Lula, o Corcovado e a Redenção do Brasil

Caio Blinder
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Foram semanas desanimadoras para o nosso Cristo Redentor. Ele tinha motivos para manter os braços abertos de forma desconsoladora. Imagine, quanta presunção. Vá la, ele é um importante e histórico presidente brasileiro, mas como alçar Luiz Inácio Lula da Silva lá para cima, no Corcovado?  Na semana passada, um ilustrador do, em geral pouco deslumbrado,  Financial Times, tacou ou tascou um Lula de Cristo Redentor.

Pelo menos naquela capa antológica da revista The Economist, em novembro de 2009, era o Brasil, na figura do Cristo Redentor, que decolava no rabo do foguete. Atente que eu menciono surtos de canonização (para não dizer coisa ainda mais santa) do Brasil-Lula, aqui do lado de fora. Você aí julga como é dentro de casa. Em situações menos eufóricas, Lula dias atrás era comparado apenas a Nelson Mandela (este sim um santo laico merecido).
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Mas o espanhol El Pais não resistiu, misturou tudo e uma análise carregou com o título Mandela no Corcovado. É verdade que mais estapafúrdia foi a comparação que Lula fez de Dilma Rousseff com Mandela. E existem as comparações do tipo renúncia-ao-poder entre o sul-africano e o brasileiro. No caso de Mandela, porém, foi um gesto de estadista e fim de papo. No caso de Lula, foram cálculos políticos mais complicados. Melhor compará-lo com gente das vizinhanças e não com um dos gigantes do século XX.

O venezuelano Hugo Chávez vai adiante enquanto o colombiano Álvaro Uribe não teve espaço. Fatores que incluem, por exemplo, o grau de resistência da sociedade civil, a complicação de alterar as regras do jogo, a possibilidade de retorno em outras circunstâncias e, eu creio também, o espírito democrático pesaram na decisão de Lula de se esquivar do terceiro mandato. Chega de redenção.

De qualquer forma, são momentos de um pouco de sossego no Corcovado. A beatificação-bestificação atingiu o pico quando Lula parecia pronto para entronizar Dilma Rousseff no primeiro turno das eleicões. Na volatilidade-futilidade da imprensa, o mundo esta semana está mais extasiado com Marina Silva. Não me queixo. A “virada surpreendente” (expressão do próprio Financial Times) no primeiro turno colocou o Brasil no seu bom e devido lugar. Mostrou um país menos anestesiado (expressão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) em que a dinâmica política dá uma rasteira nos incautos. O mesmo FHC na entrevista que deu ao Financial Times em setembro lamentou a mistificação de Lula.
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Imagine, o Wall Street Journal, no seu papel de remover incertezas para a comunidade financeira global, empossou Dilma Rousseff em um detalhado perfil na primeira página da sexta-feira passada com o título Ex-Guerrilheira à Beira do Poder. Ali havia bom jornalismo, apresentando a provável futura presidente brasileira para o mundo, mas com precipitação.
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A idéia era esclarecer dúvidas sobre a postura da ex-guerrilheira. Basicamente, o tom era tranquilizador, ou seja, de que não vinha aí um novo Hugo Chávez no país do Corcovado. Essencialmente, Lula sem carisma e menos folclore. Num trecho ilustrativo, o Wall Street Journal enfatizou o “retrato de uma talentosa e às vezes implacável tecnocrata que também se provou suficientemente flexível e ambiciosa para subir no governo”. O chamado ao poder e não às armas.
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Agora, o meu chamado. Pelo amor de Deus, chega de comparações de Lula com o Cristo Redentor ou Nelson Mandela. De resto, apesar de tudo, alguns de votos de louvor ao Brasil. Já que estamos no Bric, vamos fazer as comparações com as outras letrinhas. Naquele material do Financial Times com o Lula de Cristo Redentor, Gideon Rachman, o colunista-chefe de assuntos internacionais, escreveu que o Brasil “é menos assustador que a China, menos autoritário que a Rússia e menos caótico que a Ïndia”.
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Algo para aplaudir lá do alto do Corcovado,  um bom começo de redenção. Mas, Jobim, tudo isto com muita calma pra pensar e ter MENOS tempo pra sonhar e mistificar.
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fonte: Veja
foto: Wilton Júnior/ AE

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