O Hitchens ateu X o Hitchens cristão

Os irmãos Christopher e Peter Hitchens conversam publicamente sobre Deus, a morte, e a fé

Isso aconteceu durante um evento promovido pelo Fórum Pew de Religião e Vida Pública. Tratava-se de uma conversa entre os irmãos e a imprensa. Não era um debate onde se podia esperar um vencedor.

Christopher Hitchens parou um pouco em meio às consultas médicas para o tratamento do câncer de esôfago que ameaça sua vida e sentou-se para uma conversa sobre Deus com seu irmão, Peter. (conforme o vídeo acima)

Christopher, um ateu famoso, lançou recentemente seu livro de memórias Hitch-22 este ano. Já Peter, menos conhecido, também lançou este ano um livro de memórias: The Rage Against God: How Atheism Led Me to Faith [A fúria contra Deus: Como o ateísmo conduziu-me à fé]. Apesar de terem grandes divergências no que se refere a Deus, os dois parecem viver uma relação afetuosa. Michael Cromartie, vice-presidente do Centro de Ética e Políticas Públicas serviu como moderador. Ele iniciou lendo uma passagem do livro de Peter sobre a reconciliação dos irmãos depois de um debate em Grand Rapids, Michigan. Christopher aplaudiu embaixo da mesa.

A partir daí, os irmãos ficaram em uma sala com 25 jornalistas durante o Fórum. Michael Gerson, um dos redatores de discursos do presidente George W. Bush (que fundou o “Escritório de fé” da Casa Branca), sentou-se do outro lado da sala enquanto Christopher dizia: “Aqueles que pensam que “fé ” é o prefixo de algo positivo terão muitas discussões em seu caminho.”

Os irmãos Hitchens, Christopher (o ateu) à esquerda e Peter ( o cristão) à direita.

Careca, e agora mais magro do que antes do tratamento, Christopher continua mentalmente ágil como sempre, usando seus argumentos e apartes secos. Ele me confessou mais tarde que não se cansa dessas conversas: “É um grande tema.” Mas ele parecia cansado de responder as perguntas sobre as pessoas que afirmavam estar orando por ele e se a experiência estremeceu seu ateísmo. Quando a repórter Barbara Bradley Hagerty perguntou sobre isso, ele respondeu: “Bem, você tem a palavra e continua insistindo, apesar da minha relutância.” “Eu lamento…. a idéia das pessoas que, de alguma maneira espera-se que, agora [que estou com câncer] eu possa estar apavorado, infeliz ou deprimido, e que certamente esse seria um bom momento para abandonar os princípios de toda uma vida “, continuou ele. “Já pensei muito sobre isso, obrigado mesmo assim.”

Peter concordou: “Acho que seria bem grotesco imaginar que alguém precisa ter câncer para poder enxergar o mérito da religião. É uma idéia absurda. “

“Costumava-se usar uma palavra sem nenhuma ironia”, argumentou Christopher. “Quando usavam a palavra cristandade, as pessoas sabiam o que isso significava. Havia um mundo cristão. Parcialmente evoluiu, em parte abriu caminho pela espada, em parte foi defendido pela espada, às vezes ganhando novas formas e também crescendo. Era um termo significativo para a comunidade de fé e valores que durou por muitos e muitos séculos. Carregou muito esplendor em seu nome, mas agora está tudo acabado. ”

Christopher afirma que hoje, em “grande parte do que poderíamos chamar de mundo industrializado moderno, dezenas de milhões de pessoas vivem em uma sociedade pós-religiosa. É difícil argumentar que eles levam uma vida visivelmente menos civilizadas do que as gerações de seus antepassados. ”

Ele acrescentou: “Eu não acho que seja realmente verdade que vivemos uma vida menos civilizados que nossos antepassados, os quais acreditavam na existência de uma autoridade religiosa genuína que falava com autoridade.”

Para reforçar seu argumento, acrescentou exemplos de sua própria vida de relacionamentos com pessoas de fé. “Se você vai até clubes e teatros, como eu faço, sempre que posso, e começar a falar sobre a crença com os fiéis, o que você vai encontrar na esmagadora maioria das vezes é uma ética humanista com um conteúdo vagamente espiritual . É algo extremamente comum. ”

Ele mencionou especificamente dois exemplos americanos: o judaísmo reformista e que é conhecido como  “católicos de cafeteria”, que escolhem quais aspectos de sua fé consideram atraentes e devem ser vividos. Isso, segundo ele, mostra que Deus, e a grande maioria da religião organizada, são desnecessários para dar continuidade à civilização.

Seu irmão Peter, defendeu o lado oposto. Ele rapidamente esclareceu no decorrer do evento que argumentava a partir da perspectiva do Cristianismo e não de todas as religiões.

Ele descreveu o tempo que trabalhou como jornalista, cobrindo a tomada de Mogadishu [capital da Somália] e a decadência da região onde eles foram criados na Inglaterra, ambas recheadas de violência. Ele disse que os dois exemplos revelavam o grande declínio da civilização, e disse que se continuarmos assim, a civilização que conhecemos hoje pode vir a desaparecer. “O comportamento dos seres humanos em relação um ao outro, chegou a pontos tão baixos que não se distanciam da Idade da Pedra”, concluiu.

Enquanto os dois estavam em lados opostos quando se tratava de pensar sobre o papel e o lugar de Deus na civilização, conseguiram concordar em grande parte quando falaram sobre o câncer de Christopher Hitchens.

Durante o período de perguntas e respostas, Pete Wehner, do Centro de Ética e Políticas Públicas, perguntou algo que Christopher admitiu nunca ter lhe inquirido antes: Que contribuição Christopher acha que o cristianismo lhe trouxe?

“Na minha vida, a lembrança da grande efemeridade do poder e da existência humana. Isso é algo que sempre levo comigo.” Mas em relação ao evangelho de Jesus – morte na cruz pelos pecados do mundo – ele disse: “Nada conseguiu me convencer que isso seja verdadeiro ou moral. É apenas um pensamento incoerente”.

Tradução e edição: Jarbas Aragão. Direitos de tradução reservados.
Fonte: CNN e World Magazine

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for O Hitchens ateu X o Hitchens cristão

Deixe o seu comentário