O Facebook está matando a nossa alma?

Shane Hipps

Sendo alguém que escreve sobre como a tecnologia molda nossa vida, tenho vergonha de admitir que acabei no Facebook por acidente. Recebi um e-mail de um conhecido pedindo que nos tornássemos “amigos”. Para ser educado, disse que sim. Cliquei em alguns botões e concordei com algumas coisas, sem prestar muita atenção. Nos três dias seguintes, minha caixa de entrada foi inundada com notificações de e-mail de um grande número de amigos da vida real que agora também eram, aparentemente, meus amigos virtuais. Eles estavam emocionados. Parabenizaram-me por entrar no Facebook – uma conquista que não considero digna de louvor. Eu também estava um pouco envergonhado. Não apenas pela maneira como o Facebook pode ser invasivo, mas também pelo entusiasmo dessas pessoas. O que havia de errado com elas?

Admito que achei algumas coisas interessantes. Há uma certa emoção em olhar fotos de antigos amigos de escola sem eles saberem. É como ser uma mosca na parede de uma reunião de colegas de escola. Imediatamente encontrei amigos que julgava perdidos. Pessoas que nunca pensei em procurar, mas gostaria de saber o que estavam fazendo. De repente, eu não estava apenas sabendo das novidades em suas vidas, a todo momento era apresentado a suas inquietações e pensamentos, na forma de atualizações do seu mural. Que alegria simples.

Há momentos em que me senti um pouco como um voyeur. No entanto, não era voyeurismo. No voyeurismo as pessoas que observamos não querem ser vistas. Voyeurismo é o que acontece quando você vê algo na vida das pessoas que elas não pretendiam que fossem vistas. As pessoas com quem eu estava conectado queriam que eu visse tudo o que faziam. Eles queriam que eu soubesse o que estão comendo, vestindo, sentindo e pensando a cada momento. São verdadeiros exibicionistas. Logo, enquanto existe um pouco de voyeurismo, há também uma grande quantidade de exibicionismo no Facebook e em outras redes sociais similares.

Esse exibicionismo tem um efeito incomum em nós. Não apenas queremos que os outros nos vejam, também gostamos de ver a nós mesmos. Somos capazes de fiscalizar e mudar o que os outros estão vendo sobre nós. Tornamo-nos fascinados pela imagem que projetamos. É como ter um espelho na mesa ou no bolso. De vez em quando você o usa para contemplar sua própria imagem. Talvez apenas para arrumar o cabelo ou encontrar a melhor posição da cabeça para suavizar a papada. Este tipo de auto-inspeção regular, eventualmente, dá origem a um narcisismo sutil.

O narcisismo criado por estas tecnologias é algo singular. Não apenas incentiva a fixação consigo mesmo. Ele vai mais além, gerando um tipo de auto-consumo. Tornamo-nos criadores e consumidores da nossa própria marca. Ficamos apaixonados por um tipo particular de ser, um “pseudo-eu”. Uma auto-imagem controlada da mesma maneira como as marcas das empresas são controladas. De forma completa, com fotos, vídeos, músicas e, acima de tudo, a contabilidade do nosso número de amigos, que tipo de amigos e o tipo de relações que temos. Incessantemente aperfeiçoamos, criamos e consumimos uma projeção digital, a qual desejamos que os outros vejam. Contudo, raramente somos quem projetamos ser. Esta imagem se aproxima da realidade, mas não é a realidade.

Estas imagens do “eu”, grandemente editadas e cuidadosamente controladas facilmente escondem certos aspectos de nossa vida que não desejamos que os outros vejam. Isto não é novo, claro. Em qualquer situação social tentamos manipular a impressão que deixamos. O problema é que, em contextos sociais reais, há limites para o que podemos esconder. Em algum momento as pessoas acabam nos conhecendo. Elas tem uma noção de quem realmente somos. Sendo assim, amizades verdadeiras podem funcionar como uma espécie de “espelho saudável”. São um espelho honesto, que ama mas não bajula. O Facebook parece mais com um espelho que distorce a imagem. Parecemos baixinhos e atarracados? Sem problema, basta se afastar do espelho e pronto! Você se torna quem gostaria de ser.

