Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade

Jorge Pinheiro

A lembrar o dia 20 de novembro, jornada nacional da consciência negra, me remeto a Nabuco quando escreveu sobre o abolicionismo com o propósito de lançar as “sementes de liberdade, direito e justiça, unindo em uma só legião os abolicionistas brasileiros, a fim de que o Brasil fosse elevado à dignidade de pais livre, como o foi em 1822 à de nação soberana, perante a América e o mundo”. Os abolicionistas se mobilizavam por um Brasil sem escravos, onde a discriminação fosse extirpada.

O movimento abolicionista surgiu na sequência dos movimentos de insurreição, que traduziam o desejo de liberdade do povo negro. Fugiam das fazendas e buscavam a liberdade nas cidades, especialmente, depois de 1885, quando por lei, na maioria das vezes não respeitada, foram proibidos os castigos corporais aos escravos fugidos, se recapturados. Para citar um exemplo, em São Paulo, liderados por Antônio Bento, milhares instalaram-se no Quilombo do Jabaquara, em Santos.

E ri-se a orquestra irônica, estridente/ E da ronda fantástica a serpente/ Faz doudas espirais…/ Se o velho arqueja, se no chão resvala,/ Ouvem-se gritos… o chicote estala./ E voam mais e mais… (Castro Alves, Navio negreiro, parte IV).

Mas, tais movimentos foram desconsiderados pelo abolicionismo conservador que via o negro como bárbaro e selvagem, e incapaz de executar ações políticas. Assim, os conservadores, mesmo quando abolicionistas, não viam o negro como agente histórico. Preconceito e racismo estavam aninhados no abolicionismo e encontravam apoio nos detentores do poder, os senhores, que, por direito divino, eram superiores aos negros e aqueles de pele colorida pela mistura.

Presa nos elos de uma só cadeia,/ A multidão faminta cambaleia,/ E chora e dança ali!/ Um de raiva delira, outro enlouquece,/ Outro, que martírios embrutece,/ Cantando, geme e ri!

Mas, o movimento abolicionista expressava também princípios de direito, liberdade e justiça, porém, por marchar de forma isolada dentro da sociedade, ao não ter ligações fortes com os quilombos, não tinha a consciência do combate de raça e classe, já que a liberdade não é dada, mas conquistada. Tanto que a campanha abolicionista passou a adotar o lema “Abolição sem indenização”. E a população, mesmo quando solidária com o movimento abolicionista, capitulava à voz de deus, expressa no discurso e ação da Igreja católica, escravista e latifundiária.

Dessa maneira, a fraqueza do movimento abolicionista consistia em achar que a escravatura iria desaparecer num processo gradual. Isso não aconteceu e favoreceu a manutenção da falsa consciência escravista que se enraizou na cultura brasileira.

Fruto da falta de articulação entre o movimento, os quilombos e as insurreições negras, a abolição deixou de construir um rumo político ativo e transformador da sociedade brasileira. E as reformas de estrutura da sociedade, complementares à abolição, como a reforma agrária, a divisão justa da terra, e os incentivos para a pequena e média agricultura nunca existiram, e lançaram os afrodescendentes na categoria de párias, homens e mulheres marginalizados do desenvolvimento econômico, político e social.

E como o preconceito e o racismo se tornaram instituições, surgiram leis que proibiram aos afrodescendentes o direito de ir e vir, forçando-os a se refugiarem nas periferias das cidades, origem das favelas e mocambos.

No entanto o capitão manda a manobra,/ E após fitando o céu que se/ desdobra,/ Tão puro sobre o mar,/ Diz do fumo entre os densos nevoeiros:/ “Vibrai rijo o chicote, marinheiros!/ Fazei-os mais dançar!…”

O capitalismo industrial, internacionalizado, pressionou a favor da abolição da escravidão, mas não tocou na ideologia da discriminação e do preconceito. Ao contrário, permaneceu a idéia dos abolicionistas de que as diferenças raciais seriam amaciadas pelo tempo. E o sonho da uma sociedade de direito, liberdade e justiça continuou sendo utopia para a população despossuída de bens e direitos.

A lembrar a jornada nacional da consciência negra, proponho que a nova igreja protestante, com presença criativa e forte de afrodescendentes, se manifeste com pedido de perdão histórico e ações de apoio e solidariedade às lutas do povo negro e descendentes, pois os princípios cristãos foram espezinhados pela escravatura e pela herança que deixou. Coram Deo, diante da face de Deus.

E ri-se a orquestra irônica, estridente…/ E da ronda fantástica a serpente/ Faz doudas espirais…/ Qual um sonho dantesco as sombras voam!/ Gritos, ais, maldições, preces ressoam!/ E ri-se Satanás!… (Castro Alves, Navio negreiro, parte IV).

fonte: Via Política

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