para a realidade. Então, a realidade que nós temos hoje é a que vai exigir cada vez mais de nós. É uma nova forma de relação dos homens uns com os outros, dos homens consigo mesmos e dos homens com a natureza. Esse Brasil que queremos para o século 21 é aquele capaz de integrar as conquistas que já temos, os avanços econômicos, sociais, e transitar para os novos desafios do século 21. O Brasil é hoje o país que reúne as melhores condições de fazer esse trânsito, porque tem uma base de recursos incomparavelmente maior do que qualquer outro, e uma base de conhecimentos, de tecnologia razoável. E é possível iniciar, no século 21, o mesmo processo que os Estados Unidos fizeram no início do século passado. E, junto aos países de cultura milenar, entrar num processo e se tornar mais desenvolvido até do que os países de cultura milenar. O Brasil pode dar esse passo se tiver a visão, o processo certo e se criar as estruturas para viabilizar isso.

Tem de haver uma mudança comportamental nos brasileiros?

Acho que as grandes transformações são sempre precedidas de mudança de mentalidade. Primeiro você tem uma percepção das coisas, uma opinião sobre uma determinada situação, que nem sempre é acompanhada de uma mudança de atitude. Mas, obviamente, as grandes transformações acontecem em função de uma mudança de mentalidade. A gente nem sempre vai ter os contornos dessa mudança por inteiro, aliás nunca vai ter. Mas, hoje, eu diria que as pessoas começam a perceber muito claramente que o padrão de vida que temos é insustentável. Um dia desses, vi um vídeo em que a pessoa dizia que ainda existem aqueles que querem viver o “modelo cinco planetas”. É aquele que acha que o mundo inteiro se tornará tão desenvolvido de modo a ficar semelhante à Europa e aos Estados Unidos. Mas, se os 6 bilhões de seres humanos ficarem com os padrões de consumo e produção iguais aos da Europa e dos Estados Unidos, nós precisaremos de cinco planetas. Logo, não temos como almejar esse modelo, pois só temos um planeta. Temos que buscar outro modo de vida. Como fazer para produzir mais utilizando menos recursos naturais? Como fazer para evitar os danos que levam às mudanças dos sistemas climáticos sem os efeitos indesejáveis da mudança de modelo de desenvolvimento?

É possível realmente ter desenvolvimento com a sustentabilidade? Ou a sustentabilidade pode atrasar o desenvolvimento do Brasil?

É perfeitamente possível, e o bom de tudo isso é que ainda temos tempo para fazer essa transição. E os cientistas estão dando uma data: até meados do século, nós temos que reduzir em 80% as emissões de CO2, sob pena de elevarmos a temperatura da Terra acima de dois graus e inviabilizarmos a vida no planeta. Essa é uma questão que está colocada para a humanidade. O como que você me pergunta, ninguém no planeta tem a resposta definitiva, mas a gente já tem vários elementos e uma base material que nos dá todas as condições para o começo – graças àquelas pessoas que tiveram a visão antecipatória de mundo e de realidade. Hoje, sabemos que é possível gerar energia dos ventos, do Sol, da água, da biomassa, enfim, das várias fontes que estão surgindo por aí, como é o caso da energia do hidrogênio. Por quê? Porque existiram pessoas que há muito tempo foram capazes de antecipar esse futuro que estamos começando agora.

O custo disso compensa?

Quando se está diante de um desafio tão grande que compromete a vida e o futuro do planeta, compensa qualquer esforço. Só os Estados Unidos colocaram quase US$ 13 trilhões para socorrer o sistema financeiro. Se o homem é capaz de colocar U S$ 13 trilhões para isso, o que um comportamento ético, uma visão civilizatória, não faria para salvar a vida e o planeta? Esse é o paradoxo, e estamos diante dele. Como a gente consegue mobilizar tantos recursos – e perfeitamente justificáveis, porque não queremos uma crise que inviabilize a economia, a qualidade de vida das pessoas – e não temos a mesma compreensão em relação a socorrer o planeta? Então, obviamente compensa.

fonte: Rolling Stone
Foto: Ilustração Marcelo Calenda

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