Uma parábola cristã

Sim, de fato é um milagre: os religiosos conseguiram introduzir Deus no debate eleitoral, mesmo que Ele não tenha comparecido à votação presidencial. Pesquisa Datafolha publicada na segunda-feira mostrou que o escândalo envolvendo a substituta de Dilma Rousseff na Casa Civil custou mais votos à candidata do que a questão do aborto. Além disso, uma matéria feita pela Érica Fraga e por mim –que por algum mistério permanece inédita–, em que analisamos o desempenho dos candidatos nas 700 cidades mais evangélicas do Brasil, sugere que não existe vinculação forte entre a religiosidade e o voto majoritário. Na verdade, Dilma se sai até um pouquinho melhor nesses municípios mais evangélicos do que no conjunto do país.

De toda maneira, se há algo a que não me furto é o debate religioso. E os fiéis pegaram no meu pé porque, na minha coluna da semana passada, citei um trecho do Deuteronômio 22:22-24 que determina o apedrejamento de adúlteros. Rapidamente, vários missivistas se puseram a explicar que o próprio Cristo “revogou” a ordem no célebre episódio narrado em João 8:5-11 em que ele salva a mulher infiel desafiando: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”.

Primeiro uma observação relativa a interpretação de textos. Jamais afirmei que era dever do bom cristão lapidar aqueles que desposam visões menos ortodoxas do casamento. O que eu quis dizer e reafirmo é que códigos religiosos em geral e a Bíblia em particular estão repletos de passagens que, dependendo de como são lidas, justificam as piores violências.

Muito bem, admitamos que o próprio filho unigênito de Deus perdoou os adúlteros. Mas, ao que consta, não há revogação à ordem para assassinar quem adore outros deuses (Deuteronômio 13:7-11), para lançar contra as rochas os filhinhos de nossos inimigos (Salmo 137), à autorização para, em caso de apuros financeiros, vender nossas filhas como escravas (Êxodo21:7), ou ao trecho que ensina que a punição justa para quem zomba de carecas é a morte (2 Reis 2:23-24).

OK. Tudo isso é o Antigo Testamento (AT). O Novo (NT), que é o que vale para o verdadeiro cristão, traz apenas mensagens de amor ao próximo. Será? É claro que as características menos agradáveis da personalidade de Iahweh desaparecem no NT. Aliás, é o próprio Iahweh quem quase desaparece desses escritos. Mas, mesmo assim, o doce Jesus, em João 15:6, promete o fogo para quem “não permanecer em mim”.

No mais, é preciso avaliar melhor essa separação entre AT e NT. Se o último revogou mesmo o primeiro, por que diabos praticamente todas as religiões cristãs conservam o AT entre seus textos canônicos? Teria sido muito mais fácil fazer como os políticos e mandar apagar o passado, ficando só com a parte que interessa. Não o fizeram porque a história, como a vida, é mais complexa do que exigem nossos modelos mentais. Embora num dado momento tenha interessado ao cristianismo afirmar uma ruptura com a tradição anterior, o judaísmo, esse não foi um movimento inequívoco e nem mesmo uniforme.

Para começar, o Jesus histórico –vamos aqui dar de barato que ele existiu, isto é, que a figura descrita nos Evangelhos se inspire num único personagem real e não seja um amálgama de vários profetas e pregadores– jamais se pretendeu mais do que um bom rapaz judeu. Jesus fazia-se chamar de “Rabbi” (rabino) e jamais contestou os fundamentos da lei mosaica ou da Torah, a Bíblia hebraica. Mesmo do ponto de vista da ortodoxia judaica, nada do que Jesus fez ou disse podia ser considerado herético.O episódio da mulher adúltera, antes de constituir uma revogação da ordem anterior, é um truque inteligente para obter pela retórica sua libertação sem ter de ir expressamente contra a lei escrita.

Mesmo depois da morte de Jesus, seus partidários, liderados por Tiago, seu irmão, e por Pedro, o apóstolo, se diziam plenamente judeus, constituindo mais uma das inúmeras seitas de então. Eram conhecidos por vários nomes como nazarenos, ebionitas, Seguidores do Caminho, Filhos da Luz e galileus. O termo cristãos só aparece um pouco mais tarde, no meio do século 1º e na Antioquia (Síria).

Quem primeiro esboça uma ruptura é outro judeu: Paulo de Tarso. Também conhecido por seu nome hebraico Saulo, ele era um judeu da diáspora. Nascera na cidade de Tarso, na Cilícia (hoje Turquia), era filho de um cidadão romano e falava o grego. Diferentemente de Tiago, Pedro e dos nazarenos, Paulo pregava para não judeus: gregos, egípcios, romanos e persas –o que, como veremos, fez toda a diferença.

