Do voto em Marina ao abraço em Heloísa

Robinson Cavalcanti

Comecei o meu dia de eleições em Olinda (PE), onde votei no Colégio Imaculado, pela primeira vez em uma “sopra de letras”, em candidatos de diversos partidos do campo progressista, quando os partidos foram “escondidos” ou “esquecidos” como nunca, e as coligações de todos com todos, atestam o grave momento de disfuncionalidade do nosso sistema político. O grande índice de abstenções, votos brancos e votos nulos, de há tempo enviam um recado não escutado. O voto dito “de protesto” nos Tiriricas da vida também envia recados de insatisfação e rejeição não escutados.

Depois do almoço sigo para Maceió, onde pretendo descansar uns dias em Paripueira antes da cansativa, porém importante viagem para a África do Sul na semana que vem, e o desgaste físico inevitável em Congresso (Lausanne III) com 4.000 participantes. Entro em uma loja de conveniências para fazer algumas compras, e encontro Heloísa Helena, visivelmente cansada diante do que chamou “essa máquina de moer gente”. Ela liderou as pesquisas por muitas semanas, e aí entrou o presidente Lula para apoiar alguém ligado ao governador Téo Vilela (PSDB), com o objetivo de varrer do Senado vozes críticas, independentes e incômodas, tanto a direita quanto a esquerda (onde Heloísa foi quase uma guerreira solitária). Com um abraço, empresto minha solidariedade, e ela se refere com satisfação ao telefonema de apoio recebido de Marina.

Começam as apurações, com suas surpresas. Cada vez mais as pesquisas vão tendo a sua credibilidade questionada, diante de tantas contradições entre os seus índices e o que sai das urnas. Algumas coisas são rotina: “puxadores” de votos, populares, vão levando “na garupa” um monte de gente sem voto; pessoas com excelente votação vão “perdendo” porque os seus partidos/coligações não atingiram o coeficiente. Todo mundo tomando susto com as fotos dos suplentes de senador na telinha da urna eletrônica. Discretos esses “eleitos” sem voto. Vai-se patenteando o contraste entre o moderno formal das urnas eletrônicas e da Justiça Eleitoral e o atraso político compreensível de um povo com uma história de exclusão ou paternalismo, desinformados ou manipulados por uma imprensa que é um cartel ideológico.

Segundo turno no País e em muitos Estados onde não era esperado; decisões no primeiro turno em Estados onde se esperava um segundo. A votação de quase meio milhão de votos tanto de Garotinho (RJ), quanto Maluf (SP) demonstra que não se pode tripudiar sobre quem ainda está vivo. Algumas figuras históricas (tipo Marco Maciel) são enviadas pelo eleitor ao repouso. O quase um milhão de votos de Plínio de Arruda Sampaio(PSOL), idoso, alvo de gozação pela “grande imprensa”, indica que ainda temos uma parcela de eleitores de esquerda no Brasil. E o grande fato novo foi a votação da Marina, que mais do que duplicou em uma semana, malgrado a sua fragilidade partidária, e lhe qualifica como uma nova atora no cenário político, e de quem se espera protagonizar um papel de aglutinadora de forças sociais insatisfeitas com a polarização superficial de PT vs.PSDB.

Parece que os candidatos e partidos estão, lentamente, descobrindo que o Estado Laico se assenta sobre uma Nação Religiosa, e que devem superar o ranço positivista/marxista de desvalorizar a variável religiosa, e que, para muita gente, valores contam.

Dilma vai ter que cerrar o salto alto do sapato; e o Serra tentar superar a sua identificação com a cheirosa paulisteia deslumbrada. Como diriam os antigos militantes: “A luta continua, companheiros”. Em eleições de dois turnos, a gente vota nos nossos candidatos no primeiro turno, e, por exclusão entre os menos distantes dos nossos ideais, escolhe no segundo turno, o menos mal. Creio que o Partido Verde até pode se manifestar por um dos lados, mas a candidatura de Marina é muito maior do que o PV, e que seria sábio e prudente da parte dela, reafirmando o seu ideário, liberar os seus eleitores para que escolham agora segundo as suas consciências, participemos permanentemente do processo político seja quem seja o eleito, e nos preparemos para novos capítulos da nossa vida republicana.

Oremos e laboremos!

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Do voto em Marina ao abraço em Heloísa

Deixe o seu comentário