No Brasil a corrupção se tornou um valor, uma forma de organizar a administração

Nelson Blecher

Prática universal, a corrupção se tornou, no Brasil, um valor, uma forma de organizar a administração. É o que diz o antropólogo Roberto Damatta, ao analisar as “tenebrosas transações”.

QUEM É
Nome_Roberto Augusto DaMatta
Idade_73 anos
Onde mora_Niterói, RJ
Profissão_Professor, escritor, conferencista e consultor
Especialidade_É antropólogo e historiador
Formação_Doutor em antropologia social pela Universidade Harvard
Currículo no exterior_Professor emérito da Universidade de Notre Dame, em Indiana (EUA), onde ocupou uma cátedra por 17 anos. Lecionou também nas universidades americanas de Wisconsin-Madison, Berkeley e Middlebury College, e em Cambridge (Inglaterra)
Obras_Carnavais, Malandros e Heróis, A Casa e a Rua e Tocquevilleanas – Notícias da América. Prepara o lançamento de Fé em Deus e Pé na Tábua, estudo sobre a agressividade no trânsito
Na imprensa_Colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e o Globo

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A sequência de escândalos de corrupção que constrangem a nação, é apenas a migalha de um banquete que parece não ter fim, elevou o tom das colunas que o antropólogo e historiador Roberto DaMatta escreve semanalmente nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo. Mais uma tentativa, segundo ele, de sensibilizar cidadãos indignados, mas igualmente frustrados com a leniência e a tolerância. Arguto detetive da alma brasileira, autor de obras que analisam o comportamento dos conterrâneos que se espelha no carnaval, no futebol, na música e até na comida, o antropólogo DaMatta afirma não ter ilusões sobre a eficácia de fórmulas ou decretos para erradicar mazelas nacionais, como a corrupção – tema recorrente na imprensa desde o fim da censura do regime militar. “As sociedades não mudam com facilidade”, constata. “Elas não leem obras de sociologia.”

No aconchegante escritório que ocupa o andar superior de sua casa num condomínio em Niterói, cidade onde nasceu e reside – exceto nas quase duas décadas em que estudou e lecionou em universidades americanas e europeias –, DaMatta revisa seu próximo livro, Fé em Deus e Pé na Tábua. Fruto de uma pesquisa iniciada em 2004, ele invocou no título o conhecido dístico de parachoque de caminhão para mostrar a exacerbação neurotizante provocada pelo trânsito e como o brasileiro, que não é individualista por natureza, se transforma ao volante. “Ele não dirige, duela”, diz DaMatta.

Cercado de fotografias em que aparece ao lado de intelectuais consagrados, como o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, morto no ano passado, e por centenas de livros – entre os quais as duas dezenas de obras de sua autoria ou coautoria –, o energizado DaMatta, de 73 anos, ainda não perdeu as esperanças, depois de fazer um balanço de avanços consideráveis nas duas últimas décadas. Faltam, segundo ele, componentes indispensáveis à instauração do verdadeiro liberalismo no Brasil: da disseminação de uma cultura filantrópica, com fundações como a de Bill Gates (“Por aqui só existe caridade”, diz) a contínuos investimentos na educação das novas gerações.

Para ele, o país tem, sim, conserto, desde que os brasileiros tomem consciência de que certas mudanças não dependem exclusivamente da maneira de gerir o Estado, mas de como governam suas próprias vidas e seu relacionamento com os outros em sociedade. A seguir, os principais trechos de sua entrevista a Época NEGÓCIOS.

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VÍCIO UNIVERSAL_ A corrupção existe em qualquer comunidade humana. O rompimento de regras, a transgressão ética e moral ou religiosa é constitutiva do ser humano. Um professor de Harvard costumava fazer um gráfico: 10% dos cidadãos não seguem regra alguma; 10% seguem todas as regras; e nós estamos no meio. Daí a necessidade dos limites e da polícia. Toda comunidade humana tem de lidar com alguma forma de rompimento de regra. Há um denominador comum no caso da corrupção à brasileira: ela é implementada, dinamizada e realizada por meio do Estado.

O que ocorreu na bolha americana? O golpe da pirâmide era privado e entidades privadas foram ajudadas e punidas. Mas, no Brasil, estamos falando de um processo em que os recursos públicos vão para as mãos dos governantes diretamente ou para as mãos de seus apadrinhados, parentes, amigos ou sócios. Não é a sociedade que faz o negócio escuso. É uma amizade que se consolida, entre outras coisas, por meio da passagem do dinheiro público para empresas. Algumas criadas especialmente para desempenhar esse papel. Lembre-se dos escândalos da Sudam e da Sudene. Eram empresas que a elite nordestina constituía com gente capacitada, que fazia projetos empresariais para não sair do papel, enquanto o dinheiro saía dos cofres.

