Aprendendo a gostar de segunda-feira

Ed René Kivitz

Alguém já disse que o melhor da segunda-feira é que é o dia mais distante da próxima segunda-feira. Ou mais próximo da próxima sexta-feira. Em qualquer dos casos, faz referência à disposição negativa da cultura ocidental em relação ao trabalho.

TRABALHO, CAOS E ORDEM

Provavelmente em razão da leitura equivocada do Gênesis, que associa o trabalho a expressões como “a terra será maldita por tua causa e produzirá espinhos e ervas daninhas”, e “com o suor do teu rosto comerás o pão”, proferidas por Deus a Adão, conforme a narrativa bíblica, o consenso cultural afirma o trabalho como maldição.

Mas há um elo perdido nessa história. O oposto da terra amaldiçoada é o paraíso do Édem, um jardim habitado não apenas pelo primeiro casal, como também por animais de todas as espécies. Ali no Édem estavam Adão e Eva, incumbidos de “dar nomes aos animais”, isto é, identificar, codificar e classificar, condições necessárias para sua responsabilidade de exercer domínio sobre todos os demais seres criados, além da tarefa de cultivar o jardim. Isso significa que o trabalho não é uma experiência posterior ao paraíso no Édem. No paraíso havia trabalho, o primeiro casal recebera delegação divina para zelar pelo belo e pelo útil, duas dimensões essenciais da existência humana.

A Bíblia Sagrada, oferece, portanto, dois paradigmas para experiência humana do trabalho: o jardim e a terra amaldiçoada, respectivamente a possibilidade de um mundo de flores e frutos, contra um mundo cheio de espinhos e as pragas daninhas. Usando palavras gregas, podemos dizer que a terra amaldiçoada representa o caos e o jardim representa o kosmos. A expressão caos reflete o equivalente hebraico “tohu wa bohu”: sem forma e vazia. E a expressão kosmos o conceito hebraico de shalom: a harmonia que resulta em abundância de tudo para todos.

Partindo dessas metáforas, caos e kosmos, podemos concordar com o bispo Anglicano Desmond Tutu, quando disse que “é através do trabalho que cooperamos com Deus”, e extrair uma definição: trabalhar é cooperar com Deus para colocar ordem no caos. O trabalho, portanto, deveria e poderia ser uma experiência rica de sentido e significado e uma fonte de realização humana, pois originalmente a experiência de trabalho não era incompatível com a vida no paraíso.

TRABALHO E FELICIDADE

Poucas pessoas descreveram tão bem o espírito do nosso tempo como Otávio Frias Filho, ao comentar que “vivemos numa época que cultiva a subjetividade tanto quanto nenhuma outra, que considera cada vez mais a busca da felicidade pessoal, entendida como ampliação dos prazeres e ganhos individuais, como o mais legítimo dos propósitos” [Queda livre: ensaios de risco. São Paulo: Cia. Das Letras, 2003].

O conceito de felicidade como algo de dimensão pessoal em termos de prazeres e ganhos individuais é abolutamente idiota. Convida o ser humano a descer ao nível dos bichos, que vivem apenas e tão somente para a satisfação de seus apetites particulares e instintos basais.

Acredito que esse conceito superficial de felicidade, levado ao mundo do trabalho, tem gerado não apenas uma massa de trabalhadores frustrados e cronicamente insatisfeitos com sua experiêncioa profissional, como também e principalmente uma geração infantilizada e hedonista. Vivemos entre esses dois extremos: uma geração de profissionais mimados, que vive sob lemas do tipo “quero fazer apenas o que gosto, não aguento mais o meu emprego, e não suporto a segunda-feira”, e um contingente significativo de profissionais que se julgam fracassados, vivendo sob a maldição do imperativo “você tem que encontrar no trabalho a sua alegria permanente, o seu prazer cotidiano, e a sua realização como pessoa”. Na zona intermediária, dois outros grupos se acotovelam: os pragmáticos e os medíocres. Os primeiros encaram o trabalho apenas como fonte de recompensa financeira, e buscam sua realização em outro lugar qualquer, enquanto os outros se acomodaram e resignaram como quem diz, “já que não dá para ser feliz, então tudo bem, a gente vai levando”.

TRABALHO E SENSO DE DEVER

Antes de relacionar trabalho com expressões como prazer, realização pessoal, satisfação, e fazer o que gosta, devemos enquadrar a experiência profissional como cumprimento de dever. Primeiro porque toda pessoa deve extrair seu sustento do trabalho digno e honesto. A Bíblia Sagrada ensina que “quem não quer trabalhar, também deveria abrir mão de comer”. Isso quer dizer que o trabalho é o único meio legítimo para que Deus nos conceda o pão de cada dia.

O trabalho deve ser encarado como cumprimento do dever também no sentido de que não importa qual seja o trabalho que lhe cabe realizar, deve ser feito com o máximo de excelência e qualidade, no mínimo por respeito àqueles que remuneram sua atividade profissional quanto àqueles que pagam por ela, isto é, os usuários do seus produtos ou serviços. Você não é pago, nem pelo seu empregador nem pelo seu cliente, por um trabalho prazeroso, mas por um trabalho bem feito. O prazer e a satisfação estão no horizonte da sua relação com o trabalho. Seu patrão e seu cliente estão no horizonte de sua responsabilidade, dedicação e competência em relação ao trabalho pelo qual você é recompensado.

