Um sinal de esperança

Ariovaldo Ramos

“O que é a democracia? Antes de tudo é uma palavra do grego arcaico. Depois, ganhou cidadania na filosofia política em geral para se referir a um sistema de governo baseado na “soberania popular”, e aí, meu amigo, a coisa vai para o brejo.

Por exemplo, eu posso ser um tonto, analfabeto de pai e mãe, e meu voto vale tanto quanto o seu, pessoa culta, esforçada para compreender o mundo e fazê-lo menos estúpido do que já é. Eis o brejo…” Luiz Felipe Pondé (FSP/Ilustrada/01/11/10)

(O ilustre Professor escreveu artigo sobre a liberdade de imprensa, e, em meio ao argumento, fez as considerações, supra-citadas, sobre a democracia. Ainda que, em princípio, toda defesa à liberdade de imprensa seja bem-vinda, escrevo sobre a temerária colocação sobre a igualdade entre os cidadãos e cidadãs; e sobre o maior sinal dessa eleição para o cargo máximo da república.) NA

Quando leio falas como a do Sr. Pondé, lembro-me de uma fala de Tarik Ali, jornalista paquistanês, radicado em Londres, numa conferência de imprensa, em que participávamos em Caracas, Venezuela.

Tarik disse que o que estava em jogo na Venezuela era a possibilidade de se construir a democracia a partir dos pobres.

Quando olho para o Brasil que vem surgindo, e que, mais uma vez, se faz ver nessas eleições, tenho a tendência de dizer ao Sr Tarik, que sim, é possível construir a democracia a partir dos pobres, crença de que ele também partilha, uma vez que lá estávamos para dar apoio ao Sr. Chávez, no primeiro plebiscito de que participou sobre a continuação de seu governo.

Consideremos: Pela terceira vez seguida os pobres vencem as eleições para a presidência da república.

E, desta vez, foi uma luta visceral, uma vez que a subdesenvolvida elite brasileira, unida por um inimigo comum, usou dos expedientes mais aviltantes para tentar demover o povo pobre do poder.

Triunfou o pobre pela terceira vez, e, mais uma vez, na vanguarda. Das duas vezes anteriores os pobres elegeram um operário, que provou, de forma cabal, que o trabalhador governa melhor. E, dessa vez, elegeu uma mulher, e, para além do corte de gênero, que, por si, já é emblemático, elegeu uma guerrilheira, alguém que arriscou a vida pela volta do país ao estado de direito, solapado por uma elite adepta do que Orwell (Em sua obra: 1984) chamava de novilíngua, onde cada palavra tem, a cada vez, um significado diferente, ao sabor dos usurpadores da liberdade.

Exatamente a fala que percebo no Sr. Pondé, que quer ressuscitar a democracia grega, onde apenas a elite votava. Mas, sabe o dito mestre, que a democracia que triunfou foi a inspirada no ensino cristão, que pode ser sintetizada no grito de um de seus mais proeminentes apóstolos, que de dentro do calabouço do império romano, que inspira a segregação exalada na fala do magister, proclamou: “Deus é pai de todos e está em todos e age por meio de todos.” Paulo de Tarso, em Ef 4.6. Logo, todos são iguais.

Aliás, o Sr. Pondé, se já não leu, deveria ler Cães de Guarda, de Beatriz Kushinir, e, se o fez, sabe onde estavam muitos dos que hoje tentam colocar sobre o governo popular a pecha de censor da imprensa.

Insisto, estamos construindo uma democracia que honra a sua definição: governo que emana povo e em seu nome é exercido.

Bem-vinda Presidente Dilma!

Avançamos e temos ainda, e em muito, que avançar! Como cristão empenho minha militância cidadã, minha intercessão sacerdotal e minha vigilância profética para que os pobres sejam honrados em sua escolha, pelos escolhidos e pelos colocados em atividade opositora. Assim se sustenta a democracia.

fonte: A Vida: entre o q é e o q eu gostaria que fosse

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