Meu vizinho conversa com Deus – e com Axl Rose

André Barcinski

Oito da manhã de sábado, e um lamento lúgubre invade nossa casa: “Espíritoooooooooooo….. espíritooooooooooo….”

É o terceiro fim-de-semana seguido em isso que acontece. É como um uivo alto e incômodo, acompanhado por um teclado meio progressivo. É o que se poderia chamar de música, mas que prefiro definir como trilha sonora de execução medieval.

O autor é meu vizinho. Mal amanhece o dia, ele liga seu possante soundsystem e pôe a maldita canção. Sempre a mesma.

A janela do nosso quarto fica a uns 50 metros dos alto-falantes do sujeito, mas parece que a banda está tocando no pé da cama. A voz ecoa pelas paredes como um mantra do além. É apavorante.

Neste sábado, não agüentei e fui falar com ele.

Fui atendido por um senhor que recolhia folhas no quintal: “Ele não está, saiu para comprar pão”. Ah, entendi, então ele deve ter calculado o volume do soundsystem para ser ouvido na padaria, que fica a uns 1600 metros da casa.

Depois de 15 minutos, chega o vizinho. Confesso que não era o que eu esperava: o sujeito era forte como um halterofilista, usava uma regata e tinha o corpo inteiro coberto de tatuagens. Parecia um roadie do Social Distortion.

Expliquei minha situação: minha filha de dois anos está em casa chorando, com medo dos espíritos. Será que eles não poderiam baixar lá em casa um pouco mais tarde? Precisava ser às 8 da manhã de sábado?

Ele foi surpreendentemente compreensivo. Pediu desculpas e baixou a potência do soundsystem para um volume mais adequado ao horário, algo no meio do caminho entre o trio elétrico da Daniela Mercury e a turbina de um 767.

Fui embora, satisfeito e otimista com a possibilidade de entendimento entre homens de boa vontade.

Aqui, vale um parêntese: não vou dizer a que igreja o vizinho pertence, mesmo porque não sei. Hoje em dia são tantas as denominações que corro o risco de me enganar. Além do mais, o tema desse post não é religião, mas a falta de civilidade de quem acha normal impingir seus gostos – musicais ou religiosos – nos vizinhos.

De volta à nossa rua. Passamos um sábado tranqüilo, ouvindo os espíritos ao longe. Mas, à noite, o bicho pegou.

Lá pelas 9 horas, outro som da pesada começou: “Welcome to the jungleeeeeeeeee!” Era Guns’n’Roses. Axl Rose espantou todos os pássaros, cães, minhocas, enfim, todos os seres vivos que costumam buscar refúgio em nosso quarteirão.

Na sequência rolaram AC/DC, Legião Urbana, Nirvana, Ramones, Raimundos e até Sex Pistols (“Anarchy in the UK”), canção que, curiosamente, começa com o verso “eu sou um anticristo”.

Foi duro. Mas deixou uma lição: falta de civilidade não tem religião e nem horário. É universal.

Alguns leitores lembraram, num post anterior, de uma grande frase de Chesterton sobre música ao vivo em restaurantes: “Música com jantar é um insulto tanto ao cozinheiro quanto ao violinista”.

Chesterton morreu em 1936. Não teve tempo de experimentar o boom dos possantes soundsystems caseiros. Se tivesse, certamente teria escrito algo sobre meu vizinho.

fonte: UOL

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