Quem sabe ainda sou uma garotinha

Quinta deputada mais votada na Alerj, filha mais velha do casal Garotinho ainda coleciona bichos de pelúcia e sonha com Executivo

É em um quarto com cama de solteiro coberta por uma colcha lilás, bichos de pelúcia e um iPod rosa-choque carregado de hits de sertanejo universitário que descansa a quinta deputada estadual mais votada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Clarissa Garotinho (PR), 28, filha mais velha do casal de ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho, foi eleita com 118.817 votos. Diz ser fã do discurso “I have a dream”, de Martin Luther King, e avisa que também tem um sonho: o de ser prefeita. Um dia.

“Falar em 2012 é muito cedo. Mas no Executivo a capacidade de realização é maior”, diz. “Não descarto, mas não penso nisso agora.”

Enquanto não ingressa na Alerj, Clarissa cumpre o mandato de vereadora conquistado em 2008, com 42 mil votos, quando ela ainda estava no PMDB. O PR é a quarta sigla em que milita, sempre na companhia dos pais. Já passou por PSB, PMDB e PDT – embora não tenha sido filiada à sigla, porque era menor de idade.

Aliás, sobre os pais, ela alerta: “Defendo eles com unhas e dentes. Não tenho exemplos ruins dentro de casa”, afirma. A mãe, Rosinha, ex-prefeita de Campos dos Goytacazes (norte fluminense) teve o mandato cassado pelo TRE-RJ, em junho, sob a acusação de abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação.

Garotinho também enfrenta problemas. Recém-eleito o segundo deputado federal mais votado no País (quase 700 mil votos), sua posse segue sub judice, pois também foi condenado por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação. Ele concorreu amparado por uma liminar. “Sou muito nova e prefiro acreditar nas instituições. Principalmente na Justiça do meu País. É o que tenho a dizer sobre isso”.

Clarissa nasceu em Campos, mas vive há 15 anos na cidade do Rio. Responsável pela segunda maior votação do PR na Alerj, ajudou a bancada a saltar de cinco para sete deputados e a reconfigurar a oposição ao governo Sérgio Cabral (PMDB). “Cabral foi um traidor, se deslumbrou”, responde ao ser perguntada sobre o ex-aliado da família. “Ele se beneficiou do governo (do casal Garotinho) e depois virou crítico feroz.”

Chávez, Obama, Getúlio e ET

Clarissa mora em um apartamento de três quartos, divididos em 240 metros quadrados, em um prédio art decó no Flamengo, zona sul. Alugado, ela frisa. Na casa ainda vivem seus pais, Anthony e Rosinha, e frequentemente alguns de seus oito irmãos (três de sangue e cinco adotados).

O cômodo em que a vereadora dorme é dividido com uma das irmãs, que, recentemente, foi morar em Campos. De companhia, restaram bonecos de estimação do presidente americano Barack Obama, do venezuelano Hugo Chávez, e de Getúlio Vargas, além de uma pelúcia do ET. “Amo, comprei quando conheci os estúdios da Universal”.

Além dos Estados Unidos, Clarissa foi a Venezuela e a Cuba. “Gosto das políticas sociais do Chávez, mas discordo da censura que ele impõe à imprensa”, diz. “De todos esses bonecos, me alinho mais a Getúlio Vargas. Ele e Juscelino (Kubitschek) foram os melhores presidentes do Brasil”, esclarece.

Depois de conquistar a cadeira na Alerj, Clarissa engatou um namoro com um advogado tributarista. O tempo que sobra diz dedicar à leitura de biografias e discursos. “Sempre leio ‘Depoimentos de Carlos Lacerda’. É uma pessoa que teve importância no Rio de Janeiro. Tem um mito de que o governo dele jogava mendigos no rio. Não acho que tenha sido mito. Mas o homem fez grandes obras e tem sua importância política para o Estado”.

iG: Quem é seu eleitor?