TRABALHO, VOCAÇÃO E CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SACRIFICIAL

Antes ainda de relacionar o trabalho com prazer e satisfação, a atividade profissional deve ser vista como uma contribuição social sacrificial. Isso significa que o mundo em que vivemos se viabiliza porque milhares de pessoas estão dispostas a fazer bem feito o que não gostam de fazer, simplesmente pelo fato de que é o que têm em mãos para fazer, conscientes de que a sociedade entraria em colapso caso aquilo não fosse feito.

A verdade é que é bem pequeno o universo de pessoas que têm a experiência do pianista chileno Claudio Arrau, que disse “quanto mais eu gosto do que faço, menos eu chamo de trabalho”. A maioria das pessoas, ou não tem uma vocação definida, um pool de talentos claramente identificado, ou mesmo a oportunidade de se dedicar profissionalmente ao que gosta ou “nasceu para fazer”.

As pessoas que trabalham em contextos distantes de suas vocações, ou por desconhecimento da vocação, ou por impossibilidade de se dedicarem a ela, vivem esmagadas pela frustração e a culpa, convivem com a sensação de que o trabalho sempre será um mal necessário, vêem suas energias físicas e psico-emocionais roubadas, dificilmente conseguem iniciar um processo de transição de carreira, e quase nunca têm a coragem ou a condição de fazer aquela loucura de “abandonar tudo e correr atrás dos sonhos”. Especialmente para essas, ofereço pelo menos três razões para que se levantem da cama com outra atitude na próxima segunda-feira.

TRABALHAR PARA QUÊ?

Para a pergunta a respeito das razões pelas quais trabalhamos, podemos oferecer a seguinte resposta: trabalhamos para construir um novo mundo, inclusive o nosso, que começa dentro de nós.

Trabalhamos para construir um novo mundo. Isso que dizer que independentemente de qual seja o trabalho a ser feito, ele poderá ser fonte de realização e significado quando sustentado por uma utopia. O conceito de utopia, da obra de Thomas Morus, geralmente é compreendido como ideal não alcançavel, isto é, algo que existe em outro tempo e outro lugar, se é que existe. Mas pode também ser acolhido como referência para a ação nesse tempo e nesse lugar, a base de critérios para legitimar o que fazemos aqui e agora.

Na semana passada estive com um grupo de profissionais de uma empresa que atua no ramo de engenharia ambiental. Perguntei àquelas pessoas em que categoria classificariam sua empresa: desejável, necessária ou imprescindível. Fiquei surpreso com a reação das pessoas quando perceberam que atuavam numa empresa imprescindível ao mundo em que vivemos e sua alegria quando se deram conta de que seu trabalho ajudava a construir um novo mundo. Apesar da rotina pesada e das demandas conflitivas de seu trabalho, agora poderiam olhar para seu trabalho com outros olhos, talvez mais realistas e com certo orgulho de saber que sua atividade profissional é uma forma de cooperar com Deus para colocar ordem no caos.

Trabalhamos não apenas para construir um novo mundo, mas também para construir nosso próprio mundo dentro desse novo mundo. Isso tem a ver com aspectos da vida como família, saúde, habitação, alimentação, educação, lazer, sonhos e esperanças para o futuro. Pode ser que o trabalho de alguém não seja tão satisfatório, mas jamais esse alguém deve esquecer o fato de que é justamente aquele trabalho que sustenta seu mundo.

A Bíblia Sagrada ensina que “o trabalhador é digno do seu salário”e que “o salário do trabalhador é sagrado”, provavelmente porque é o salário que possibilita a vida de qualidade e a qualidade de vida.

Finalmente, além de trabalharmos para construir um novo mundo e o nosso mundo dentro desse novo mundo, trabalhamos também para construir nosso mundo interior. Como bem disse o poeta, não é apenas o operário que faz a coisa, a coisa também faz o operário. O ambiente de trabalho e a atividade profissional nos colocam constantemente diante de limites que nos obrigam a amadurecer emocionalmente, desenvolver relacionamentos, aperfeiçoar o caráter mediante a confrontação de valores, crenças e prioridades, além dos desafios relacionados às nossas competências e habilidades.

A Bíblia Sagrada ensina pela boca do sábio rei Salomão que “maior é aquele que conquista a si mesmo do que aquele que conquista uma cidade”, e também que “de nada adianta ganhar o mundo inteiro e perder a alma”, palavras de Jesus.

O maior desafio de uma pessoa não é o sucesso de sua carreira em termos de resultados financeiros, conquistas e realizações profissionais. Na verdade, o que importa é que você faça constantemente a si mesmo três perguntas: que tipo de mundo estou ajudando a construir com o meu trabalho? o mundo que me afeta e que afeto diretamente é digno, justo, belo e bom? que tipo de gente estou me tornando como resultado de minha atividade profissional?

O trabalho como fonte de realização e significado depende, portanto, da consciência de que trabalhar é cooperar com Deus para colocar ordem no caos, e da compreensão de que trabalhamos para construir um novo mundo, inclusive o nosso, que começa dentro de nós.

fonte: Fórum Cristão de Profissionais

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