Retalhos

.

Johnny Brito

Três coisas desgraçam o meu bolso: Livros, tênis e materiais artísticos. O fato de ter uma Livraria Cultura enorme no shopping aqui da Pompéia não ajuda muito, pois não há uma vez que eu pise naquele shopping sem gastar pelo menos uns 20 minutos na livraria… e raramente saio de mãos vazias. Para piorar minha situação as seções de Quadrinhos e Design ficam coladas uma na outra (uma de costas pra outra), então lá ficou eu num carrossel sem fim, olhando as novidades, me controlando pra não sair comprando tudo.

Em uma dessas visitas em que não consegui sair de mãos vazias, resolvi comprar uma graphic novel da qual tinha ouvido excelentes críticas e que havia recebido muitos prêmios. O nome do pequeno tijolinho de papel com 582 páginas era Retalhos (Blankets), de Craig Thompson. Cada uma dessas 582 páginas valeu a pena! Na verdade, li tudo numa única noite, parando apenas parar assistir Cinema Paradiso no meio.
Retalhos é sem dúvida alguma uma das coisas mais bonitas, sensíveis e sinceras que já lí.

Mas o que tudo isso tem a ver com esse blog?

Tudo.

Retalhos é a narrativa autobiográfica da vida de Craig Thompson, quadrinista nascido em 1975, em Traverse City, Michigan, Estados Unidos. Da infância turbulenta, onde dividia a cama com o irmãozinho mais novo, a conflitante adolescência, acompanhamos a vida de um jovem criado na igreja batista (pelo menos dá a entender que se trata de uma igreja batista), numa cidadezinha pequena no meio do nada, coberta por neve quase o ano inteiro.

Ele é magro, pobre, estranho, reprimido pelos pais, pelos valentões da escola, pelos irmãos da igreja… e, mesmo assim, muito compromissado com Deus. Vemos nessa a história de milhares de pessoas que conhecemos, talvez até nós mesmos.

Quando li, fiquei pensando como essa história parecia fazer muito mais sentido para quem cresceu numa igreja, convivendo com os irmãos, os dilemas, as atividades e as contradições. Acompanhamos diversas passagens que parecem normais a nós e tenho certeza que trazem lembranças a qualquer pessoa que cresceu em comunidade.

Alguns pontos me marcaram muito na história:

1. Quando Craig conta a uns irmãos da igreja que quer estudar artes, eis o que ele ouve:

Cara da igreja: Craig, eu recomendo enfaticamente…ou melhor, devo ALERTÁ-LO para que não vá a escola de artes. Meu irmão fez escola de artes e eles fazem “desenho de observação”, sabe?

É, quer dizer, você tem que desenhar gente, mas… ahm…eles ficam todos pelados. Era como correr direto para os braços da TENTAÇÃO.

Não demorou para que ele quisesse ver mais e mais pessoas NUAS, então se viciou em pornografia…E aí, isso não foi o bastante… então ele… ahm…
Desculpe. (snif)

…então ele logicamente deu o passo seguinte.

Tiazinha da igreja: Virou um a-assassino?

Cara da igreja: HOMOSSEXUAL!

(…)

Menina da igreja: Sua única opção, Craig, é buscar uma universidade CRISTÃ. Todas as matérias são voltadas para Cristo. Aliás, eles REJEITAM qualquer texto que fuja da VERDADE Bíblica.

…e aí, parece um discurso familiar para vocês? Pode parecer exagerado, mas esse diálogo reflete a forma como muitas pessoas no Reino enxergam a arte.

2. Em diversos momentos da historia, Craig relata coisas vividas nos acampamentos de inverno da igreja dele. Como ele é deixado de lado por todas aquelas crianças/jovens populares, santos, cheios de habilidades e admirados por todos. Ele narra também como dentro dos quartos, as atitudes e conversas em nada lembravam um acampamento evangélico. Na verdade, lembram sim…e muito, mas não como imaginamos que deveria ser. Se nos despirmos do puritanismo hipócrita, arrisco dizer que podemos enxergar ali quase qualquer acampamento cristão.

Lemos sobre um jovem que ama a Deus, que inclusive demonstra ter um chamado ministerial… mas que nunca foi apresentado a um Deus de amor. Ele sempre ouve de um Deus que castiga, vive cercado de “irmãos” que não o entendem e não o amam. Então ele chega a adolescência, conhece seus desejos, seus sonhos, conflitos, se apaixona.

Na verdade, é um pouco triste ver como todas essas coisas roubam a fé de Craig, que começa a história como uma criança que lê a Bíblia escondida no cobertor e termina como um adulto ateu. Como, na cabeça dele, para viver seus sonhos, sua arte e se libertar de toda aquela inhaca da vida dele, ele precisa deixar de lado seu Deus. É triste.

Então ele é um fraco?

Não. Acompanhando a história, você acaba entendendo o curso que as coisas tomam. Pode não concordar, apoiar…mas entende.

Pessoalmente, acredito que embaixo de todo esse rancor pelo passado sofrido, toda essa mágoa e confusão, Craig ainda lembra do Deus com quem conversava em seus momentos mais íntimos e difíceis. Acredito que um dia ele ainda vai entender tudo isso.

Então você está recomendando a história de um cara que cresce aprendendo sobre Deus, mas que deixa sua fé para se entregar ao sexo, seus sonhos e vontades?

Aham…estou sim. E recomendo MESMO! Leia com maturidade e tenho certeza que enxergará em muitos trechos da história de Craig a sua própria história, assim como enxerguei a minha. Leia e refilta sobre como nossas decisões e escolhas podem mudar nossa história…pra melhor, ou pior. É uma história tocante e lindamente sincera.

Pra quem se interessar: Retalhos, de Craig Thompson – Quadrinhos na Cia.

Boa leitura :).

fonte: 2º Simpósio de Artes IBVP

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Retalhos

Deixe o seu comentário