Depois de algum tempo, este efeito sutil cria uma divisão interna em nós. A cisão entre o que somos e o que pensamos ser. Essa pequena fratura pode parecer algo insignificante, mas se não percebermos que ela existe, poderá nos afastar de uma vida de plenitude e de integração.

Crescimento raquítico

O narcisismo é um vício bastante requintado. É muito difícil de detectá-lo em nós mesmos. Algo difícil de identificar é difícil ser dissolvido. Porém, o problema real é como isso afeta nossos relacionamentos. Estudos indicam que narcisistas têm dificuldades de desenvolver relacionamentos significativos, tendem a ser materialistas e envolverem-se mais com infidelidade, abuso de substâncias e violência.

Sendo assim, enquanto o Facebook e outras mídias sociais nos conectam a relacionamentos mais digitais, ao mesmo tempo deterioram nossa capacidade de manter relacionamentos saudáveis na vida real. Nossas tecnologias sociais cada vez mais servem como um obstáculo para esse processo em pessoas jovens. Quando certos tipos de mídia sociais são introduzidos precocemente na vida dos adolescentes, podem, sem perceber, prejudicar questões cruciais de desenvolvimento de relacionamentos saudáveis na vida adulta.

O Facebook é a receita perfeita: um meio de comunicação que volta grande parte de nossa atenção para nós mesmos, enquanto parece concentrar nossa atenção no relacionamento com os outros. É um espelho que mais parece uma janela. Só porque este “probleminha” no desenvolvimento é mais grave entre os adolescentes não significa que os adultos estejam imunes ao efeito narcótico das mídias sociais. É verdade que a maioria dos adultos já firmaram as estruturas básicas do ego, mas a psique humana não é algo estático, continua bastante maleável ao longo da vida. Como resultado, o desenvolvimento humano nunca acaba e a regressão é algo sempre possível.

Se persistirmos em consumir essa, ou qualquer outra tecnologia, de maneira inconsciente, seremos formados de uma maneira que não desejamos. Preciso  ser claro sobre isso. O problema não está em usar a tecnologia, mas usá-la sem estar totalmente consciente.

Como, então, tornamo-nos conscientes? Uma das formas mais poderosas é praticar um jejum de tecnologia. Não abra sua página no Facebook por uma semana e veja o que percebe sobre si mesmo. Do que você sente falta? O que você ganha? Se nada acontecer em uma semana, tente fazer o mesmo durante duas. A questão não é o tempo – é a distância. Encontrar maneiras de distanciar-se o suficiente para perceber. Você colherá os benefícios.

Acorde

Depois de tudo o que disse, deve ser tentador concluir simplesmente que sou um reacionário, alguém com medo da tecnologia que deseja acabar com todas as redes digitais. Não é nada disso. Evidentemente, não sou imparcial em minhas observações. No entanto, anunciar as virtudes de nossa tecnologia é algo redundante. Seria como tentar defender a importância da respiração. É algo real, e sua importância é evidente. Por isso as tecnologias já são predominantes: conhecemos automaticamente os seus benefícios, caso contrário não as utilizaríamos. Minha preocupação é que nossa cultura parece ser capaz apenas de ver os benefícios, mas ignora totalmente os problemas e as perdas inevitáveis que as tecnologias podem gerar. Não tenho nenhum interesse em tentar acabar ou interromper as inovações tecnológicas. Fazer isso é como tentar resistir ao vento e às marés. Meu desejo é apenas entendê-las com profundidade. Não aceitar tudo ingenuamente, nem rejeitar tudo com temor.

Se conseguirmos acordar e perceber isso a tempo, talvez sejamos capazes de usá-las ao invés de ser usados por elas.

Para uma visão mais positiva da relação redes sociais e espiritualidade leia ESTE artigo, escrito em resposta aos argumento de Shanne Hipps

Shane Hipps é pastor da igreja Mars Hill, autor de Flickering PixelsHow Technology Shapes Your Faith (inédito no Brasil). É uma versão resumida do artigo publicado pela revista Relevant (AQUI)

Tradução e edição: Jarbas Aragão. Todos os direitos de tradução reservados.

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