Um olhar boiola sobre os discípulos masculinos de Marcos

O artigo, chamado “Discipulado Elegante: Um Olhar Boiola Sobre os Discípulos Masculinos de Marcos” está no Journal of Men, Masculinities and Spirituality. Robert J. Myles começa dizendo que nós nunca chegamos à Bíblia cegos: nós sempre trazemos conosco toda a bagagem de nossas expectativas, crenças, cultura, etc. Nossa leitura da Bíblia fala tanto sobre nós quanto sobre o texto. Então se quisermos achar coisas na Bíblia que desafiam nossas expectativas ao invés de só dizer o que já achamos que sabemos, às vezes precisamos buscá-las deliberadamente.
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Se quisermos desafiar nossas ideias sobre sexualidade e gênero, nós precisamos ‘aviadar’ deliberadamente o texto bíblico, o que significa buscar maneiras de lê-lo que não se encaixam muito bem nas nossas ideias de homem, mulher, viadagem e hétero. Portanto, nesse artigo Myles apresenta uma série de releituras boiolas de seções do evangelho de Marcos que falam dos discípulos de Jesus.
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Pescando Homens (Marcos 1.16-20)
Myles reescreve o texto desta forma: Ao passear pela beira do lago da Galileia, Jesus começou seu ministério buscando alguns homens aparentemente ligados para entrar no seu grupo de admiradores masculinos. Viu Simão e o seu irmão André pescando em seu barco, e assim que Jesus convidou-os a acompanhá-lo na sua missão de pescar mais homens, eles largaram as suas redes e se juntaram a ele. Logo depois, Jesus descobriu Tiago e João no barco de seu pai consertando as redes. Aliciando-os, eles imediatamente deixaram seu pai e seu trabalho para fugir com o Jesus sedutor.
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Os discípulos deixam os seus trabalhos. Nossos trabalhos tendem a refletir nossos papéis na sociedade e em nossas famílias, sem falar de nossos papéis como homens e mulheres. Seguir a Jesus – assim parecia –  desafia os papéis sociais e os relacionamentos em que estamos emaranhados. Como sociedade, tendemos a restringir amizades masculinas a espaços particulares: tudo bem homens se encontrarem em bares, em eventos esportivos, em barcos de pesca; contudo, nos assustamos um pouco com a ideia de homens só gastando tempo juntos, falando sobre coisas profundas e significativas. Não é um pouquinho… gay? Mas e se seguir a Jesus significar gastar tempo com outras pessoas de formas que não são socialmente aceitáveis? E se devêssemos aceitar o fato de alguns tipos de relacionamentos com outras pessoas que Deus nos chama serem exatamente isso: um pouco gay?
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.Quem é o maior? Medindo masculinidade (9:33-37)
Quando chegaram a Cafarnaum, Jesus perguntou aos seus admiradores: “o que é que vocês estavam discutindo no caminho?” Houve um silêncio vergonhoso, porque eles tinham se comparado para saber quem era o maior. Jesus sentou-se, chamou seus discípulos e lhes disse: “Aquele que me admirar mais terá menos, pois na verdade lhes digo: tamanho não importa; é o que você faz com ele que importa”. Segurando uma criança na sua mão, ele lhes disse: “Aquele que estiver aberto a uma criança como essa também está aberto a mim, e quem estiver aberto a mim está aberto àquele que me enviou”.
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A cultura Greco-Romana costumava ter uma visão competitiva de masculinidade: em quanto mais pessoas você consegue bater, mais homem você é. Parece que Jesus está desafiando isso mas, ao mesmo tempo, ele parece estar reorganizando as regras da competição: não é com isso que liderança se parece, com isso – a liderança de Jesus – é o que liderança parece. Se a masculinidade ainda tem a ver com quem ganha a competição de mais-parecido-com-um-líder, então Jesus não está apenas tentando ganhar a competição, mesmo se estiver fazendo de uma forma incomum?

O beijo de língua de Judas e a fuga do exibicionista pelado (14:43-52)
Imediatamente, Judas, um dos doze, chegou. E com ele tinha uma multidão de homens com algemas e chicotes querendo prender Jesus. O traidor tinha dito: “O homem que eu beijar é o líder; prendam-no e levem-no”. Quando Judas chegou perto de Jesus, disse “Mestre”, e colou seus lábios junto aos dele. Então, eles pegaram Jesus e o prenderam. Depois de uma luta inicial seus admiradores abandonaram-no e fugiram. Logo depois, um prostituto vestindo nada além de um pedaço de pano estava admirando Jesus. Como alguns da multidão tentaram pegá-lo, contudo, ele o deixou cair e fugiu pelado.

Por que, diz Myles, assumimos que o beijo de Judas é puramente platônico? Se fosse Maria Madalena beijando Jesus,  haveria muito mais amassos e piscadas (e os Dan Brownianos estariam fazendo uma farra). Não apenas isso, mas quem é o menino pelado? O fato de sua nudez ser mencionada sugere a Myles que ele possa ser um prostituto (por que iria Jesus andar apenas com prostitutas mulheres?)

Conclusão
Se pensamos que não há meia-vozes na Bíblia, talvez seja porque  não estamos olhando bem. Talvez ler a Bíblia com mentes mais sujas abra níveis completamente novos de sentido e desafios completamente diferentes às nossas ideias sobre sexualidade, gênero e masculinidade. Isto é especialmente importante com o evangelho de Marcos, que é frequentemente usado para tirar ideias sobre o que significa seguir Jesus. Por que caberia a Mark Driscoll decidir o que é masculinidade bíblica? Se Myles estiver certo, precisamos de toda uma nova geração de estudantes da bíblia com um olho em insinuações. Alguém se sente chamado?

Fonte: Theologies: Theology for normal people

Tradução: Gustavo K-fé

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