Devo, não nego

Ana Cristina Gontijo

Em maio de 2007, escrevi:

“(…) Minha visita à comunidade Vila Estrela teve a ver com uma moça que vigiou meu carro enquanto eu almoçava em um restaurante perto de casa. Viciada em crack há dois anos, ela não fuma há quase três semanas. Estava sendo ameaçada de morte pelos traficantes por uma dívida de sessenta reais. Por isso, vinha passando as noites na rua, perto do tal restaurante ali na esquina, ali embaixo, sem poder subir. Não pôde participar da festa do dia das mães promovida pela escolinha do morro. Ela tem três filhos. Naquele dia, antes que o sol despontasse, para não ser vista, tinha ido a sua casa para pegar uma muda de roupas. Aproveitou para dar um beijo nos filhos e coar um café para a mãe.

Durante as últimas três semanas, sem pouso, ela começou a ter contato com a graça libertadora de Deus de uma forma que, para qualquer um de nós, pareceria que Deus estava agindo no conta-gotas. Aparentemente, as coisas não haviam mudado tanto. Mas ela demonstrava grande alegria ao descobrir que seu Criador estava disposto a aceitá-la. Para ela, era como se uma forte chuva de graça estivesse descendo do céu sem nuvens, e ela dançando e comendo as gotas da chuva.

Eu vi. Uma moça jurada de morte, viciada há dois anos, finalmente passou três semanas sem fumar crack. Ela atribui o fato à libertação que vem de Deus. Para muitas pessoas lá no morro, é apenas fogo de palha: “Ela vai voltar, essa aí não tem jeito”. Para mim, o maior milagre da Terra; o momento em que Deus se revela a um pequenino e o toma nos braços. Isso é suficiente para encher meu mundo todo de alegria.”

No período em que escrevi o texto, tive bastante contato com ela. Depois, sua irmã me procurou para dizer que ela vendeu todas as roupas que ganhou de mim e foi comprar a porcaria. Disse ainda que ela não prestava e que eu não perdesse meu tempo. Insisti ainda uma vez, consegui uma vaga em um projeto de recuperação da igreja batista mais perto de casa. Ela foi, depois voltou para casa e para o fumo. E eu me permiti desistir.

Acho que me satisfiz com as bondades que tinha feito, e, verdade seja dita – pensei – quem quer ajuda, quer; quem não quer, não quer. Fiz minha parte para um mundo melhor. Imagine você que saí do meu cercadinho e cruzei as chamadas fronteiras do submundo com uma moça que devia dinheiro a traficantes. Deus deveria estar muito feliz e orgulhoso de mim. Mas, agora que eu me sentia usada e enganada, melhor procurar outro depositário para minha caridade cristã. E foi assim, com desculpinhas esfarrapadas, que a eu-boa-samaritana modelo falsificado despiu sua fantasia e voltou ao normal.
Passei um tempo fora do Brasil. Quando voltei, encontrei na rua a irmã da nossa moça. “Tá presa. Aquela ali não presta. Eu avisei, né.”

Mês passado, reconheci um corpo magro, alto, pouco feminino, descendo a rua com uma penca de crianças. Era ela. Fingi que não vi e ela fingiu que não me viu. Ela me deve dinheiro e satisfação, está com vergonha de mim. Mas maior vergonha sinto eu, a maior devedora sou eu. Minha sorte é que ela não sabe.

A população inteira do planeta pode argumentar que não devo sentir-me culpada, afinal, ela é adulta e a vida é dela. Mas tem um detalhe, apenas um detalhe maior do que o mundo inteiro: um tal incômodo toda vez que penso nela – e sempre penso nela. Uma vontade de chorar por ela, um amor que brotou não sei de onde e não quer mais ir embora. Uma voz que me diz com insistência gentil: “Eu nunca desisti de você em nenhuma das vezes que você me enganou, eu não fingi que não conhecia você quando teve vergonha de me encarar.” Esta voz, o grito mais visceral da Terra, faz com que eu perca meu prumo. Revela minha nudez e meu descaramento camuflado de bondade traída.

A imagem daquele sorriso de esperança do primeiro dia em que conversamos me é eterna. Olhei em seus olhos e era eu. Naquele momento, nós duas nos encontrávamos em Deus, éramos o mesmo ser miserável, perverso, diverso e fantástico. Ela não mentia, eu não mentia. O encontro foi real.

Não me sinto responsável pelas misérias do mundo – embora eu seja, em parte, responsável pelas misérias do mundo – mas sou, sim, guardadora da Liliane e de seus filhotes. Não foi ninguém que me deu o título, eu apenas sinto e sei.

Mas sou tão canastrona, que, enquanto oro pedindo a Deus que me faça chegar mais perto dEle, enquanto aguardo a revelação de que lugar devo ocupar no Reino, ignoro uma mãe e três crianças na rua, fujo de qualquer coisa que vá exigir de mim mais do que uma boa ação aqui e ali. Vou lustrando as sandálias de Jesus com minhas pequenas justiças, mas no fundo sei o que tenho que fazer. No fundo, todo mundo sabe. Sabe, mas não faz.

Devo, não nego, pago quando puder.

fonte: Notas de aprendiz

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