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ORIGENS DA CORRUPÇÃO_ As raízes da corrupção jazem na tradição centralista e, mais que isso, estadomaníaca ou estadofílica. E não veio como herança colonial, porque o Brasil não foi colônia no sentido clássico do termo, tal como se aplica à India e a alguns países africanos. Pois o Brasil foi sede do reino português quando, em 1808, Dom João VI fugiu para cá, abandonando o seu reino – algo inusitado na história das realezas. Esse é um ponto fundamental. Há um elemento de catástrofe ou de reversão administrativa em nossa História. Foi quando D. João VI fugiu para o Brasil. Um rei que não teve coragem de defender seu reino vem com toda a Corte para o Brasil numa verdadeira tragicomédia, que atrasou os ideais liberais provavelmente por todo o século 19. Nossa convivência com a aristocracia não foi longínqua, nem mimética como a dos nobres peruanos, que imaginavam a vida na Espanha, ou a dos rajás indianos, que iam estudar em Londres e em Oxford.

As consequências econômicas, ideológicas e sociológicas desse fato não foram, a meu ver, devidamente estudadas até hoje. O que houve no Brasil foi uma combinação de capitalismo – o melhor negócio do mundo era investir em escravos – com monarquia, cujo estilo era hierárquico e aristocrático.

Tivemos, como não poderia deixar de ser, uma República com usos e costumes monárquicos, governando uma sociedade com senhores e escravos, cujo estilo de vida e visão do mundo eram feitos de grandes e pequenas desigualdades, como revela a obra de Machado de Assis.

Em 1889, proclama-se a República. Quem vai dirigi-la? Os barões do império, os nobres, os altos funcionários. Em toda a América Latina houve o fenômeno do caudilhismo. No Brasil, não, porque havia uma elite altamente entrosada e solidária entre si, com uma visão estadomaníaca de governo que permanece até hoje. Há um setor público todo moldado de maneira imperial. Cartorial, no dizer de alguns, mas, de fato, aristocratizado pelo Estado de feitio burguês e, paradoxalmente, igualitário. O Estado brasileiro aristocratiza, enriquece e, ao mesmo tempo, iguala. Do contrário, não teríamos um Lula operário mas hoje aburguesado e, mais que isso, aristocratizado. Os salários são aristocráticos. Para ter uma ideia: até o governo Collor, que extinguiu a carreira, havia uma categoria profissional, o fiscal de consumo, que ganhava um percentual do que o Estado arrecadava. E quem inventou isso foi um amigo do Getúlio. É como o Lula trata hoje os sindicalistas, que não têm de prestar contas do dinheiro que recebem das contribuições sindicais. A lei de responsabilidade fiscal funciona para as empresas, mas não para os sindicatos. O Estado brasileiro é contraditório: é universalista, mas funciona de maneira particularista. Isso acontece em todas as sociedades, mas com limites e problemas. A corrupção ocorre em todos os lugares, mas em alguns, como no Brasil, é um valor, uma maneira de organizar a administração.
 Reprodução MODERNIZAR À BRASILEIRA_ Ao longo do tempo, a República brasileira foi se modernizando, ou seja, foi se tornando mais igualitária. Mas com [Getúlio] Vargas, ela se burocratizou ainda mais. Veio depois o ciclo JK e, em seguida, o engodo Jânio Quadros, os militares e, com a redemocratização, a Constituição cidadã. A sociedade não lê livro de sociologia. Ela é igual à vida, que vai acontecendo. E o que assistimos é a uma modernização à brasileira. Ela avança e breca. Toda a minha obra está voltada para entendermos isso. E aí tem o buraco da indignação: aqueles que são encarregados de ser os guardiões da República são exatamente os mais corruptos. Por quê? Porque se apropriam dos cargos e dos seus recursos.

Nossa sociedade ainda não discutiu com a veemência necessária o fato de que, numa República, transita-se pelos cargos. Você poderia ter funcionários permanentes, mas não é nosso caso. No caso do Brasil, prevalece um sistema de relações pessoais que é muito forte e imperial: aos amigos tudo, aos inimigos, a lei. Essa é a ética do sistema. Se na Alemanha nazista funcionasse essa ética não haveria o holocausto de 6 milhões de judeus. Mas os nazistas eram prussianos. Tinham um elemento de furor modernizador – queriam ir além dos franceses… – e montaram um sistema implacável, que existe em alguns estados americanos. Quando um americano diz “no way”, não tem como. São sistemas segregacionistas – nós, brasileiros, somos apenas preconceituosos.

ELITE DE INTOCÁVEIS_ Ter uma lei que torne a corrupção crime hediondo pode amedrontar mais. Mas o fundamental é melhorar o processo jurídico brasileiro, que é arrastado e não tem limite para o acusado, que pode recorrer infinitamente. Foi concebido numa época em que não havia fotografia, gravador ou vídeo. Há uma rede de advocacia que, pela competência, não é fácil de ser vencida. Em cada setor do Brasil há uma elite de intocáveis. Também há um Estado complicado, com leis incompreensíveis a olho nu. Se você receber uma carta de um juiz, dificilmente compreenderá seu conteúdo. É uma linguagem de século 16.

