Ateus decidem unir esforços para propagar sua descrença

Mark Oppenheimer

Sam Harris fala ao público presente no encontro promovido pelo Conselho de Humanismo Secular, em Los Angeles

Estudo recente do Centro de Pesquisas Pew mostrou que ateus têm maiores conhecimentos sobre religião que as pessoas religiosas AQUI. Animados ao tomar conhecimento disso, 370 ateus, humanistas e outros céticos lotaram um auditório no Hotel Millennium Biltmore (em Los Angeles) no final de semana passado para debater o futuro do seu movimento.

Eles chegaram a um acordo em dois pontos: 1) as pessoas não precisam de religião para ser boas, e 2) a religião tem influência demasiada. No entanto, não conseguiram chegar a um acordo sobre a forma adequada de anunciar estas declarações.

Patrocinada pelo Conselho de Humanismo Secular, a conferência atraiu membros de todas as grandes organizações de descrentes, incluindo a American Atheists e a Associação Humanista Americana. A multidão – em sua maioria constituída de homens e brancos – marcou presença para ouvir os painéis que incluíam vários ateus autores de best-sellers panfletários, como Richard Dawkins (Deus: um delírio) e Sam Harris (O Fim da Fé). Harris é muito popular no mundo ateu, inclusive viajou com guarda-costas, pois recebe ameaças de morte de cristãos e de muçulmanos.

A conferência foi realizada após uma mudança na liderança do conselho e rumores de divisão, algo que foi descrito como um impasse entre os ateus, que defendem a inexistência de Deus, e os humanistas, que além de serem descrentes procuram um sistema alternativo de ética, desassociado de qualquer divindade.

Alguns dos palestrantes aludiram às turbulências no conselho, uma vez que vários funcionários antigos se demitiram ou foram demitidos. Mas, em geral, enfatizaram a unidade: possuem inimigos em comum, como o fundamentalismo religioso e o “design inteligente”. Eles acreditam que a moralidade pode existir sem Deus.

Contudo, houve discordância sobre a origem da moralidade secular. Em seu novo best-seller, “The Moral Landscape”, Harris argumenta que a moralidade é produto da neurociência. (O bem, argumenta ele, é o que promove a felicidade e o bem-estar, algo que, em última análise, depende da química cerebral.)

Outros acreditam que a moralidade surgiu com a evolução, enquanto outro grupo defendeu a ética fundamentada na filosofia secular, como a de Immanuel Kant ou a de John Rawls. Mas todos concordaram que os descrentes são, no mínimo, tão morais quanto os crentes, e por razões melhores.

Portanto, a discordância não era entre ateísmo e humanismo. Tratava-se de fazer os EUA ateu ou humanista. A questão central era: “O quanto devemos desprezar publicamente a religião?”

Nesse ponto, os humanistas tornaram-se menos humanos e cada lado estereotipou o outro. Aqueles que tentavam encontrar um terreno comum entre as pessoas religiosas foram chamados de “acomodacionistas”, enquanto os ateus mais incisivos eram classificados de “confrontacionistas” e acusados de afastar aliados potenciais, como os cristãos moderados.

No painel mais agitado, na noite de sexta-feira, o escritor e cientista Chris Mooney falou sobre uma pesquisa que mostra que muitos cristãos “rejeitam a ciência, por entenderem que ela entra em conflito com seus valores morais”. Os ateus devem estar atentos a essa percepção, afirmou Mooney. Por exemplo, um ateu que luta para que se ensine a teoria da evolução nas escolas deve tranquilizar os cristãos que a sua fé é compatível com a ciência moderna. “Eles resistem à evolução porque acham que todo mundo vai perder a moralidade”, afirmou Mooney. “Sabendo disto, por que você atacaria diretamente essas crenças mais profundas?”

O painel deve ter sido organizado por alguém que gosta de confusão, pois o orador seguinte foi o biólogo e blogueiro PZ Myers – um confrontacionista radical. Em 2008, para defender a liberdade de expressão, ele publicamente profanou uma hóstia, um Alcorão e (para equilibrar as coisas) uma cópia do livro de Dawkins, “Deus: um delírio.” Ele gosta de dizer que tenta falar (ou fazer) algum tipo de blasfêmia todos os dias.

“Disseram que a minha posição não vai ganhar os processos judiciais em favor do criacionismo“, disse Myers. “Você acha que eu me importo? Não me tornei cientista porque queria impressionar advogados. O adjetivo adequado para pessoas que desejam ficar neutros em relação à verdade é ‘mentirosos’ “, acrescentou.

Isso parece com a tese defendida pelo físico Victor Stenger, o último orador. Ele chamou os que preferem viver sem Deus de covardes: “Está na hora de os secularistas pararem de temer cristãos e outros religiosos”, disse.

Em seguida, Mooney e Myers discutiram sobre uma figura frequentemente citada como a prova viva de acomodação entre ciência e religião: Francis Collins, diretor do National Institutes of Health e cristão evangélico. No passado, Myers chamou Collins de “palhaço” por causa de suas crenças religiosas.

Segundo Mooney, Collins, que não estava na conferência, é um importante aliado dos ateus: um dos principais defensores da teoria da evolução e um defensor da pesquisa com células tronco embrionárias. “Segundo qual padrão ele é um palhaço?”, perguntou o cientista. “Quando se trata da forma como ele entende a ciência, tudo o que li de sua autoria era um lixo completo”, respondeu Myers, acrescentando que “vou continuar a chamá-lo de palhaço”.

Para muitos na platéia, classificar ou não Collins de palhaço não era uma questão pertinente. Pelo contrário, sendo ateus em um país muito religioso, eles estavam a procura de solidariedade.

Por exemplo, almocei no sábado com um jovem casal que se conheceu no início do ano no “Geração ateísta”. Trata-se de uma reunião de jovens em um bar de Hollywood, onde reúnem-se pessoas com ideias semelhantes.

Ouvi então de Claire, uma administradora de artes de 27 anos, que preferiu não revelar o seu sobrenome: “Não falo abertamente sobre isso no meu trabalho. A maioria das pessoas acha que os ateus não têm moralidade, e eu poderia prejudicar a organização onde trabalho se falar honestamente sobre o que penso”, disse ela.

Myers e outros “confrontacionalistas” certamente afugentam alguns cristãos que seriam potenciais aliados. Mas eles também podem oferecer conforto a pessoas como Claire, que se sente parte de uma minoria invisível. Myers já saiu totalmente do armário sobre seu ateísmo, de maneira aberta e orgulhosa: Ele afirma: “Estamos aqui, e não acreditamos. A ciência e a razão estão do nosso lado. É melhor vocês se acostumarem com isso”.

Fonte: New York Times

Tradução Jarbas Atagão. Todos os direitos de tradução reservados.

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