Jesus: capitalista ou comunista?

Gabe La Monica

No interior dos escritórios do American Enterprise Institute (AEI), em Washington-DC questionei Shane Claiborne e Peter Greer se Jesus era capitalista ou comunista. Os dois são cristãos que trabalham em defesa dos pobres. Eles haviam acabado de participar de um profundo debate, moderado por Eric Teetsel, sobre a natureza existencial da caridade.

Claiborne é um sujeito alto e magro, com longos dreadlocks, que usa brincos e cavanhaque. Membro fundador da comunidade Simple Way [Jeito Simples], na Filadélfia, ele respondeu: “Jesus não era nada que termina com ista. Ele era um amante existencial, mas penso que estava desafiando todos estes sistemas, em busca de obter o melhor das pessoas envolvidas nesses sistemas”.

Diferentemente de Claiborne, Greer estava bem vestido, bem barbeado, e com seu cabelo loiro bem aparado. O presidente  da organização Hope International disse que “Jesus era um restaurador, não se encaixava em nenhuma dessas categorias, mas veio para endireitar as coisas”.

O tema das palestras era “Um sacerdote, um levita e um samaritano entram em um bar: como amar o próximo no século 21“. O debate no evento do AEI girava em torno de uma releitura da parábola do Bom Samaritano e o problema de oferecermos alívio imediato para as grandes necessidades e ajudar na capitalização dos mais pobres. Mas, ao mesmo tempo, como podemos fazer a transição para alcançar um desenvolvimento sustentável.

O conceito “microfinanças e microcrédito” rendeu ao fundador do banco Grameen, de Bangladesh, o Nobel da Paz. O mesmo sistema já é aplicado pela Hope International em 14 países, auxiliando mais de 250.000 clientes. Perguntei se Greer achava que esse tipo de financiamento poderia tornar-se um sistema falido e o questionei sobre o do surgimento de agiotas no mundo do microfinanciamento na Índia.

“O que está acontecendo agora na base das microfinanças mostra por que é preciso ter algo mais que apenas o acesso ao capital ou uma nova forma de conceder empréstimos aos pobres. Fazer somente isso é insuficiente para vermos a verdadeira transformação que acontece nas comunidades. A situação na Índia – também operamos por lá, mas com um modelo diferente – nos dá a garantia que os lucros que estamos gerando são reinvestidos nessas áreas. Ressaltamos a necessidade de mais formação e de eles abrirem uma poupança. Não acreditamos que apenas oferecermos  empréstimos de 50 dólares resultará em uma grande transformação. Essa é uma questão importante. É preciso dinheiro para se fazer mais dinheiro. Isso é apenas uma parte de um quadro maior do que é necessário para transformar uma comunidade”.

Embora nenhum dos dois deseje retratar Cristo como capitalista ou comunista, Claiborne e Greer têm conceitos diferentes  sobre economia.  Perguntei se Claiborne achava que a economia mundial era um “bolo fixo”:

“Não diria que é fixo, mas a pobreza não foi criada por Deus. Deus não se atrapalhou e fez gente demais ou criou as coisas com escassez. A pobreza foi criada por nós, porque não vivemos seu plano de amar o próximo como a nós mesmos. Realmente não entendermos que alguém que está sofrendo precisa de mim e que isso exige algo de todos nós. Quando você tem uma enorme disparidade entre ricos e os pobres, torna-se algo insustentável. O mundo nunca será um lugar seguro enquanto multidões viverem na pobreza para que uma minoria possa viver como bem entende. É totalmente nossa responsabilidade descobrir como os grandes presentes que este mundo possui devem ser compartilhados entre as pessoas”.

Greer vê a economia mundial como uma entidade em expansão:

É possível gerar riqueza. É possível ser criativo. Minha experiência em lugares de pobreza me ensinou que não existe um lugar no mundo onde não haja capacidade e o espírito empreendedor para fazer um mundo diferente. Criar uma aldeia diferente requer um pouco de capital e a fé que os habitantes que vivem nesses locais têm capacidade e condições. Eles precisam apenas de uma parceria, não que simplesmente tenhamos pena”.

O existencialismo muitas vezes remonta ao filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard. Ele afirmava que o universo é fundamentalmente paradoxal. É neste aspecto que as filosofias de Claiborne e Greer se alinham.

Claiborne resumiu isso muito bem quando disse: “Muitas vezes a caridade é um ótimo lugar para se começar, mas é um lugar terrível para se terminar”.

Veja na íntegra como foi o debate de quase duas horas (em inglês)
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Fonte: CNNAEI

Tradução: Jarbas Aragão. Todos os direitos de tradução reservados.

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