A relação entre costumes e leis em outros países, sobretudo nos Estados Unidos, é completamente diferente. A visão da elite republicana do século 19 só está se dissolvendo agora. Uma visão evolucionista, segundo a qual a sociedade transita de um estágio primitivo, fundado na religião, para o positivismo, baseado na ciência. Ou seja, na ideia de que a sociedade e seus processos eram compreensíveis e manipuláveis. Essa elite achava que essa evolução era um processo automático. Que a revolução burguesa viria automaticamente. Porra nenhuma! Só virá se nós quisermos. E o fato é que estamos fazendo uma revolução burguesa no Brasil em nanopílulas. Dá-se um passo para a frente e dois para trás.

LÍDER NO BATISMO_ O Brasil tem capitalismo, mercado e um sistema financeiro supermoderno, talvez mais eficaz que o americano. Mas faltam outros componentes do liberalismo. Em primeiro lugar, é preciso que haja uma vigência mais robusta do conceito de igualdade. Saber que o outro não é superior, nem inferior, apenas diferente de você, mas que merece tanto respeito quanto você espera que tenham por você. Não se ensina isso em lugar nenhum. Pelo contrário, tanto em casa quanto na rua, aprendemos a ser superiores aos outros.

Não temos consciência de nosso comportamento. E isso porque não conhecemos o Brasil da maneira que ele deve ser conhecido. O modelo de conhecimento do Brasil é euro ou ianquecentrado. Veja as empresas. Tenho falado para executivos, e alguns ficam chocados com minhas ideias. Sobre a questão da liderança, por exemplo. Como é o líder? É aquele que se destaca. Qual a diferença entre o líder americano e o brasileiro? É simples, porque tem uma coisa maravilhosa no Brasil: basta ter um bom nome de família para nascer líder. Já começa a despachar em casa, com os empregados. E como é a liderança nos Estados Unidos? Você precisa construir uma biografia, se autofecundar, candidatar-se a prêmios, prestar serviços à comunidade ou à sua associação profissional. No Brasil, só presta serviços à comunidade quem é condenado a tanto pela Justiça. Lá fora, é parte integrante de seu currículo.

MUDANÇA POR DECRETO- Há uma ideia implícita no sistema cosmopolítico brasileiro de que se pode fazer um país em um dia, com um decreto. A falsa ideia de que uma pessoa – ou um partido – transforma tudo. Não existe isso. O processo é lento, trabalhoso e com muitos caminhos. E todo dia é necessário perguntar qual o caminho a ser seguido. Essa é uma característica do liberalismo, tal como nas atuais competições esportivas: para se tornar um campeão, você precisa estabelecer uma estratégia e segui-la.

Esse é, de modo simplificado, o modelo para a construção do liberalismo moderno. É a mensagem mais importante proveniente dos Estados Unidos, que alguns países adotaram melhor que outros. É preciso educar as pessoas de uma maneira consistente e persistente para a sociedade que se quer.

Um dos problemas da elite brasileira é que ela ainda não sabe a sociedade que quer. Se quer um superEstado, com um superGuia que controla tudo ou se quer uma sociedade dinâmica, que vai se consertando. Um sistema aberto por excelência, no qual os indivíduos se respeitem enquanto iguais perante as leis e se ajustem permanentemente, de acordo com seus interesses. Nesse tipo de sistema, a educação é uma dimensão essencial.

GRANDES ESPERANÇAS – A autoestima do brasileiro cresceu consideravelmente nos últimos 14 anos. Conseguimos acabar com a inflação, que era considerada invencível. Havia até uma piada célebre circulando à época, aquela em que o então presidente José Sarney pergunta a Deus se a inflação iria acabar no Brasil. “Sim, Sarney, um dia vai acabar, mas não será na minha administração.” A corrupção é um fenômeno que guarda uma semelhança sociológica muito grande com a hiperinflação. Ambos decorrem do uso de “moedas” diferenciadas: para nós, do poder, não há separação entre o público e o privado, mas para quem está fora do gerenciamento do Estado, há. Os “políticos” vivem num mundo com mais “moedas” de troca. Por que o Brasil vai crescer acima das expectativas? Porque se limpou o esgoto que era o sistema financeiro, sobretudo os bancos estaduais e os pequenos bancos atrelados às elites. Mudou também o sistema de aposentadoria, que dificultou o sujeito ter até quatro aposentadorias, como quase todos da minha geração têm. São aspectos positivos, que precisam ter continuidade.

Fonte: Época Negócios

Dica e comentários abaixo de Sammis Reachers, no UBE

Nesta reta final das eleições, uma questão crucial para o pleno desenvolvimento (em todas as frentes) do Brasil, e mesmo para sua maior inserção como verdadeira liderança no cenário global, tem sido pouco debatida por nossos dois nobres candidatos: a  velha e visceral corrupção. Quais dos candidatos, por exemplo, tem apoiado e promovido a idéia de transformar o crime de corrupção em crime hediondo (saiba mais aqui, aqui e aqui) – o que pelo menos assustaria mais a canalha, aumentando, se não ao nível justo, ao menos um pouco o grau da punição? Tal mudança interessa a algum deles, nobres a aguerridos candidatos a gerir a máquina-Brasil? Interessa a seus partidos, seus aliados, suas bancadas, e por que não (pardon, mes amis, mas os tempos são maus), a suas famílias?

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