Buracos trocados

Fausto Salvadori Filho
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O dia 27 de maio de 2006 era para ter sido perfeito: Maria Poliana Tavares de Lima entraria na igreja com seu vestido de noiva azul-turquesa, feito à imagem e semelhança de um longo usado por Celine Dion num clip com os Bee Gees. Mas seu dia da noiva durou 40 min. Acabou interrompido por um telefonema do noivo, Marcos Alexandre de Azevedo: horas antes de entrar na igreja, o casal precisava resolver problemas de última hora. Afinal, manter de pé uma das principais produtoras pornôs do Brasil não era moleza.

No estúdio de 2.000 m2 que mantinham na garagem de um prédio residencial no Cambuci, região central de São Paulo, Marcos e Poliana se dividiram. Ele foi resolver pepinos de contratos com distribuidores norte-americanos que compravam seus filmes, e Poliana tratava de resolver o impasse de uma gravação que se arrastava havia horas. Era uma “black bi”, cena de sexo bissexual entre dois homens negros e uma garota, parada porque a ferramenta de trabalho do ator encarregado da parte ativa da ação se recusava a colaborar. A noiva achou a solução na hora: “Se você não pode comer, vai ter que dar”. O ator ainda iniciou uma reação, dizendo que nunca havia feito nada parecido, mas logo viu que não havia argumentos contra a fúria dos olhos verdes de Poliana. Luz, câmera, ação: lá se foi o ator, sem reclamar, fazer sua primeira cena como passivo.

Poliana chegou correndo à igreja em Embu, com o cabelo ainda molhado e levando na mão o aplique do seu look Celine Dion. No fim da cerimônia, Marcos e Poliana, que já viviam juntos por 17 anos, se separaram. É que os clientes gringos do casal cobravam novas cenas – para ontem. Assim, enquanto Poliana embarcou sozinha para o Recife, Marcos teve de ficar mais dois dias tocando filmagens do estúdio antes de encontrá-la em Pernambuco.

QUASE FREIRA

Corta para 2008. O casal fecha o estúdio e se muda para São José dos Campos, terra da família de Marcos e população 20 vezes menor do que a de São Paulo. Acostumada a beber em casas noturnas até de manhã, Poliana caiu no choro quando saíram pela primeira vez e viram as ruas desertas às 2h. “Não quero ficar aqui!”, gritava. Nos quatro primeiros meses, passou os dias deitada na cama, deprimida, recebendo café da manhã, almoço e jantar das mãos do marido.

Voltar à antiga vida, contudo, era impossível: estavam quebrados. O mercado da carne já não garantia o pão de ninguém. Vítima da pirataria e da sacanagem gratuita na internet, a indústria pornô havia brochado. Se em 2002 os filmes movimentaram R$ 450 milhões no Brasil, em 2007 o mercado foi de R$ 300 milhões e, ano passado, não chegou a R$ 100 milhões, segundo Evaldo Shiroma, organizador da Erótika Fair. Mesmo quem trabalhava só para o público americano, como o casal, viu-se em maus lençóis com a queda do dólar e a ascensão da Tailândia como novo player no mercado do sexo explícito, especialmente no ramo dos travestis, em que até então o Brasil brilhava como estrela solitária.

“O pornô acabou”, reconhece Marcos, que começara atuando em peças e filmes de sexo como ator e dublê (entrava em ação quando um ator “falhava”). Sua estreia ocorreu quatro dias após completar 18 anos, em outubro de 1988, em Belo Horizonte, em uma peça erótica dirigida por seu cunhado, o diretor Mário Lima. Na época, com os cinemas da boca do lixo perdendo público, alguns cineastas montaram peças de sexo explícito e se meteram em excursões teatrais Brasil adentro. Marcos fazia parte de uma dessas turnês, que passava por Recife. Ali, conheceu uma paulistana de 14 anos.

Na época Poliana era estudante de colégio interno e sonhava ser freira. Um dia beijou um seminarista na boca e se desesperou. “Foi só um selinho bobo, mas eu não tinha porra nenhuma na cabeça e achei que tinha ficado grávida.” Resolveu então fugir do colégio e acabou parando na praia, onde virou intérprete, usando o que sabia de inglês para ajudar um barraqueiro a vender peixe e cerveja aos turistas estrangeiros. Quando conheceu Marcos, se encantou com o jeito tímido e sotaque interiorano do rapaz, marcas que ele mantém até hoje. Mentiu a idade e começaram a namorar.

