Saudade feiticeira

Ricardo Gondim

Há algum tempo, escrevi que saudade é uma feiticeira que mistura a poção mágica da lembrança; uma bruxa especializada em ressuscitar o passado. Ontem, eu não conseguia dormir, e não é que ela veio para me assombrar? Deu-me um gole e, de repente, comecei a rever lugares, pessoas e momentos que encheram a minha infäncia de felicidade. Ah, como a bruxa me torturou!

Tomei caldo de cana com pastel de carne no Leão do Sul, que ficava do lado direito da Praça do Ferreira;

Joguei pedra nas árvores da Gentilândia. Contente, comi mangas verdes, que de tão azedas deixaram os meus dentes sensíveis;

Peguei “carretilha” (surf de barriga) na Ponte Metálica com prancha de madeira e depois voltei para casa esfomeado. Senti a cama subir e descer no movimento da maré;

Paquerei na frente da Escola Normal com a farda do Liceu. Tímido, fiquei contente em dizer que ela “olhou para mim”;

Enfrentei duas horas de fila no Cine São Luis. Quis sentir o mesmo entusiamo em ver o Elvis Presley;

Voltei ao mesmo Cine São Luis com a carteira falsa que me dava dezoito anos. Desejei ter o mesmos olhos que contemplaram a Barbarela (Jane Fonda) nua;

Fui à Igreja Nossa Senhora dos Remédios, mas não entrei para a missa até a hora da Elevação da Eucaristia; busquei reconhecer a namorada que esqueci o nome;

Pulei o muro do Clube dos Estudantes Universitários (CÉU) para torcer contra a Faculdade de Medicina no Futebol de Salão;

Sentei na “coxia” da Avenida Duque de Caxias no carnaval e ri de homem vestido de mulher e do “Bloco dos Sujos”. Aguardei o Maracatu desfilar numa cadência lenta e cheia de encanto;

Fui para a frente da televisão da casa da vovó e assisti aos “Os Intocáveis”, “Quarta Dimensão” e “Bat Masterson”. Não esqueci, é claro, do Emiliano Queiroz, na novela do Canal 2.

Saí de casa em casa recolhendo jornal velho e vendi para os vendedores de carne e de peixe na feira da Gentilândia. Voltei a precisar de uns trocados para a Coca-Cola da praia;

Joguei bola até ficar escuro no campinho de areia da pracinha;

Fiquei horas vendo camelôs na Praça José de Alencar. Por alguns trocados, eles comeram lâmpada fluorescente, deram saltos mortais, anunciaram emplastro de óleo de peixe elétrico e prometeram que chá de catuaba é milagroso “para curar homem brochado”.

Retornei à quermesse do Maguary; e chorei!

Chorei porque sabia que essa Fortaleza não existe mais. Ela se degradou com a mania de todo o mundo querer morar na Aldeota, o bairro chique. Meus verdes anos desapareceram junto com a morte dos programas de auditório na rádio, junto com o imperialismo da televisão importada do Rio de Janeiro e junto com o aumento da bandidagem.

A Fortaleza que fez vários meninos e meninas felizes só volta ao presente quando a feiticeira decide distribuir sua beberagem em noites insones. Mas, depois, a bruxa vai embora e deixa a gente cansado, moído de saudade.

Soli Deo Gloria

fonte: Ricardo Gondim

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