Dizem que Paulo converteu-se ao cristianismo após uma visão na estrada para Damasco. Quanto a isso, eu não sei, mas sei que o homem tinha uma excelente cabeça para o marketing, no que era muito competente. Experimente trazer alguém para uma religião exigindo que o candidato a fiel renuncie radicalmente a todas as suas crenças anteriores, se automutile numa parte que costuma ser cara aos homens e pare de comer as comidas que sempre apreciou. Difícil? Paulo também achou. A fim de tornar o judaísmo cristão mais palatável para os gentios, foi procedendo a uma série de modificações. Era preciso acabar com algumas especificidades do judaísmo que o tornavam uma religião pouco vendável, como a circuncisão, as proibições alimentares e até sua intolerância para com outros credos.

Foi assim que o hoje santo proclamou que a antiga aliança (a lei mosaica) havia sido substituída pela nova, cujas exigências não eram tão draconianas. Arrumaram até um espaço até para o culto a Maria, a mãe virgem de Deus. A ideia pareceria estranha a judeus de Israel, criados numa forte tradição anicônica e anti-idólatra, mas era absolutamente essencial para trazer novos fiéis vindos de religiões repletas de adorações a deusas, virgens e não virgens.

Paulo, com seu notável senso de marketing, dera o passo fundamental para tornar o cristianismo uma religião com pretensões universais, mas, inopinadamente, também estabelecera a linha que um pouco mais tarde separaria judeus e cristãos definitivamente, lançando as bases das fogueiras da inquisição espanhola e dos “pogroms” russos (o nazismo usa o antissemitismo racial e não o religioso, o que configura um caso um pouco diferente).

As pequenas diferenças teológicas estabelecidas por Paulo logo deram lugar a disputas cristológicas mais pesadas que, dentro em breve, degenerariam em forte rivalidade política. Vieram a guerra contra os romanos (66-70) e a destruição do Templo de Jerusalém. Foi um golpe decisivo. O grupo dos judeus cristãos foi duramente perseguido pelas autoridades e quase dizimado. Já os cristãos das comunidades fundadas por Paulo, na diáspora e mais integrados ao império, sobreviveram para contar a história. Foram eles que escreveram os Evangelhos canônicos, que já nascem sob o signo do antijudaísmo. Excluir inteiramente o AT, é claro, teria sido complicado. Em primeiro lugar, para converter Cristo no messias era preciso conservar as profecias do AT que falam no prometido. Além disso, Jesus, como todo bom pregador, não parava de citar a Bíblia hebraica. Eliminá-la da história, portanto, resultaria num enredo pouco compreensível. Tal ambiguidade acabou reforçando a necessidade de os cristãos se diferenciarem política e teologicamente dos judeus e aprofundou a rivalidade entre cristãos paulinos e os grupos de cristãos judaizantes remanescentes.

Religião e política, como se vê na própria história do cristianismo, andam juntas. Isso, é claro, não precisa ser um problema. Na verdade, seria simplesmente impossível pedir às pessoas que não levassem em conta seus valores (às vezes amparados em ensinamentos teológicos) na hora de fazer suas escolhas. As dificuldades aparecem é quando a lógica religiosa, que opera com absolutos morais, se impõe sem filtros, liquidando mecanismos mais mundanos de negociação política. É claro que o fanatismo ocorre também em contextos não religiosos. A capacidade humana de aferrar-se a ideias em geral tolas já é maior do que o desejável, mas, quando o sujeito acredita ter Deus e a verdade a seu lado, ele se supera em intolerância e matanças.

O pequeno “aggiornamento” teológico-litúrgico promovido por Paulo, que afirmou o cristianismo como algo distinto do judaísmo, converteu-se, num espaço de poucos séculos, devido ao contexto político, nas “Homilias contra os Judeus”, onde João Crisóstomo (349-407), nome que em grego significa “boca de ouro”, escreve coisas como: “Os judeus sacrificam suas crianças a Satã… eles são piores do que bestas selvagens. A sinagoga é um bordel, um buraco da escória, um templo de demônios devotados a cultos idólatras, uma assembleia criminosa de judeus, um ponto de encontro dos assassinos de Cristo, uma casa de má fama, um abrigo de iniquidades, um abismo de perdição”.

Em outra passagem picante, Crisóstomo, que não era absolutamente um caso isolado de antissemitismo, escreveu: “Os judeus caíram para uma condição inferior à do mais vil dos animais. Depravação e embriaguez os trouxeram para o nível do bode luxuriento e do porco. Eles só sabem uma coisa: satisfazer seus estômagos, ficar bêbados, matar e bater uns nos outros como vilões e cocheiros”.

Em tempo, Crisóstomo foi sagrado santo pelas Igrejas Católica e Ortodoxa.

Não creio que a democracia brasileira ou o Estado laico estejam ameaçados, mas seria bom se pudéssemos manter lógicas absolutistas que favorecem o fanatismo longe da política. Só por precaução.

Fonte: Folha

Dica da Cristina Danuta

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