Marcos e Poliana iniciaram a produção para o mercado americano em 2000. Dois anos depois, alugaram a garagem no Cambuci, onde durante seis anos filmaram sacanagem em ritmo industrial: 12 cenas por dia, o que rendia de dois a três filmes diários. As produções eram distribuídas nos EUA pela Robert Hill, empresa especializada em pornô bizarro, que tem o slogan “Bem-vindo ao lado mais negro do pornô”.

HERMAFRODITAS, VOVÓS E ANÕES

A Robert Hill exigia cenas com tudo que parecesse estranho, diferente ou anormal. No estúdio de Marcos e Poliana, travestis dividiam espaço com anões, grávidas, hermafroditas, gordas de 150 kg, amputados, vovós-prostitutas do parque da Luz… Gente como Erick Bell, selecionado em meio aos cadeirantes que vendiam canetas num semáforo da Barra Funda, que ficou surpreso ao saber que seria pago para transar com mulheres bonitas. “Vi o cara no semáforo e pensei: ‘Ele não tem os dois pés, que lindo!'”, lembra Poliana. Gente como Alexandre, casado e pai de dois filhos, que, mesmo se gabando de suas habilidades como ator passivo nas cenas de dupla penetração anal, dizia-se heterossexual convicto. Gente como Suzanna, o travesti com 28 cm de “dote”, um olho de vidro e uma cicatriz de ácido numa das faces.

“Travestis dividiam espaço com anões, gordas de 150 Kg, amputados e vovós-prostitutas”
Cabia à Poliana se relacionar com o elenco do estúdio, enquanto Marcos cuidava de tarefas burocráticas como conferir contratos, checar imagens e tratar fotos. Mais próxima dos atores, Poliana era uma chefe impiedosa. “O Marcos era muito bonzinho. Com ele, o ator recebia pela cena mesmo que brochasse”, relembra Poliana, que instaurou outra regra: quem não funcionasse como ativo só receberia se aceitasse ser passivo. “Ator, para mim, tem que dar a bunda.” Tratava com a mesma dureza as mulheres, mas era compreensiva com os travestis. “As pessoas têm de ter paciência com as ‘meninas’, entender que elas querem ser femininas e por isso não é fácil bancar a ativa diante da câmera.”

CRIANÇAS E FORQUILHAS

O dinheiro entrava rápido, mas era consumido logo. Marcos e Poliana começavam a gravar umas 14h e invadiam a madrugada filmando. Gravações concluídas, iam curtir em bares ou boates GLS da região central. Comiam sempre fora, quando e onde dava; encarar uma feijoada às 4h no bar do Estadão, centro da boemia paulistana, era comum. Para refrescar a cabeça das sacanagens diárias, encerravam a madrugada vendo desenhos animados infantis na TV.

“Hoje cozinho todos os dias. Sei fazer todo tipo de comida”, orgulha-se Poliana, enquanto prepara arroz com purê de batatas e costela assada no sobrado de São José dos Campos onde passou a viver desde que o casal abandonou a pornografia. Usa um vestido frente única longo coberto por estampas de flores e está sempre produzida: todo dia gasta horas entre o banho e a secagem do cabelo louro, que mantém domado com uma escova progressiva trimestral.

De polo branca e calça jeans, Marcos entra na cozinha e anuncia que vai sair com a caminhonete – uma Silverado ano 2000 que já viu dias melhores, e cujas prestações ainda está pagando. “Vida, aproveita e leva uns cascos para comprar umas Coca-Colas no seu Durval”, pede Poliana, referindo-se à venda onde têm crédito.

O novo trabalho rende muito menos do que a antiga vida: cada perfuração custa R$ 7 mil e o fluxo é incerto, passam semanas sem um pedido. “Vivemos hoje com um décimo do que ganhávamos no tempo do pornô.” Mesmo assim, ambos dizem que hoje são mais felizes com menos.
Marcos é capaz de discorrer durante horas sobre máquinas de perfuração, forquilhas que detectam lençóis freáticos, aquíferos, bombas acopladas, rochas porosas, um mundo para ele muito mais fascinante do que o da pornografia. “Eu sentia que naquele ritmo a gente iria durar até os 65. Aqui vamos viver muito mais”, diz Poliana. E faz planos de um novo casamento, agora no civil. E, desta vez, vai gastar todo o tempo do mundo para garantir uma cerimônia perfeita.

fonte: Trip
fotos: Luiz Maximiano

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