Antes e depois

Helena Beatriz Pacitti

Li em uma revista a reportagem sobre dois jovens brasileiros que, em 2005, foram confundidos com terroristas nos Estados Unidos  por causa de uma brincadeira infeliz na hora em que saíam de Miami:  “Did you find my bomb?”

Por conta da frase mal empregada e da confusão, foram presos, julgados, punidos e mandados de volta ao Brasil.  A familia de ambos sofre até hoje pelo impacto emocional e financeiro do que aconteceu.

Ontem à tardinha, também, minha filha caçula foi atropelada por um carro quando atravessava a faixa de pedestres no final da fase do sinal, em uma avenida perto de casa. Por 2 segundos ela teria chegado a salvo no final da faixa, mas os carros avançaram de imediato assim que o sinal mudou de cor.

Felizmente foi algo sem piores consequências: rendeu-lhe 4 ou 5 hematomas e arranhões nas pernas e um sustão.  Mas poderia ter sido trágico também.  Ficamos abalados e divididos entre um verdadeiro alívio e a sutil tentação de imaginar o pior, enveredando por: ” E se …?”

[ A tempo: não gosto destes ” E se…?” São uma espécie de tortura mental, onde é possível visualizar coisas terríveis e massacrar a esperança. ]

Cito os dois fatos me dando conta de que uma decisão equivocada, seguida de imediata ação, pode mudar completamente o curso de uma vida.  O gracejo dos rapazes, o erro de 2 segundos no cálculo da travessia: um pequeno deslize e você passa a ter a sua história pessoal dividida entre um   “antes” e um  “depois”.

Minha reflexão não é para criar um acanhado medo da ousadia e do drama, concluindo que todo risco deva ser abolido da nossa existência.  Creio realmente que só podemos enfrentar esse destino quando ocupamos um lugar definível neste mundo.

Ao mesmo tempo, penso que tornar-se sábio seja também tornar-se contente. Contente?  Sim, aquele que possui contentamento (do latim contentum = conteúdo).  Ou seja, viver em plenitude o interior do que nos chega, seja a atenção, a alegria, a expectativa,a surpresa, a quietude; sejam momentos de seriedade, esperas, chegadas, partidas.

É preciso aprender a tolerar esse estado de espírito ainda inarticulado e aparentemente ingênuo, e crer que os pequenos fragmentos de contentamento fazem parte de algo real e maior.

É preciso estar atento aos conteúdos.  Para que nenhuma história se interrompa.  Para que a vida – bela, intensa e tão frágil –  prossiga.

fonte: Timilique!
foto: Mario Fusco

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