Entre os pequenos e os grandes

Helena Beatriz Pacitti

Capa do Album '...And Justice For All ', Metallica, desenhada por Stephen Gorman
Capa do Album ‘…And Justice For All ‘, Metallica,
desenhada por Stephen Gorman
,
– Onde estão os homens? – tornou a perguntar o principezinho. – A gente se sente um pouco só no deserto.
– Entre os homens a gente também se sente só – disse a serpente.
(A. S. Exupéry)
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Justice is gone
Pulling your strings
Justice is done
Seeking no truth…
(Metallica)
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Outro dia perguntei a dois jovens sobre seu próprio conceito de justiça.  O primeiro me disse que é muito difícil definir por achar que quase tudo, hoje em dia, é meio vago e relativo.  Assim, o que é justo para uns pode ser injusto para outros.  O outro respondeu que a Justiça era ‘uma mulher cega com uma espada na mão, e que assim deve considerar todos iguais perante a Lei.’

Fui a Etimologia, que também apresenta suas dificuldades.  Uns acreditam que Jus, justitia e justum derivam do radical ju (yu) do sânscrito (língua clássica da Índia).  Ju (yu), em sânscrito, significa unir, atar, dando origem, em latim, a jungere (jungir) e jugum (jugo, submissão, autoridade).

Outros referem-se à palavra yóh, sânscrito também, encontrada no Livro dos Vedas (livro sagrado dos hindus), dando a idéia de salvação.

E o vovô?  Ele dizia que a palavra “justo” deveria causar a mesma impressão que uma peça de vestuário perfeitamente encaixada na pessoa.  Nem grande, nem pequena.  Apenas o tamanho exato.  Daí a antiga expressão: “Coube justinho feito uma luva!”

No início do ano, um sujeito bateu o carro no meu porque simplesmente estava dando ré sem olhar para trás, em um sinal.  Assim que bateu, mudou a marcha e saiu cantando os pneus.  Fui atrás, anotei a placa e passei a noite em uma delegacia para conseguir dar queixa do ocorrido.  O estrago não foi grande, mas a fuga, o descaso e hostilidade do sujeito me fizeram entender que eu devia dar parte.  Saí de lá ao amanhecer,  consolada em ter cumprido uma espécie de dever cívico.  Era a minha contribuição na tentativa de combater esse “vírus” letal de impunidade que circula por aí.

O tempo passou e achei que deu em nada.  Mas outro dia recebi um telefonema de que o caso tinha chegado até o Tribunal Criminal de Justiça do município.  A audiência está marcada e em alguns dias poderei rever o ilustre cidadão que meses atrás, aos berros, disse que não tinha culpa de nada porque estava “seguindo as orientações do flanelinha ao dar marcha a ré” (sic).

Fui flagrada por curiosa sensação de alívio: “Que bom, não estou sozinha. A delegada foi adiante e a instituição pública está exercendo seu papel de me proteger.”

Não apenas um conceito, a Justiça é fome, é necessidade.  Não quero a Justiça como vingança.  Preciso mais do que noções de ‘prêmio e castigo’.  Preciso saber que não estou sozinha, não estou excluída, e que tal e tal situação merecem tratamento justo e proporcional.

Preciso de Justiça porque preciso de limites, referências e absolutos para a mente e o coração.  Não quero o abandono da sorte.

À véspera do Dia da Independência e sem nenhum triunfalismo, quero humildemente celebrar cada pequena manifestação de Justiça que possa ser constatada.  Em nossas casas, em nosso ambiente de trabalho, em nossa rua.  Entre os pequenos e os grandes.  Na minha cidade.  Nesse país.

fonte: Timilique!

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