O inferno pode ser aqui

Jean Wyllys

Há dois dias, eu participei de um debate no Colégio Dom Pedro II (Rio de Janeiro) com um pastor evangélico neopentecostal candidato a deputado federal. Em pauta, a importância da educação sexual leiga, livre de paixões religiosas, em escolas públicas de ensinos fundamental e médio.

As falas do tal pastor – todas contrárias a qualquer programa de educação sexual leiga em escolas públicas e especialmente intolerantes em relação à homossexualidade – bem como a acrítica recepção das mesmas pelos alunos evangélicos presentes (que, embora fossem minoria, faziam-se notar pelo fervor com que recebiam as palavras do pastor) me levaram a uma  conclusão.

Eis uma situação paradoxal: por um lado, a comunidade dos crentes cresce na mesma proporção em que se afasta ou se esquece da política (para só se “lembrar” dela na hora do voto), ou seja, é cada vez maior o número de pessoas que trocam o interesse e/ou a luta por justiça e felicidade aqui na cidade dos homens pela crença e interesse apenas na justiça divina e numa vida boa na cidade de Deus, no “paraíso” depois do “juízo final”; por outro lado (e eis o paradoxo!), crescem as bancadas de políticos cristãos evangélicos nas câmaras de vereadores, assembléias legislativas e no Congresso Nacional: o rebanho de crentes deve se esquecer da política (e só se “lembrar” dela de eleição em eleição) para que seus pastores consigam colonizar o Poder Legislativo e, assim, atuem contra os princípios democráticos e as liberdades constitucionais e em favor da aplicação de preceitos cristão numa sociedade tão diversa étnica e religiosamente quanto a nossa.

Lembrem-se, por exemplo, dos esforços dos evangélicos Rosinha Matheus e Garotinho em liquidar os princípios republicanos e o laicismo que, até eles se tornarem governadores do Rio de Janeiro, norteavam a educação pública fluminense, impondo, à grade escolar, o ensino do “criacionismo”, cujo objetivo é descartar a tese da evolução das espécies de Darwin, consenso na comunidade científica, em nome do mito judaico-cristão de que Deus criou a terra e todo o resto há pouco mais de seis mil anos.

Durante o debate com o pastor evangélico e candidato a deputado federal a que me referi, o mesmo fez tabua rasa de todo conhecimento que a ciência moderna vem nos legando ao longo de sua existência para reafirmar, como verdades absolutas, os mitos bíblicos, que, à luz da razão ou até mesmo da sensatez de cristão instruído, não devem jamais ser tomados ao pé da letra, apenas interpretados, já que não passam de figuras literárias que encerram alguma “filosofia de vida” em suas entrelinhas.

A conclusão a que cheguei não é estapafúrdia. Para reconhecer que estou certo, basta recuperar os resultados das últimas eleições: foram os candidatos extremistas religiosos, fundamentalistas, populistas e quase sempre ligados às igrejas neopentecostais que se multiplicam em “franquias” pelas periferias e áreas pobres das cidades, como se fossem McDonald’s, que conseguiram se eleger, derrotando candidatos honestos comprometidos com valores humanistas e envolvidos com os movimentos negro, feminista, LGBT e ambiental.

O compromisso de não contemplar nenhuma reivindicação dos movimentos feministas e LGBT, firmado pelos candidatos à presidência José Serra, Marina Silva e Dilma Rousseff com líderes evangélicos brasileiros em troca de seus apoios, é outra prova de que minha conclusão é acertada. Se as bancadas de evangélicos fundamentalistas crescerem após as eleições de outubro próximo, temo pelo destino de nossa jovem democracia.

Não se trata de antipatia em relação a crentes (eu tenho bons amigos evangélicos!) nem de negar, à comunidade dos crentes, o direito à representação. Se os representantes evangélicos reconhecessem que um Estado Democrático de Direitos deve estar livre de quaisquer paixões religiosas e atuassem em defesa das liberdades constitucionais e dos direitos humanos, reservando, para a esfera privada, as questões de fé e crença religiosa (uns poucos até agem dessa forma, é preciso que se reconheça isto!) , o crescimento das bancadas evangélicas não seriam um problema para a democracia e para suas minorias; estaríamos num “paraíso”.

Porém, a história vem mostrando que não é assim que eles, os representantes da comunidade de crentes, agem politicamente. Logo, só podemos esperar, deles, uma condenação dos “infiéis” a um “inferno” em terra.

fonte: Blog do Jean Wyllys
dica do Fabio Pereira

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