Clarissa Garotinho: Na primeira eleição (em 2008, para a Câmara dos Vereadores), eram mais eleitores do meu pai. Mas acho que ganhei eleitores com meu mandato. Fui para a Câmara com 42 mil votos, agora, na Alerj, recebi 118 mil. Creio que minha proposta para o primeiro emprego ajudou.

iG: Como você entrou na política, seus pais chamaram?
Clarissa: Meus pais nem queriam que eu concorresse
. Foi uma decisão minha, com o apoio da juventude do meu partido. Aconteceu naturalmente. Meu pai era radialista e perdeu vários empregos por perseguição política. Minha mãe foi vender Avon e dizia que eu usava roupas doadas por ouvintes. Eles não tinham com quem me deixar então eu acompanhava tudo. Tinha reunião de partido e lá estava eu; carreata, idem. Peguei o gosto.

iG: Você estudou Jornalismo, foi influência dos seus pais, que são radialistas?
Clarissa: Eu cursava Direito na Cândido Mendes
, só fiz um semestre. Prestei vestibular para a Facha (Faculdade de Comunicação Hélio Alonso) e só contei para o meu pai no dia do trote. Ele não gostou. O pai dele ela professor de Direito Romano, ele queria que eu seguisse a carreira. Agora quem briga comigo é minha mãe, porque até hoje não me formei. Isso não me orgulha, mas passei por três eleições e concorri em duas, não dava para conciliar.

iG: Quando eleito, em 1998, Garotinho apresentou um plano de segurança como carro-chefe da campanha. Escreveu um livro com o Luiz Eduardo Soares, que foi coordenador de governo até ser demitido por Garotinho pela TV ao denunciar a “banda podre” na polícia. Por fim, no período do governo Anthony e Rosinha, a milícia se fortaleceu… (Clarissa interrompe a pergunta)
Clarissa: Isso é você quem está dizendo.

iG: Com base nos dados da CPI das Milícias. E o chefe de polícia nomeado por ambos, Álvaro Lins, foi preso acusado de integrar quadrilha que usou a Polícia Civil para cometer crimes. Que visão você tem dessas denúncias?
Clarissa: Meu pai foi muito corajoso em assumir a secretaria de Segurança Pública (no governo Rosinha Garotinho, que sucedeu o marido). Ele fez uma boa gestão. Garotinho modernizou a frota das viaturas de polícia e criou o Instituto de Segurança Pública (ISP). Não havia estrutura para fazer interceptações telefônicas. Hoje, só a Polícia Federal tem um sistema tão bom quanto o do Rio de Janeiro. Erros podem acontecer e as pessoas precisam ser responsabilizadas.

iG: Mas o Álvaro Lins não era uma indicação direta dos seus pais?
Clarissa: O governo da minha mãe encaminhou o pedido para que ele fosse investigado.
Agora, quando você está no governo você não pega as pessoas e sai descartando sem saber o que aconteceu.

iG: Garotinho chegou a ser condenado no mesmo processo que ele…
Clarissa: Reafirmo que a investigação começou a pedido da minha mãe.
Meu pai é o único político no Brasil que espontaneamente autorizou a quebra de seu sigilo bancário e fiscal. Não há o que esconder.

iG: Você pode afirmar que mesmo em nome de uma política de segurança de sucesso, com controle sobre o tráfico de drogas, seu pai não tomou atitudes que possam ter permitido o fortalecimento da milícia no Rio de janeiro?
Clarissa: Posso afirmar que meu pai jamais favoreceu milícia. Garotinho teve a coragem de colocar os maus policiais, os da banda podre, para fora e a Justiça mandou reintegrar. Repito, se hoje a segurança do Rio é equipada é consequência do que ele fez.

iG: Você pensa em ser governadora?
Clarissa: Não.

iG: A prefeitura então está nos planos?
Clarissa: Sim, gostaria de um cargo no Executivo.
Um dia fui à casa de uma senhora, o marido era cego, num lugar muito humilde, e ela disse que votaria em mim para que eu melhorasse as coisas por lá. Expliquei que um vereador não tem esse poder. Fui para casa e comecei a chorar. Essas coisas que me fazem querer um dia ocupar um cargo no Executivo: o poder de realização é maior.

Fonte: IG

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