Dilma está sendo abortada pelos anti-aborto

Eric Cunha

Muito tem sido dito sobre o assunto. Resumo minhas considerações abaixo.

1- Não é cristão tornar nossas escolhas particulares as escolhas divinas, quando não são as divinas, mas nossas.
1.1 Há que se ter a coragem de assumir as suas escolhas e seus motivos. Isso é o que significa ser responsável.
1.2 Ideologizar a fé é sempre corrompê-la

2- Não é cristão tornar anti-cristão o voto que não é o nosso.
2.1 No fundo é diabolizar os que discordam de mim.
2.1 Por que eu não recebo críticas de cunho político?

3. Se é o critério que vale, vale para ambos, vale para todos. Deveria valer igualmente para o Serra. Como deveria ter valido para o Lula, que é confessamente a favor da descriminalização do aborto. Essa balança injusta revela motivações outras.

4- Não é cristã essa maneira religiosa de fazer política. É, antes, subcristão  e subpolítica.
4.1 Assim, os que acham que estão fazendo um favor aos céus, muito pelo contrário, testemunham sintomaticamente da subcultura evangélica. De fato, esse tipo de comportamento mostra é que de tão sectários e separatistas desaprenderam a viver na vida pública.
4.2 É subpolítica tanto quanto a questão se torna um volante para essa massa de manobra religiosa.

5- Minha sugestão para o cristão é que, antes de mais nada, se reflita sobre
a) a diferença entre imoral e ilegal
b) sobre as origens protestantes do Estado laico (que é diferente do laicismo e secularismo como ideologias). Quais foram as circunstâncias históricas que motivaram a idealização do Estado Laico e quais foram as deliberações teológicas dos reformadores em relação a isso?
c) as regras e a lógica da democracia

6- Há que se discutir as funções do Poder, bem como suas respectivas atribuições. Por exemplo, o que a questão, tornada de importância capital (quando não exclusiva), tem haver com as atribuições de um Presidente? E, por outro lado, porque não se discute o mérito dos candidatos em relação às suas reais atribuições?
6.1 É o Legislativo que muda as leis. Contudo, não se levantou essa questão a quem se deveria – aos nossos senadores e deputados. É incoerente, além de pouco inteligente.
6.2 Há que se conhecer a real relação (influências, diferenças e limites) entre a pessoa como civil comum, livre (liberdade de fazer tudo o que a lei não proíbe) e humanamente com suas próprias opiniões e convicções, e, a pessoa revestida de poder público, cuja liberdade é a liberdade da lei (de poder-dever de fazer o que a lei determina).

7- Certo fez a Marina que, não por ser cristã de menos (como diz o pastor Malafaia), antes pelo contrário, sustentou corajosamente sua opinião pessoal (se era isso que os jornalistas casca-de-banana-vamos-fazer-ela-se-queimar-com-as-convicções-da-sua-fé queriam) e, contudo, propôs que, no país que se louva por ser democrático, se decida democraticamente.

8- O aborto é uma questão importante. Porém maliciosamente deslocada. Desproporcionalizada e usada como instrumento de markentig subpolítico.

9- É credulidade crer que se pode conhecer as reais convicções dos candidatos
apenas pelo que ele fala às câmeras e sobre a pressão moral e eleitoral da  atual atmosfera.
9.1 Esse tipo de critério moral reducionista só patrocina dissimulações. Com o tempo, os verdadeiros não serão mais discernidos pois parecerão, juntamente com os dissimulados, “politicamente corretos”.

10- Eu disse antes mesmo que a Folha sumariasse as opiniões, que a Dilma foi uma “covarde estratégica”. Jogou conforme a torcida pediu (vê como essa exigência patrocina a mentira?). O Lula não foi menos quando, às vésperas da eleições de 2002 se “endireitou”. Engana-se porém, o que acha que o Serra não joga com as imagens. Muito pelo contrário: veja como ele foi bem sucedido. Tá saindo como o santo modelo cristão.

11- Do meu presidente eu quero saber, antes de tudo, o seu plano de governo, os seus projetos, as suas prioridades. O que não é diferente para o meu prefeito e o meu governador. Mas o que há é que essas questões como a do aborto, que já eram importantes, só passaram a ser importantes para o ibope agora. Só é importante quando é anti-Dilma e pró-Serra. Ou seja, no fundo, ela importa muito pouco.

nEle, Jesus, que denunciou a contradição de coar moscas e engolir camelo,

Eric Cunha

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